O início do governo Dilma será um novo estado de emergência econômico como o de Lula em 2003?
Dilma apresentou a estratégia dos primeiros dois meses de governo que inclui a discussão sobre a regulamentação da reforma da previdência do setor público de 2003, a proposta de desoneração gradual da folha de pagamento de empresas, reforma tributária, a nova regra de partilha do pré-sal e a proposta que limita o reajuste da folha de salários do funcionalismo público. Um programa de ajuste fiscal está sendo gestado e parece corresponder aos interesses do capital portador de juros e, ao mesmo tempo, da “nova classe” dos conselhos administrativos.
Talvez o marco mais interessante do próximo governo será a continuação da crescente convergência econômica entre Brasil e China. A potência asiática impulsiona o avanço dos setores de menos valor agregado brasileiro tendo como resultado mais imediato a maior dependência das exportações. A China produz uma política econômica que torna direta a relação entre expansão da manufatura e da grande indústria com a elevação das importações de produtos primários. Como resultado o preço desses produtos mantêm-se valorizados condicionando a grande indústria de países como o Brasil.
Enquanto as importações totais do Brasil de produtos dos EUA passaram de 23,21% em 2001 para 14,96% do PIB em 2010, as exportações da China ao Brasil cresceram junto com as exportações brasileiras à China. A China já é responsável por 14,1% do total de importações brasileiras em 2010. Concomitantemente, as exportações para a China cresceram constantemente desde 2000, puxado pela venda principalmente de soja e minério de ferro passando de 1,41% do total de exportações brasileiras para 13,7% dez anos depois. Em 2011 passará de 15% ultrapassando os EUA.
Isso apresentará em médio prazo uma maior vulnerabilidade externa do Brasil pela condição volúvel dos preços das commodities. A diversificação do comércio exterior brasileiro não representou uma menor dependência do setor primário. Agora há exportação de commodities para os EUA (especialmente de óleos brutos que chega a 18% das exportações) e para a China.
2011 promete ainda alavancar o preço das commodities. As cotações de soja e milhos são as mais elevadas desde julho de 2008. A demanda por alimentos continua aquecida pelo mercado chinês. O total de investimentos financeiros nos mercados de commodities em geral soma algo em torno de US$ 360 bilhões. Assim Dilma iniciará o governo com o preço das commodities em alta impulsionando as exportações de bens primários. Segundo cálculos, os preços das commodities superariam até as ações de empresas de grande porte, como JBS, Petrobrás e Vale. A desvalorização internacional do dólar também ajuda neste conjunto de fatores que apontam uma maior vulnerabilidade internacional do Brasil. As principais commodities cotizadas no final de 2010 são o café, o boi gordo, o algodão, açúcar, milho, trigo e soja, além do pico do petróleo.
Estimativas dizer que o ritmo de crescimento três vezes maior dos “emergentes” em relação aos países mais desenvolvidos aponta para países como China, Brasil, Rússia, Índia e África do Sul representem cerca de 80% da expansão global em 2011. Ao manter seu dinamismo seriam pólos de crescimento em meio a um ambiente internacional de recessivo. Enquanto os países mais desenvolvidos crescerão cerca de 2,5% em média, os BRICS registrarão expansão de 7,4%. O Brasil tem a projeção de 4,5% e a China de 10% enquanto a zona do euro e o Japão crescerão algo entre 1,5 e 2%.
Nos EUA a estratégia de aumento das exportações de bens e servicos com maior valor agregado parece não surtir efeito sobre o consumo interno. Na realidade, os EUA vivem uma crise de SUPERCONSUMO. Mesmo com a alta na liquidez da moeda e baixa taxa de juros o excesso de capital-monetário não é investido por bancos e empresas na produção de empregos e renda. Parece que a política econômica dos EUA quer imitar a do Brasil com o consumo buscando alavancar os investimentos e não o contrário. Infelizmente essa também é uma estratégia limitada, ainda mais para os EUA.
Enquanto isso os bancos estrangeiro continuam esperando pela abertura do mercado de capitais na China. Parece que o bolo vai crescendo e com ele os investimentos na África e na América Latina – principalmente com a reciclagem dos dólares que resultam em grandes superávits. O Japão também parece viver uma ironia história já que, depois de década de recessão e crise política, somente a China foi ser um parceiro condizente para a expansão de novos mercados e avanço tecnológico. A China está se tornando o “segundo mercado doméstico” de muitos países e ainda tem um espaço de acumulação considerável, em comparação com a Europa e o Japão.
