sábado, 22 de dezembro de 2012

Revolução burguesa no Brasil, do século XIX ao XXI




Introdução

O tema não é o novo, mas merece ainda a devida preocupação: trata-se da revolução burguesa no Brasil. 

    Afinal, enquanto a burguesia estiver presente por aí, dominando o que pode e o que consegue, se coloca e recoloca a problemática da "revolução burguesa" bem como o estudo da especificidade do desenvolvimento capitalista no Brasil.

Em seu sentido real, “revolução” significa o processo histórico de transformações econômicas, sociais e políticas sucessivas e concentradas num período relativamente curto, que vão dar em transformações estruturais da sociedade e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais. São esses momentos de brusca transição de uma situação econômica, social e política para outra que podemos entender por “revolução”. 

Também em seu sentido real, a “burguesia” são os proprietários dos meios de produção modernos, territoriais rurais, territoriais urbanos, industriais, bancos e instituições financeiras, proprietários de sistemas comerciais e de serviços, proprietários agrícolas e rentistas. Nesta classe estão incluídos fundamentalmente os donos da maquinaria capitalista do país, isto é, grandes e médios empresários agrícolas e pecuários, banqueiros, acionistas, industriais, comerciantes e de serviços. Donos de grandes escritórios de advocacia, hospitais, clínicas, escolas, assim como grande número de ações, certamente são empresários capitalistas. 

Como esta classe passou a dominar a sociedade brasileira?  Quais foram suas transformações históricas, econômicas e políticas? E sua relação com o Estado? Afinal, é possível falar numa revolução burguesa no Brasil? Ela se esgotou ou continua ativa? Quais são suas contradições e alternativas?
         No intuito de contribuir nessa discussão, vamos dividir este texto em quatro postagens. Já terminei o período entre o século XIX até o Governo FHC. Vou postá-lo daqui a pouco. Ainda estou finalizando o período do Governo Lula até 2013-2014 e espero terminá-lo até quinta-feira. Depois vou fazer um balanço no Rio de Janeiro disso tudo.   

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Sobre os caminhos da revolução no Brasil



Introdução

         O termo “revolução” faz arrepiar a espinha de muitos sujeitos. No sentido mais ordinário, “revolução” quer dizer o emprego da violência para a tomada do poder por algum grupo, categoria social ou outra força qualquer na oposição. Aqui revolução está mais relacionada com a “insurreição”. Mas uma “revolução” é muito mais que isso. O que entendemos como Revolução Francesa não se reduz apenas a tomada da Bastilha, mas também as agitações camponesas, a marcha do povo sobre Versalhes, a execução de Luís XVI, o terror, etc. Em seu sentido real, “revolução” significa o processo histórico de transformações econômicas, sociais e políticas sucessivas e concentradas num período relativamente curto, que vão dar em transformações estruturais da sociedade e do equilíbrio recíproco das diferentes classes e categorias sociais. São esses momentos de brusca transição de uma situação econômica, social e política para outra que podemos entender por “revolução”. Portanto, no caso brasileiro não se trata se indagar se o caminho da revolução merece esta ou aquela designação, mas sim determinar e saber que acontecerá, ou pode e deve acontecer no curso da revolução.   Um exemplo notório destes que sofrem com a síndrome do manual e suas designações pré-estabelecidas são aqueles cujo horizonte revolucionário é baseado no “esquema Fevereiro/Outubro” da Revolução Russa como estratégia da conquista do poder na situação brasileira contemporânea.

         É relativamente óbvio que não existe modelo completamente universalizável para todas as experiências revolucionárias. Países que vinham de regimes ditatoriais atrozes (como o tzarismo e o salazarismo), que não detinham superestruturas das diversas classes sociais, os parlamentares e o judiciário eram tutelados pelos governos e o poder era exercido quase somente pela força oriunda de aparatos militares e policiais de repressão e vigilância definitivamente não encontra paralelos em inúmeros países do mundo. Assim as condições para uma revolução no esquema Fevereiro/Outubro não estão (e nunca estiveram) dadas em todos os países do mundo. O pior de tudo é que mesmo quando se olha para as revoluções passadas, as revoluções chinesa, vietnamita, cubana, as do leste europeu, elas não seriam “normais”, ou seja, são completamente distintas da revolução de 1917, seja pela classe social, pelas formas de luta, pela existência de um partido e uma direção “bolchevique”, seja pelo Programa , seja pela visão internacionalista do socialismo, etc. Em suma, toda revolução é uma exceção universal, um evento a priori impossível de se realizado por se encontrar, sem exceção, imbuído de condições “objetivamente” singulares em termos históricos, econômicos, (geo)políticos, ideológicos, culturais, organizativos. Toda revolução é necessariamente heterodoxa. Nenhuma fórmula revolucionária se repetiu ao longo do tempo. Todas as revoluções são únicas, representam uma combinação ímpar de múltiplos fatores, combinação que faz com que as revoluções sejam a exceção e não a regra no desenvolvimento da história. As revoluções são realizadas pelo povo, principalmente pelo povo pobre, que já não suporta viver como até então e já se convenceu de que não tem mais nada a perder. A forma com que vai se tomar esse processo é singular, sem espaço para especulações acerca da “natureza” da revolução, proposto de fora e acima dos fatos concretos e dados imediatamente pela realidade que o país está efetivamente vivendo.

É numa tal linha de pensamento que deveríamos deixar para trás as propostas que na atual conjuntura do país buscam um ideal expresso na “natureza” da revolução ou nas cópias áhistóricas das revoluções no passado. Esta síndrome do manual está ligada a uma velha tradição da intelectualidade brasileira. Ao invés de extrair da realidade brasileira os possíveis modelos de seu processo evolutivo, mesmo os heterodoxos, ela em geral importa modelos aos quais procura enquadrar a realidade do país, ou entra em pânico quando não há mais modelos utilizáveis. Nosso desafio é determinar as transformações constituintes da revolução brasileira, não pela dedução a priori de algum esquema teórico preestabelecido. Trata-se de definir uma teoria revolucionária que seja expressão da conjuntura econômica, social e política do momento. É o foco errado na realidade brasileira, cheio de modelos teóricos apriorísticos, que tem impedido a elaboração de uma teoria adequada a revolução brasileira capaz de encaminhar os fatos de maneira verdadeiramente consequente e mobilizar efetivamente as forças revolucionárias. Essas insuficiências teóricas se remetem também o mesquinho embate de facções com teorias sobre “modelos revolucionários” completamente alheios da realidade brasileira. 