Para finalizar, o governo Dilam enfrentará o “corte nos gastos” que procuraria dosar a alta dos juros para conter a inflação. Isso também é conveniente para a classe de gestores ex-sindicalistas. Essa “nova classe” tem a função de dirigir os órgãos administrativos do capital portador de juros (em especial fundos de pensão) e intensificar os regimentos internos da reestruturação produtiva nas empresas que fazem parte. Trata-se de um “aburguesamento” dos quadros que subiram na hierarquia estatal passando a fazer parte da classe social que sua renda, status e posição lhe dá acesso. Diferentemente dos banqueiros de FHC, essa camada social – com salários altíssimos – usufrui de carros blindados, roupas, vinhos e hábitos caros passando da vanguarda operária para a vanguarda dos gestores.
Ex-dirigentes sindicais se transformando em sócios menores do capital portador de juros (que costumam enfatizar a independência dos sindicatos frente aos partidos e governos) embolam a hegemonia lulista ao incorporar conselhos e presidências como do Sesi, Senai, Sesc, Ministério do Trabalho, Regionais do Trabalho, Previ, Petros, Eletrobrás, BNDES, etc. No Brasil são mais de 250 cargos nos conselhos de 74 empresas que a Previ participa. Esses fundos de pensão são reservas de aposentadoria separadas das contas do empregador que são valorizadas nos mercados financeiros. Elas devem servir para pagar aposentadorias. Os fundos transferem sua gestão a administradores especializados que exercem fortes pressões para obter elevados retornos do investimento. Esses fundos, então, se alimentam do capital portador de juros e dependem de altas taxas de juros.
Em síntese, a política econômica tecnocrática de Dilma está sendo regulada pelas frações da burguesia nacional e pela “nova classe” que tem interesses profundos na alta taxa de juros e na expansão do crédito. Para isso Dilma não pode abrir mão da autoridade quase materna que tem.
A "esquerda" não queria Dilma? Dilma terão!
Neste blog regurgito minhas posições sobre diferentes aspectos da realidade/fantasia social, política e econômica do mundo atual.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
sábado, 27 de novembro de 2010
Quem são os inimigos? Fascismo social no Rio
As favelas são o sintoma da globalização capitalista. Elas não fazem parte de um projeto social que deu errado ou um acidente no processo de distribuição de renda e espaço. Pelo contrário, as favelas são o resultado necessário diante do processo de concentração e centralização da riqueza. Mais de 70% da população urbana no Terceiro Mundo é favelada hoje. Não devemos ter medo de propor que a favela é hoje o “campo de concentração” por excelência da globalização capitalista e o Rio de Janeiro um epicentro tanto de favelas como das políticas “públicas” que incentivam o apartheid social generalizado.
A favela, ao mesmo tempo dentro e fora do ordenamento espacial da lei, persiste no cotidiano com um excesso de controle por parte do Estado para assegurar principalmente suas bordas, para que os conflitos sociais que possibilitaram a ascensão das favelas não se dissolvam pelo tecido social fazendo com que, ao mesmo tempo, exista um enclausuramento dos favelados. Essa violência aberta ocasiona diversas mortes aleatórias e irresolvidas. No rio de Janeiro em especial, a política pública de segurança – a ser seguida pelo governo Dilma – tem a execução sumária como categoria política central.
No Rio diferentes formas de criminalização da pobreza e controle sobre as favelas são colocados em prática, como a construção de muros que cerceiam a favela e a utilização de aparatos técnicos de vigilância como aeronave não tripulada da Polícia Federal que podem ser comandados por um piloto em terra, que fica numa base a até mil quilômetros de distância, ou voar em missões pré-programadas. Decolagem e pouso são automáticos. Cada aeronave é dotada de aparelhos que permitem captar imagens em alta resolução mesmo quando está a 10 mil metros de altitude (10 mil metros!).
Entretanto, a forma mais explícita de criminalização da pobreza é a entrada massiva da polícia e do exército nas favelas que, praticamente em todas as operações, beneficia apenas interesses escusos - como das milícias – sendo uma ofensiva tática militar contra civis que acabam morrendo aleatoriamente aos montes. Na atual ação civil-militar no grande Complexo do Alemão, por exemplo, fica claro que o objetivo não é acabar com o tráfico, mas reconfigurar sua disposição geopolítica em favor das milícias. Deixar um espaço vazio para a entrada das milícias e do Terceiro Comando que, como todos sabem, tem acordos com a política de segurança. Esse é objetivo real da operação em curso.