         Dizer isto também não torna mais fácil prever as formas concretas que ocorrerá o processo revolucionário no Brasil, pois se depende fundamentalmente da maneira como se desenvolver a luta de classes. Em nosso caso, trata-se, em primeiro lugar, de reconsiderar as circunstâncias em que se processa essa luta, procurar as forças e os fatores capazes de promoverem as transformações econômicas, sociais e políticas na conjuntura presente. Trata-se de reelaborar a teoria da nossa revolução, a fim de pautar a ação política da esquerda brasileira. Não podemos mais sofrer as graves consequências do que respeita a condução prática da ação revolucionária com uma teoria alheia à realidade, exposta ao sabor das circunstâncias imediatas, oscilando continuamente entre o sectarismo e o oportunismo, sem uma linha precisa capaz de orientar seguramente, em cada momento, a ação revolucionária.       

A teoria revolucionária deve acertar na análise da realidade social bem como se orientar pelas novas formas de ação, orientadas para colocar os trabalhadores em condições de solucionar a seu favor a disputa pelo poder, nas circunstâncias atuais. Essa teoria não “inventa” estas formas de ação, mas representa a expressão consciente do movimento espontâneo das lutas de classes. Para produzir “teoria”, portanto, não se depende apenas do conhecimento dos conceitos teóricos clássicos, mas da capacidade de expor o vir a ser do processo revolucionário, investigar e descobrir as perspectivas de transformação social que o atual desenvolvimento das forças produtivas está abrindo, determinar até que ponto este desenvolvimento afeta o conceito de proletariado, pelas diferenciações que introduz no interior da classe trabalhadora.  Trata-se, sobretudo, de entender as novas formas de ação e os mecanismos de participação que as massas estão criando para intervir de modo mais ativo no plano social e político, com uma quantidade considerável de dirigentes e militantes que tem o trabalho de criar raízes fortes com as camadas populares, através de organizações de base (pouco interessa que nome tenham) capazes de acompanhar e participar do dia-a-dia de luta daquelas camadas. Sem isso, a teoria revolucionária é incapaz de descobrir as tendências principais de luta das camadas populares e, da mesma forma que os mais eficientes serviços secretos dominantes, são apanhados de surpresa quando o povo se levanta em revolução. As implicações de uma teoria revolucionária são radicais, pois está em jogo formular a política para o movimento de massas. Não por acaso, a teoria revolucionária considera a prática como o critério para definir a verdade. É disto que se trata quando falamos de “teoria revolucionária”, e não daqueles que deturpam a realidade para ver os fatos não como eles são, mas como “deveriam ser”, à luz do que se passou em outros lugares e dos clássicos mal interpretados. 

A teoria da revolução é indispensável e só pode ser feito a partir das realidades concretas do país, articuladas com a reflexão sobre as interpretações teóricas e as experiências históricas acumuladas pelo movimento popular ao longo do tempo. Além disso, para avançar na reelaboração da teoria revolucionaria nada melhor do que conviver no meio do povo, na mobilização de massas, com coragem para voltar a fazer trabalho de base. Montar grupos de pessoas que criem sociabilidade política e ajudar a criar formas coletivas de luta. A teoria da revolução deve estar intimamente ligada aos sinais do reascenso do movimento de massas. A força material da teoria da revolução não esta apenas na justeza das ideias, mas está no contingente que conseguimos organizar para as transformações. Construir a teoria revolucionária faz parte do processo de preparação das classes revolucionárias para atuar como uma força material revolucionária, quando se criar uma situação revolucionária. Esse é o foco. Quando dizemos que determinadas classes são revolucionárias é porque em determinados momentos seus interesses materiais empurram objetivamente a revolução social. A análise da situação concreta indica exatamente quais são seus interesses e que objetivos estratégicos e históricos lhe são atribuídos. Para alcançar a realização de tais objetivos, porém, é necessário verificar seu grau real de luta, de consciência, de experiência e de organização.

Diante disso, temos que se empenhar, muito mais seriamente do que temos feito, para que a classe de trabalhadores assalariados em formação ganhe consciência do processo de exploração a que está submetida e passe a lutar por seus direitos, sejam os econômicos e sociais, sejam os políticos, a única forma de lhe dar consistência e força socialmente ativa na sociedade brasileira. Estes trabalhadores que fazem parte do exército industrial de reserva das favelas e periferias urbanas vão aprender a lutar em condições de democracia e de combate contra as tentativas de criminalização dos movimentos sociais, podendo emergir como atores que contribuam decisivamente para as mudanças que transformem o capitalismo em outro tipo de sociedade. Da mesma forma que a classe operária que surgiu no ABC naqueles anos, a nova classe trabalhadora da atualidade terá que aprender, com a própria vivência, o que é a exploração capitalista e como lutar contra ela. O papel dos “teóricos” ou setores conscientes consiste em aprender as formas de luta concreta que surgem da prática da massa, em sistematizá-los e generalizá-los, dando a essa mesma massa consciência da que esta realizando. Nesse sentido, é fundamental aprender com a massa. A teoria da revolução é um produto das lutas de massas que acumulam força e educam as massas.

Por fim, é preciso dizer que estamos em um período de reconstrução e reorganização de longo prazo para se recolocar as condições objetivas e subjetivas para a revolução no Brasil – e a reelaboração da teoria da revolução é crucial. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Do lulismo à revolução brasileira: organizando o subproletariado no Brasil




A partir dos dados dos pleitos eleitorais de 2002 e 2006, André Singer (2012) demonstra que o fenômeno do lulismo é expressão de uma camada social específica: eleitores de baixíssima renda ou, em outras palavras, o subproletariado brasileiro. Note-se que a reeleição de Lula no pleito de 2006 não foi mera repetição do resultado do pleito eleitoral de 2002, na proporção em que este último representou um importante realinhamento político de estratos decisivos do eleitorado: o subproletariado, que até então se mantinha distante de Lula, aderiu em massa à sua candidatura após o primeiro mandato.
            
          Singer explica que lulismo representa o subproletariado que (por hora) está interessado na redução da desigualdade por meio de uma intervenção direta do Estado, evitando movimentos sociais que possam desestabilizar a ordem. A legitimidade que Lula consegue durante o seu primeiro governo, entre o subproletariado, parcela da sociedade que a esquerda sempre teve particular dificuldade para organizar, explica-se porque na raiz da formação do lulismo estão o discurso e a prática que unem a manutenção da estabilidade e a ação distributiva do Estado, articulando elementos de direita e de esquerda. Nessa lógica, a conquista da igualdade não requer um movimento de classe autoorganizado que rompa a ordem capitalista, mas depende de um Estado fortalecido com o dever de proteger os mais pobres. Assim Lula consegue adesão e legitimidade significativa entre o subproletariado, aliado a um crescente abandono do programa político original do Partido dos Trabalhadores (PT).
        
        Singer defende que em 2006 ocorreu no Brasil um “realinhamento eleitoral”, cristalizando o que chamou de “lulismo”. Em sua definição, “lulismo” é o encontro de uma liderança, a de Lula, com uma fração de classe, o subproletariado, por meio do programa de combate a pobreza (através de uma política de alimentação do mercado interno e melhoramento do padrão de consumo) sem confrontar os interesses do capital. Ou seja, o “lulismo” seria uma espécie de modernização conservadora, isto é, de reformas sociais pontuais e limitadas sem rupturas com a ordem vigente. É um “reformismo fraco”.

Singer utiliza a mesma categoria de subproletariado formulada por Paul Singer nos anos 1980, ou seja, ele não seria a fração do movimento operário organizado nos anos 1970, mas aqueles que “oferecem a sua força de trabalho no mercado sem encontrar quem esteja disposto a adquiri-la por um preço que assegure sua reprodução em condições normais” (SINGER, 1981, p. 22). Estariam nessa categoria, portanto, empregados domésticos, assalariados de pequenos produtores diretos e trabalhadores destituídos das condições mínimas de participação na luta de classes.

Para André Singer, numa análise similar ao que Marx realizou com os camponeses no seu livro Dezoito Brumário, o lulismo se constitui desde o alto, com o subproletariado como suporte político, apesar de ser uma camada social historicamente conservadora em nosso país:

A análise de Marx é que as frações de classe que demonstravam dificuldades essenciais para se organizar e formar consciência de si e apresentam-se na política enquanto massa. Destituída da possibilidade de agir por meios próprios, a massa se identifica com aquele que, desde o alto, aciona as alavancas do Estado para beneficiá-la. Quando a massa encontra uma liderança que a unifica, entra em cena de maneira intempestiva, por não ser precedida do vagaroso percurso que acompanha a ascensão de classe que se auto-organiza (2012, p. 37).
          
          A adoção de política para o combate à miséria com a ativação do mercado interno foi feita sem o confronto com o capital, num modelo de “diminuição da pobreza com manutenção da ordem”. Durante o governo Lula o número de famílias abaixo da linha de pobreza decresceu e milhões de pessoas ingressaram no subproletariado, assegurando seu acesso a bens básicos de consumo. Juntamente com as políticas de apoio às rendas na base da pirâmide social brasileira, como elevação do valor real do salário mínimo e massificação da transferência de renda, houve o fortalecimento das classes populares assentadas no trabalho. De maneira geral, esse movimento de expansão dos empregos de baixa remuneração se mostrou compatível com a absorção do enorme excedente de forca de trabalho gerado anteriormente pelo neoliberalismo. Dessa forma, a principal marca do lulismo é a integração do subproletariado à condição proletária via emprego formal e diferentes condições para o acesso a bens de consumo básicos e crédito pela ativação do mercado interno.  

O grosso do subproletariado emergente associa-se as características gerais das classes populares – não uma “classe média”. Como avalia Marcio Pochmann, em grande medida, o segmento das classes populares em emergência apresenta-se despolitizado, individualista e aparentemente racional à medida que busca estabelecer a sociabilidade capitalista. A forte expansão do conjunto das ocupações de salário de base pertencentes ao setor terciário e da construção civil e indústria extrativa favoreceu a maior rápida incorporação dos trabalhadores na base da pirâmide social. Com isso, uma parcela considerável da força de trabalho conseguiu superar a condição de pobreza, transitando para o nível inferir da estrutura ocupacional de baixa remuneração. Do total de 21 milhões de postos de trabalho criados na primeira década do século XXI, 94,8% foram com rendimentos de até 1,5 salário mínimo mensal. Em suma, ocorreu o avanço das ocupações na base da pirâmide social brasileira com a expansão do emprego assalariado com carteira assinada. A cada dez empregos de base criados, sete foram empregos formais. Metade do total dos postos de trabalho criados ocorreu de maneira regional, focado nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste, ao contrário dos anos 1980, quando as regiões Sudeste e Sul responderam pela maioria do total da ocupação para trabalhadores de base.

Os empregos do subproletariado são muito variados: telemarketing, feirantes, pequenos empreendedores, autônomos, trabalhadores da construção civil, caixas de supermercado, motoboys, secretariado, serviços de reparo em geral, parte do funcionalismo público, pequenos comerciantes, trabalhadores em domicílio etc. Em suma, são empregos altamente flexíveis e irregulares, por mais que grande parte sejam empregos formais. Alguns têm dupla jornada de trabalho e outros tantos são trabalhadores completamente informais. Enfim, o subproletariado é composto por uma camada social altamente heterogênea em termos de valores, crenças políticas, religiosas e comportamentos. Todos lutam para pagar suas contas e costumam morar nas periferias das grandes cidades. Muitas vezes seu acesso a formas de mínimas de auto-organização e ao espaço público se dá por meio de igrejas evangélicas e neopentecostais.

O subproletariado possui uma trajetória de ascensão por meio do trabalho duro, com fé em Deus para suportar a dor de viver, ter força de vontade e conseguir vencer os obstáculos que aprecem pela frente. Seus integrantes possuem uma narrativa sem tempo linear, previsível ou estável. Sua reprodução se constitui como um desafio permanente. Seu risco não é de proletarização, pois sua condição já é proletarizada, produto de trabalho duro todos os dias. Não é uma condição que se alcançou e se tem medo de decadência, mas uma condição que deve ser buscada em todo momento da vida. Para o subproletariado a estabilidade econômica é algo extremamente valorizado, pois é o caminho da ascensão social. É uma fração da classe trabalhadora emergente no Brasil, diferente daquela do ABC no final dos anos 1970, vivendo um processo de recomposição, ainda com pouca experiência de luta, mas que ainda não mostrou sua potencialidade.

Os trabalhadores do subproletariado respondem atualmente pela metade do total das ocupações no Brasil, 75% são assalariados, do quais dois de cada três possuem carteira assinada. Portanto, é claro que o subproletariado durante o período recente ampliou sua dimensão e tornou-se protagonista de um importante movimento de mobilização da estrutura social brasileira que faz parte da reconfiguração de parte significativa da classe trabalhadora.

A ausência percebida de movimentos sociais em geral, identificados por instituições tradicionais como associações de moradores ou de bairros, partidos políticos, entidades estudantis e sindicais, reforça o caráter predominantemente mercadológico que busca domesticar e aliar as possibilidades de, pela política, aprofundar as transformações sociais neste início do século XXI. Diante disso ficam as seguintes questões: qual é o futuro político do subproletariado? Ser cooptada pelos ideais do livre-mercado, típicos da classe média? Ou pelas milícias e empresas religiosas privadas? Ou poderia ser tomada pelo ideal de uma sociedade calcada no trabalho duro e uma sociedade justa e socialista junto às lutas do proletariado?

         Não há dúvidas que o subproletariado ainda é muito conservador, mas também por culpa do déficit organizativo da esquerda e do bombardeio do monopólio dos meios de comunicação. Essa realidade impede que projetos “socialistas” sejam aceitos facilmente, por mais que já participe de um novo ciclo de lutas das classes populares, como na caso de Jirau. A constatação de Singer de que o subproletariado é uma fração de classe que, embora majoritária, não consegue constituir desde baixo as próprias formas de organização não deve se eternizar no tempo e nem subestimar as formas de luta que pode empreender para conquistar seus objetivos. É verdade que, por hora, essa vasta fração de classe luta de maneira prioritária por ascender ao mundo do trabalho formal em regime capitalista, com todos os defeitos que ele possui – já que tem estado historicamente dele excluída. Mas essa não é toda a verdade. É preciso levar as últimas conseqüências o lulismo. Se está ocorrendo um realinhamento político, agora entre pobres e ricos, a esquerda para ser esquerda tem como tarefa fazer o “impossível”, isso é, organizar o subproletariado. Apenas se esquerda organizar o subproletariado será possível influir decisivamente na luta de classes quando o modelo de “redução da pobreza com a manutenção da ordem” se esgotar ou for bloqueada. Devemos nos focar na organização do subproletariado para se integrar ao proletariado pela luta de classes para encontrar seus interesses comuns e fortalecer as bandeiras históricas da classe trabalhadora. O desafio do proletariado brasileiro, portanto, é estabelecer uma aliança com o subproletariado organizando-o, por mais difícil que seja cumprir esta tarefa.


Mas como organizar o subproletariado? Sobre as origens da revolução brasileira
          

      Como vimos anteriormente, o lulismo se apresenta como a principal marca da política brasileira contemporânea, cujo sentido profundo é a capacidade de representar o vasto subproletariado que vem ascendendo à condição proletária pelas políticas sociais recentes de redução da pobreza sem combater o capital. Nesse cenário, o desafio da esquerda não é lamentar, mas primeiramente conhecer as dificuldades de auto-organização do subproletariado e se focar na organização desta parcela da “nova” classe trabalhadora para influir na luta de classes.

No capitalismo brasileiro contemporâneo, o “subproletariado” é a força potencialmente revolucionária, sendo preciso que esta força se transforme em ação organizada e articulada com as demais forças das massas populares. Voltamos a reiterar: o maior desafio dos revolucionários hoje no Brasil é a organização do subproletariado. É muito provável que no ascenso de massas o subproletariado irá deter um papel decisivo, podendo atuar junto ao projeto popular e impulsionar a revolução brasileira. Mas não existem atalhos. Esse é um trabalho de maratona, mas será este trabalho que determinará o triunfo ou fracasso da revolução brasileira.

Construir uma revolução exige a tarefa de avançar cada vez mais na organização da classe trabalhadora, o que significa acumular força para contribuir na criação de uma situação revolucionária e ser capaz de aproveitá-la quando ela surgir. O nível de organização, de força acumulada, dos dominados é um fator fundamental para determinar a vitória ou derrota de uma revolução. Não haverá revolução no Brasil sem que, em primeiro lugar, haja uma retomada luta de massas, da luta política e da luta ideológica. Sem luta de massas e sem fortes organizações do subproletariado, não apenas torna-se pouco provável que ocorra uma crise de dominação como torna-se praticamente impossível transformar esta crise de dominação numa situação revolucionária. Enfim, sem a organização do subproletariado será muito difícil uma retomada da luta de massas contra o capitalismo. E sem esta organização será impossível - caso aconteça uma nova onda de mobilizações - transformar estas lutas em ponto de apoio para uma alternativa democrática, popular e socialista no Brasil. Em suma, sem a participação do subproletariado é impossível transformar a sociedade de maneira profunda e em favor do próprio povo. A mensagem é clara: a sociedade não se muda sem mexer com o subproletariado.

Entretanto, como vimos, a posição de classe que o subproletariado ocupa na sociedade torna a organização dele muito difícil, ainda mais quando o subproletariado espera apenas mudanças feitas de cima para baixo, por meio de uma autoridade de Estado reforçada e sem ameaça à ordem. Atomizados pela sua inserção no sistema produtivo, necessitam de alguém que possa, desde o alto, receber a projeção de suas aspirações. A menos que organizado por movimentos como o MTST e o MST – movimentos territoriais - , tende a ser politicamente constituído desde cima, ou cooptado por manifestações conversadoras de todo tipo ou organizações criminosas como as milícias.

No caso do MTST, se organizam os brasileiros que sofrem com o problema de moradia, em especial os subproletários que vivem nas periferias urbanas. A luta é contra o capital da especulação imobiliária que tem cada vez mais o apoio do Estado. O subproletariado não tem fornecimento adequado de serviços (água, esgoto, energia elétrica, coleta de lixo, etc) e ainda paga caro pelo aluguel. A maioria do subproletariado não consegue comprar uma casa no mercado, pelos valores impostos pela especulação do capital imobiliário. Os alugueis aumentam a cada dia fazendo com que muitos trabalhadores tenham que escolher entre o aluguel ou botar comida na mesa. Por isso que, para milhões de famílias trabalhadoras, a única alternativa para continuar ascendendo de vida é com a ocupação de terrenos e prédios vazios, seja por iniciativas espontâneas ou organizadas por movimentos populares. O MTST é hoje o maior movimento que organiza o subproletariado no país, adotando a tática de construir grandes ocupações em terrenos vazios nas periferias urbanas, buscando com isso integrar a luta por moradia com a luta por serviços e infra-estrutura nos bairros mais pobres. As ocupações são formas com que o subproletariado constrói referências de organização coletiva e poder popular. Numa ocupação organizada, o subproletariado sai da posição de completa passividade e com essa experiência percebem que podem lutar para decidir também os rumos da sociedade em que vivem.

O exemplo do MTST demonstra que o subproletariado tem capacidade e coragem para se organizar e participar da luta de classes, por vezes, inclusive, de maneira mais combativa e consciente que as “lutas sociais” de diversos setores do proletariado. Apesar de não ser um mundo com glamour, o desafio revolucionário hoje é trabalhar na base do subproletariado, vivenciando e contribuindo para sistematizar suas pequenas experiências de luta, elevando sua consciência de classe. Esse processo não é imediato. É uma missão estratégica, de longo prazo, orientando essas classes no momento que decidirem lutar. Devemos urgentemente reorganizar a esquerda sob este marco, pois ela se encontra muitas vezes alheia a tal processo, sem saber como tratar adequadamente estas transformações. A organização deve colocar o subproletariado em movimento como um setor da classe trabalhadora, fazê-la agir e pensar como parte substancial da classe trabalhadora bem como encontrar seu destino na luta política.

Um primeiro passo neste sentido seria entender que diante da enorme dificuldade em organizar sindicalmente o subproletariado, o espaço em que milhões destes trabalhadores no Brasil tem se organizado e lutado é o território, em especial na periferia e nas favelas das grandes cidades. A politização destes territórios é parte integrante do processo de politização do subproletariado. A revolução brasileira depende da organização das massas nas periferias dos grandes centros urbanos. A maioria da população está nas periferias das grandes cidades de forma desorganizada e ainda não existe uma referência mobilizadora na qual todas as forças possam depositar a sua esperança e avançar na luta de classes. Para isso a esquerda precisa ser capaz de inovar nas formas organizativas combinando as lutas de classes com a integração das lutas territoriais, onde as populações habitam e constituem grandes contingentes das massas do subproletariado. As lutas territoriais se referem especificamente àqueles locais nos quais as massas populares vivem e disputam a sobrevivência e o controle do território que habitam, enquanto aguardam melhores condições para desencadear ações ofensivas de enfrentamento e, com isso, derrotar as forças dominantes. Na atual dinâmica da luta de classes, o local das verdadeiras lutas contra a ordem social não é no campo ou na selva, mas na periferia, o território da nova classe trabalhadora. É por isso que desenvolver formas mínimas de auto-organização nas periferias é nosso desafio mais urgente. É um trabalho árduo, mas que valerá a pena.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sobre o trabalho com as massas




Trabalhamos com a idéia de que não há socialismo sem revolução, e não há revolução sem crescimento exponencial da luta de massas no país. Mas como orientar, quando necessário, as massas para seu destino revolucionário?
Consideramos massas os conjuntos de trabalhadores e elementos populares que convivem numa determinada coletividade, normalmente altamente heterogênea em termos de valores, crenças políticas e comportamentos. Em outras palavras, não consideramos as massas populares ou trabalhadoras um conjunto uniforme, mesmo que pertencentes à mesma classe ou segmento social. Massa é muita gente, é multidão. As massas nada têm a ver com passividade, gente manipulável e dependente. As massas são vivas, às vezes explosivas, possuidoras de memória, consciência, projetos e decisões.
Claro que nem sempre as massas são assim. Pode-se encontrar massas de todo o tipo: ingênua ou consciente, passiva ou ativa, solta ou coesa, conservadora ou inventiva. Mesmo dentro da massa do povo é possível encontrar as correntes mais diversificadas: participantes e curiosos, exaltados e conformados, a turma do “bota pra quebrar” e a turma do “deixa disso”. O que importa enfatizar é que a massa possui dentro dela um potencial de força, de esperança, de vida e de criação que é preciso valorizar e desenvolver.
          A dinâmica de aprendizado e desenvolvimento das massas é dispersa e diferenciada, em virtude de suas próprias condições de trabalho e de vida. Além disso, disperso e diferenciado é também seu conhecimento sobre a realidade econômica, social, cultural e política, na qual essas massas estão inseridas. Afora o fato de possuírem baixa instrução escolar, elas são ainda bombardeadas intensamente por informações que, em geral, procuram mistificar e embaralhar a realidade.
         Nessas condições, a escola de aprendizado das massas, onde quer que estejam, num chão de fábrica, numa ocupação urbana, numa vila rural, ou em qualquer outro tipo de coletividade, só pode ser a prática da luta, seja pela sobrevivência, seja pela conquista de direitos. É na luta que elas descobrem seus próprios problemas, ou os aspectos negativos de sua existência. É na luta que elas começam negando aqueles aspectos negativos, como passo necessário para aprender a apresentar propostas positivas e ganhar coragem para lutar e vencer.
É na luta de negação dos aspectos negativos de sua vida, seja a pouca comida do dia-a-dia, o pouco teto para se proteger, a pouca ou nenhuma terra para plantar, o baixo salário para fazer frente aos custos da vida etc. etc., que as massas apreendem a realidade. Mesmo que essa apreensão ainda seja parcial, e um início de busca de soluções, essa é sua dinâmica "normal" de aprendizado.
Por outro lado, a realidade está em constante mutação. Ela é histórica e nada tem de linear. Às vezes, produz fatos e aspectos negativos que fogem daquela "normalidade", rompem com a dinâmica "normal" e obrigam as massas a negações mais radicais. Crises econômicas e sociais, guerras, conflitos políticos etc. são aspectos de grande tensão na realidade. Mudam a vida das massas de forma ainda mais brutal, obrigando-as a buscar soluções impensáveis em tempos "normais".
Os voluntaristas, em geral, desprezam a dinâmica "normal" das massas. Acham que podem chegar, qualquer que seja o momento, e propor soluções próprias para momentos de grande tensão, acreditando que as massas os seguirão, dependendo apenas de capacidade de convencimento. Recusam-se a partir do nível real de aprendizado delas, e da realidade "normal", participando do processo real, às vezes lento, de luta e descoberta de problemas e soluções. Com isso, frustram-se ao tentar impor uma dinâmica que nada tem a ver com a realidade, e para a qual as massas ainda não amadureceram. Culpam aos que procuram adaptar-se à dinâmica "normal", pela suposta inação das massas. E isolam-se atuando como comentaristas estéreis. Assim, quando os momentos de grande tensão se apresentam, não possuem elos de contato com as massas, que lhes permitam influenciar os acontecimentos.
         Já os espontaneístas se subordinam totalmente à dinâmica "normal" das massas. Não vislumbram a possibilidade de saltos, nas descobertas das massas, quanto aos aspectos negativos da realidade, nem na criação de negações que correspondam a essas novas descobertas. Não se preparam para as grandes tensões e, quando estas se apresentam, são atropelados pelos acontecimentos. É preciso lembrar, portanto, que ninguém é capaz de mobilizar as massas para algo além dos que elas pretendam no momento e que um dos aspectos importantes da participação de líderes e militantes dos partidos populares nesse aprendizado "normal" consiste, justamente, em poderem medir essa tendência e contribuir de forma ativa na organização e na mobilização propriamente dita.
         Quando tais líderes e militantes estão presentes, e são ativos, há uma propensão de assumirem a direção das mobilizações. Isto dá a impressão de que se deveu a eles o fato de as massas haverem se mobilizado. No entanto, eles só assumiram a direção porque estavam presentes e porque captaram as razões e os limites da luta. Não é por acaso que, mesmo estando presentes, há lideres e militantes que não conseguem ser reconhecidos como dirigentes. Tentaram impor objetivos e formas de luta mais avançados, ou mais atrasados, por incapacidade de captar as razões e limites a que as massas haviam chegado em seu aprendizado "normal". Os líderes e militantes que possuem consciência das contradições da realidade, como a luta entre as classes e a luta pelo poder, têm importância tanto na organização e decisão, quanto na avaliação da luta, de modo a elevar o aprendizado e a mobilização. Mas, se não levarem em conta o nível real de aprendizado das massas, certamente cometerão erros que os distanciarão dessas massas.
         E o que acontece quando as massas se juntam para alguma manifestação ou ação coletiva?
         Podemos identificar ao menos três processos: 1) fusão numa identidade coletiva: a nação, a classe, o partido, a religião, a religião, o time, etc. Cria-se uma personalidade coletiva ligada a uma Causa; 2) cria-se entre as pessoas uma comunicação de sentimentos, há emoção, intensidade de experiência; 3) há uma tendência para percepções e escolhas na base do tudo ou nada, do isto ou aquilo, do sim ou não. A massa é em geral plebiscitária. Mesmo na sua desconfiança, a massa tende ao oito-ou-oitenta.
         Para aqueles que se envolvem com as massas, costuma se apostar nisto: as massas são quem devem se tornar donas de seu destino. Nosso trabalho supõe a convicção que as massas tem cabeça (consciência, liberdade) e coração (sonhos, projetos, vontade). A aposta de quem trabalha com as massas é que estas podem deixar de ser objeto para ser cada vez mais sujeito, que elas são capazes de aumentar a consciência, a autonomia e a capacidade de iniciativa. E essa é sua vocação profunda, muito clara na perspectiva bíblica – vós que outrora não éreis povo, agora sois o Povo de Deus (1Pd 2, 10). Se não se acreditar nisso, não há menor sentido em trabalhar com a massa do povo. Aqueles que não acreditam nisso e se entregam ao ceticismo são aqueles que entregam o povo nas mãos dos manipuladores de toda espécie. Sabemos que sem a participação das massas é impossível transformar a sociedade de maneira profunda e em favor do próprio povo. A mensagem é clara: a sociedade não se muda sem mexer com as massas.   
         É preciso distinguir também o trabalho de comunidade (de base, em grupos) e o trabalho de massa. No primeiro a reflexão é mais desenvolvida, enquanto que na massa é a emoção que mais conta. Em suma, na comunidade a metodologia é de conscientização, na massa é a sensibilização. Grupo e massa devem estar articulados, um ajudado o outro. Os grupos ativam dinamismos internos à própria massa. Sem a organização em grupos, a massa permanece como que invertebrada e exposta à manipulação dos grandes. Os grupos devem estar na massa como peixes na água.
         É importante se dar conta de que trabalhar com a massa não é só entrar na direção, estar à frente, pegar no microfone. Também é trabalhar em meio ao povo, dinamizando sua participação, suscitando a tomada da palavra, despertando a intervenção.
         O que falar as massas? A regra geral é falar sobretudo das coisas essenciais, das questões vitais. A análise detalhada das coisas e doutrinas se faz em outro momento, não frente às massas. As massas entendem a linguagem do coração, toca-se facilmente por tudo que é “sensacional” e “impressionante”. Toda linguagem de massa deve buscar inflamar, empolgar. Só as massas entusiasmadas participam, se movem e mudam.
         Para as massas, o coração é que manda. Mas a linguagem do coração é a imagem. Quando bem escolhida, a imagem possui um poder mágico: ela encanta, fascina, seduz. Quando falamos “imagens” que tocam as massas, estamos nos referindo à: 1) símbolos que evocam valores profundos como a cruz, bandeiras, etc; 2) analogias e comparações como parábolas. Aí funciona a lógica da associação, e não a do encadeamento teórico; 3) exemplos com ilustrações de casos concretos e descrições do cotidiano; 4) gestos que comovem as massas, como abraços, beijar o chão. Para as massas, as palavras funcionam quando ligadas à imagem. Aí a linguagem se torna eficaz e mobilizadora.
         Outra regra de ouro na linguagem com as massas é falar das coisas de modo simples. Fugir do complicado e difícil. Deixar de lado os detalhes. Isso não significa repetir banalidades. Estamos falando de simplicidade como o tratamento das coisas essenciais, vitais, nucleares. Quando possível deve-se usar a língua do povo, suas palavras, expressões e referências. Só assim a linguagem passa e cria uma sintonia inconsciente com a massa. A boa simplificação consiste em encontrar o núcleo essencial e dizê-lo numa fórmula simples e eficaz. É fruto de um processo de concentração no essencial, na medida do possível buscando fazer referências à própria experiência concreta das massas.
         Estas são algumas coisas que temos que ter em mente quando trabalhamos com as massas. Isso é crucial pois a principal tarefa de qualquer revolucionário hoje é trabalhar na base das classes populares da sociedade brasileira, vivenciando e contribuindo para sistematizar suas pequenas experiências de luta, elevando sua consciência de classe. Esse processo não é imediato. É uma missão estratégica, de longo prazo, orientando essas classes no momento que decidirem lutar. 
As classes populares no Brasil ainda necessitam de água, luz, esgoto, moradia, educação, saúde e infra-estrutura e estão colocando-se em luta para socializar a riqueza.  A combinação e unidade entre esses sujeitos, demandas e ações tem seu próprio ritmo e mobilização. Nosso dever é saber transformar suas reivindicações em ações massivas, independentes do governo e seus correligionários. Isso só surgirá, entretanto, se retomarmos a velha lição de organização junto à base popular, em seu dia a dia, em lutas diárias e miúdas. Não existem atalhos cujas cúpulas poderiam encaminhar para avançar na luta pelo socialismo. A única forma de os socialistas ganharem espaço na atual situação na luta de classes é dirigindo a luta imediata, cotidiana, por melhores condições de vida da classe trabalhadora. Pessoas insensíveis a estas lutas nunca serão aceitos para dirigir uma luta maior, por outra sociedade. E é nesta luta que os trabalhadores ganham consciência e desenvolvem suas habilidades organizativas e políticas. Se não for por este meio, quando se tornar mais claro os delineamentos da luta de classes e emergir uma generalização da luta de massas, restará apenas o papel dos espectadores debatendo traições em reuniões de “direção” para esconder seu isolamento elitista.
É evidente que não haverá revolução no Brasil sem que, em primeiro lugar, haja uma retomada da luta de massas. Sem luta de massas e sem fortes organizações da classe, não apenas torna-se pouco provável que ocorra uma crise de dominação como torna-se praticamente impossível transformar esta crise de dominação numa situação revolucionária. É a generalização da luta de massas que cria as condições para a disputa do poder. Somente as grandes mobilizações, o estímulo a todas as formas de luta de massa por necessidades imediatas e o trabalho de base podem alterar nossa situação diante da luta de classes e apontar para a emancipação popular. Para liquidar os inimigos do povo, precisamos retificar o trabalho com as massas. Uma vez que o estilo de trabalho seja totalmente correto, todo o povo aprenderá com nosso exemplo. É um trabalho árduo, mas que valerá a pena.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Dois sectarismos no seio da esquerda: a questão do inimigo principal


As divergências na esquerda têm resultados devastadores para a esquerda como um todo. Na maioria das vezes, a principal divergência ocorre em torno do inimigo principal.
Na Europa, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-18), os trabalhadores e os partidos socialdemocratas tomaram as nações como inimigos principais, ao invés de suas próprias burguesias, esquecendo-se de que iriam lutar, na suposta nação inimiga, contra trabalhadores e outros partidos socialdemocratas e de esquerda. Já nos anos 1930, na Alemanha os comunistas consideravam os socialdemocratas seus principais inimigos, e estes achavam o mesmo dos comunistas, quando o verdadeiro inimigo a ser combatido naquele momento era o nazismo. Existem inúmeros outros exemplos na experiência histórica da esquerda, em todos os países, inclusive no Brasil. Aqui, por exemplo, antes do golpe militar de 1964, embora houvesse evidências de que ele estava sendo armado pela direita, várias correntes de esquerda consideravam o governo Jango o inimigo principal. Diante dos dois fatores que desestabilizam a correlação de forcas (a ação conspiratória do grande capital internacional e a ameaça direta de invasão de tropas norte-americanas) a esquerda ficou perdida e brigando, sem comando de ação que resistisse ao golpe de forma eficaz. Mesmo durante a ditadura militar, foram comuns as divisões internas nos grupos de esquerda, muitas vezes considerando-se como inimigos, ao invés de unificar-se na luta contra a ditadura.
Como vemos, é possível dizer que as divergências de fundo existentes na esquerda derivam principalmente da questão acerca do inimigo principal. No Brasil, essas divergências da esquerda tomaram novos contornos com o governo federal dirigido pelo PT no capitalismo recente. Podemos identificar pelo menos duas posições que ajudam a construir um verdadeiro conflito político, o que poderia abrir espaço para a ação da direita, se aproveitando dessa divergência da esquerda brasileira acerca do inimigo principal a ser combatido. São duas formas de sectarismo que se equivocam na questão do inimigo principal e que encontramos provavelmente no interior de todas as organizações de esquerda, sejam partidos, movimentos sociais ou sindicatos. A diferença entre as organizações de esquerda poderia até mesmo ser encontrada pelo papel que esses dois sectarismos se encontram no interior de suas organizações. 
         O primeiro sectarismo é o que costuma ser denominado de esquerdismo, extrema-esquerda ou ultra-esquerda. Essa posição costuma ser identificada como daqueles que consideram o governo Lula e, agora, o governo Dilma, os inimigos principais. O governo dirigido pelo PT seria uma traição ao projeto socialista anteriormente predominante no PT. O caminho a seguir seria baseado nas lutas contra o governo e o PT. Essa esquerda considera que o fato do PT participar de um governo de coalizão, que inclui também forças de centro e de direita, já é sinônimo de traição às forças populares e socialistas, tornando-a incapaz de apontar algum tipo de perspectiva socialista. Como traidores, os partidos que formam o governo de coalizão são os inimigos principais a serem derrotados. Sendo um “traidor”, o PT teria assumido o neoliberalismo da social-democracia do PSDB para aplicar fielmente a agenda da burguesia. Enfim, o raciocínio dessa parte da esquerda é que o governo dirigido pelo PT é o melhor administrador do neoliberalismo, porque além de mantê-lo e consolidá-lo, o fazia dividindo e confundindo a esquerda, neutralizando a amplos setores do movimento de massas.
Normalmente as críticas dessa esquerda aos governos Lula e Dilma batem na tecla de que ambos não fazem nada mais do que consolidar o capitalismo no Brasil. A diferença entre a privatização anterior e a privatização dos governos petistas estaria em que estes colocariam as empresas públicas como instrumento a favor dos interesses privados. Para esses setores entre o governo FHC e Lula/Dilma existe uma continuidade conservadora, tanto em seus aspectos macroeconômicos e em suas opções de desenvolvimento quanto na continuidade das reformas neoliberais exigidas pela lógica da acumulação de capital. O PT continuaria diluído numa aliança de centro-direita, disputando a hegemonia da direção do projeto burguês com setores de direita, enquanto não existiria no cenário político uma classe trabalhadora e uma real alternativa de esquerda. Enfim, o debate se resumiria a saber quem executa as medidas de consenso de acumulação do capital.
Essa parte da esquerda costuma ser cercada de inimigos por todos os lados, julga que a história resulta de sua vontade, enche a boca de categorias teóricas e procura não misturar-se com pobretariado. Acham que podem chegar a qualquer momento e propor soluções próprias para momentos de grande tensão, acreditando que as massas os seguirão, dependendo apenas de capacidade de convencimento. Recusam-se a partir do nível real de aprendizado delas participando do processo real, às vezes lento, de luta e descoberta de problemas e soluções. Por fim, essa esquerda costuma culpar os outros por sua própria incapacidade em apresentar uma real alternativa de esquerda, pretensamente capaz de mobilizar a classe trabalhadora, mudar a correlação de forças, pressionar o governo, remodelar as alianças e fazer com que estas correspondam aos interesses de classe em disputa. Pelo excesso de voluntarismo nem sequer se perguntam por que são incapazes de realizar essa missão, permitindo que as massas sejam "manipuladas". Para eles, tudo depende dos setores mais avançados, dos líderes, partidos e governos "ajudarem" os setores mais atrasados a avançarem, interferindo em seu nível de conscientização, organização e luta. E, quando líderes, partidos ou governos não agem sobre as massas como pretendem, isso representa uma traição. Ficam mais ligados nas disputas entre as cúpulas e desprezam o trabalho de criar raízes fortes com as camadas populares, através de organizações de base capazes de acompanhar e participar do dia-a-dia de luta daquelas camadas. Talvez seja por isso que muitos destes sectários voluntaristas acreditam que é o partido que faz revoluções. Desconsideram que o povo tem seu próprio ritmo de aprendizado e mobilização, e decide o momento em que deve transformar suas reivindicações, aspirações e descontentamentos em ações massivas, independentemente de governo, partidos e lideranças. Desconsideram que só o povo pobre e trabalhador, massivamente mobilizado, faz revoluções, independentemente de haver ou não partidos revolucionários em seu seio. E esse povo só se joga no movimento da revolução quando não pretende mais viver como até então e sente a coragem que não tem mais nada a perder. Estes sinais só conseguem ser percebidos por quem está entranhado na vida do dia a dia do povo. Ao que parece, a única forma de combater esse sectarismo é se voltando de forma efetiva para a base da sociedade, para as inúmeras formas miúdas de organização e mobilização social, que aparentemente não têm efeito global, mas cujo somatório tem, certamente, grande força acumulada.
         O segundo tipo de sectarismo é quase o inverso do primeiro e acontece em diversos setores da esquerda brasileira. Trata-se daqueles que consideram que o inimigo principal é a “extrema-esquerda”. Costumam ser aqueles que falam toda hora que a “extrema-esquerda” faz o jogo da direita e que estranhamente possuem pouca resistência em fazer todo tipo de aliança com a direita e as elites reacionárias (em partidos como o PSD, PMDB ou PP) para derrotar a “extrema-esquerda”. É uma contradição importante que se encontra também no centro das divergências da esquerda brasileira. Isso parece se intensificar já que está ficando claro que, por mais ainda que tenha vitórias, o PSDB-DEM vem se enfraquecendo e mostra sua tendência de fragilização e esgotamento enquanto oposição de centro-direita ao governo Lula/Dilma. É uma “esquerda” que faz parte de um centro meio pantanoso, ora se aproxima de um lado, ora de outro, ficando no mais das vezes como centro-esquerda e flertando com a direita contra a retórica “extrema-esquerda”. Esse processo está formando claramente um bloco multipartidário completamente desideologizado, um limbo onde todos os gatos são pardos, e que hoje compõem a base petista, misturando partidos com passado de esquerda até com a extrema-direita, com a direita mais bárbara, o que tende a se fissurar, por mais que ainda seja muito cedo pra saber o que vai acontecer.
         É difícil saber qual sectarismo é pior para a esquerda. Acredito que, para usar o jargão, ambos fazem o jogo da direita. Nem a “extrema-esquerda” e nem a “esquerda fisiológica” são alternativas para a recomposição das mobilizações das forças populares no próximo período. Por um lado a “extrema-esquerda” tende a se perder no voluntarismo sendo incapaz de criar alternativas políticas fortes o suficiente para impor-se no cenário de então, ou de criar o instrumento para o movimento de massas que tanto pretende. Por outro lado, as vacilações da “esquerda fisiológica” abrem espaço ao oportunismo parlamentar e a reorganização da direita e extrema-direita. Lembremos que a ante-sala do extremismo fascista em diversos países não teve como causa as ações da “extrema-esquerda”, mas as vacilações da esquerda, como no caso da social-democracia alemã, dos socialistas italianos, da República Espanhola e no Chile de Allende. A moderação da esquerda é o que abre as portas de um regime de terror do grande capital. Enfim, como educar aqueles que consideram o governo dirigido pelo PT como inimigo principal e aqueles apoiadores do governo Lula e Dilma que, em sentido contrário, enxergam no PSDB e DEM (bem como outras organizações de extrema-direita) possíveis aliados e tomam outros setores de esquerda como inimigos principais? Todos dão uma demonstração clara de que não aprenderam com a experiência histórica. O pior de tudo é que as teorias e o estudo dessas experiências históricas a respeito parecem pouco valer para mudar essa situação. Sem dúvida ainda será necessário que as correntes de esquerda tenham que passar novamente pela prática de quebrar a cabeça para definir contra quem realmente devemos lutar.



terça-feira, 11 de setembro de 2012

Conflito China x Japão? (Parte 1)



Um perigoso incidente político, diplomático e militar está ocorrendo agora entre China e Japão em torno do arquipélago de Diaoyu.
Este território em disputa é formado por cinco ilhas desabitadas e três penhascos, um território de sete quilômetros quadrados conhecido como Senkaku pelo Japão, Diaoyu pela China e Tiaoyutai por Taiwan, que também o reivindica como seu. Nesse dia 10 de setembro o governo japonês disse que iria “nacionalizar” as ilhas comprando dos “donos japoneses privados” por 26 milhões de dólares para deixar as ilhas sob “controle estatal”. Quase instantaneamente, o governo chinês se mostrou irredutível quanto a sua posse das ilhas.
O premiê Wen Jiabao, numa cerimônia de inauguração da uma estátua de Zhou Enlai e Chen Yi na Universidade de Relações Internacionais de Beijing, disse que as ilhas Diaoyu são partes inalienáveis do território da China e que o governo chinês e seu povo “não vão fazer absolutamente nenhuma concessão em relação a soberania e a integridade territorial”. Já o ministro de Relações Exteriores, Hong Lei, disse que “qualquer movimento unilateral do lado japonês sobre as ilhas Diaoyu é ilegal e inválida”. Hu Jintao disse que o Japão deve reconhecer a gravidade da situação e deveria não tomar decisões equivocadas. Além disso, o governo chinês enviou dois barcos civis ao redor das ilhas para fazer patrulha e mostrar a soberania chinesa sobre as ilhas. O setor de proteção da marinha apontou que está colocando em ação um plano para salvaguardar a soberania e irá tomar outras ações dependendo do desenvolvimento da situação.
A iniciativa japonesa motivou também manifestações em várias cidades chinesas, onde ocorreram protestos na frente de sedes diplomáticas japonesas. Manifestantes em frente à Embaixada Japonesa em Beijing tinham placas com a frase "As Ilhas Diaoyu são território chinês". Algumas pessoas em Guangzhou se reuniram do lado de fora do consulado japonês, gritando slogans como "Protejam as Ilhas Diaoyu!". Cerca de 200 pessoas em Weihai marcharam nas ruas agitando faixas antijaponesas e cantando slogans antijaponeses como "As Ilhas Diaoyu pertencem a nós" e "Boicotem os produtos japoneses". A China defende que as ilhas fazem parte de seu território deste tempos antigos e que a decisão do Japão de nacionalizar as ilhas é absurda, uma provocação aberta que está fazendo lembrar as bárbaras agressões do exército japonês contra o povo chinês.

sábado, 30 de junho de 2012

Mensagem aos Povos Latino Americanos, da Ponte da Amizade


 


Hoje é um dia histórico!

Estamos todos aqui na Ponte da Amizade contra o golpe no Paraguai.

Os golpistas usam do cinismo para argumentar sobre o golpe no Paraguai. Ela sabe que é um golpe, mas age como se fosse um ato constitucional, legal e legítimo.

Para nós isso não pode ser negociável: É um golpe de Estado! É completamente inconstitucional! Não foi um ato legal! Não é legítimo! É um verdadeiro golpe de Estado e precisa ser combatido! O Paraguai se tornou um Estado ilegal, fruto de um golpe de Estado, e assim deve ter tratado pela comunidade no Cone Sul, da América Latina e do mundo.

Nós não aceitaremos isso! Esta luta não é apenas do povo paraguaio, mas de todo continente!

Nosso continente já sofreu demais com as ditaduras sangrentas. Eles não podem comprar nossa dignidade e nem nos calar.

Viemos aqui trazer uma mensagem para toda a América Latina para tremer até os Andes!

Os golpistas não passaram! Deixaremos nosso sangue na luta, mas o golpistas não passaram!

É um momento em que toda a América Latina deve se mobilizar defesa do povo paraguaio.

Apenas um grande movimento de massas em todo continente pode barrar os golpistas!

É preciso acabar com os velhos hábitos golpistas, a velha cultura golpista, as velhas idéias golpistas e os velhos costumes golpistas!

Apenas uma verdadeira revolução cultural pode colocar os golpistas nos livros de história.  

Vamos caminhando! Vamos construindo o caminho de apenas uma estrela livre, uma única América Latina, unida e integrada pelos povos!