A questão é que o modelo do tráfico que se firmou historicamente no Rio está em declínio. Na realidade, com a expansão das milícias o tráfico territorializado tornou-se obsoleto. É muito pesado e caro manter um pequeno exército do tráfico considerando que nas milícias são os próprios policiais, seu armamento, disciplina e treinamento que estão em jogo. As dinâmicas políticas e econômicas predominantes hoje também tornam difíceis qualquer competição com as milícias que não se reduzem a um nicho exclusivo de mercado, como do comércio de drogas, e se expandem para uma diversidade de atividades.
Já a mídia, na forma com que retrata essa barbárie, mostra ao povo apenas idiotisse generalizada. Tudo se passa como se fosse uma luta do bem contra o mal e que os “bandidos” são os inimigos reais que a democracia deveria lutar. Desconsideram as milícias, a própria polícia, o Estado, a criminalização, etc, etc. É a banalização do fascismo social. O cerco ao Complexo do Alemão não deve nos enganar: como disse João Cláudio Alves, “o que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade... Nesse rearranjo quem vai se sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico de drogas”. O processo de triagem já começou e, para continuar funcionando, precisa da crescente máquina do Estado. É necessário ir contra os “inimigos internos” que são os elementos excedentes da sociedade em que a lei policial pode utilizar de forma discriminatória o uso e a funcionalidade de suas ações repressoras. Essa ação é um teste para o Estado brasileiro depois do treinamento imperialista de tropas no Haiti. Na realidade, essa ação da política/Exército no grande Complexo do Alemão é um acting out, assim como a entrada dos EUA no Afeganistão: porque o enfrentamento em lugares pobres que são mais fáceis e que não resolvem o seriamente o pepino? Porque não entrar na Baía da Guanabara aonde entram as armas que se destinam, em parte, ao tráfico? Seria um sinal de impotência para lidar de frente com as difíceis questões da violência social ou uma política de segurança fascista contra os pobres para restabelecer o controle sobre áreas estratégicas para a cidade da Copa e das Olimpíadas? Ou ambos?
E agora? Como combinar a necessidade urgente de formas mínimas de auto-organização nas favelas diante desta criminalização generalizada da pobreza que, além dos movimentos político-militares, também aterrorizam os pobres para que não tenham nenhuma possibilidade de reclamar contra sua penúria social?
A favela, ao mesmo tempo dentro e fora do ordenamento espacial da lei, persiste no cotidiano com um excesso de controle por parte do Estado para assegurar principalmente suas bordas, para que os conflitos sociais que possibilitaram a ascensão das favelas não se dissolvam pelo tecido social fazendo com que, ao mesmo tempo, exista um enclausuramento dos favelados. Essa violência aberta ocasiona diversas mortes aleatórias e irresolvidas. No rio de Janeiro em especial, a política pública de segurança – a ser seguida pelo governo Dilma – tem a execução sumária como categoria política central.
No Rio diferentes formas de criminalização da pobreza e controle sobre as favelas são colocados em prática, como a construção de muros que cerceiam a favela e a utilização de aparatos técnicos de vigilância como aeronave não tripulada da Polícia Federal que podem ser comandados por um piloto em terra, que fica numa base a até mil quilômetros de distância, ou voar em missões pré-programadas. Decolagem e pouso são automáticos. Cada aeronave é dotada de aparelhos que permitem captar imagens em alta resolução mesmo quando está a 10 mil metros de altitude (10 mil metros!).
Entretanto, a forma mais explícita de criminalização da pobreza é a entrada massiva da polícia e do exército nas favelas que, praticamente em todas as operações, beneficia apenas interesses escusos - como das milícias – sendo uma ofensiva tática militar contra civis que acabam morrendo aleatoriamente aos montes. Na atual ação civil-militar no grande Complexo do Alemão, por exemplo, fica claro que o objetivo não é acabar com o tráfico, mas reconfigurar sua disposição geopolítica em favor das milícias. Deixar um espaço vazio para a entrada das milícias e do Terceiro Comando que, como todos sabem, tem acordos com a política de segurança. Esse é objetivo real da operação em curso.
A questão é que o modelo do tráfico que se firmou historicamente no Rio está em declínio. Na realidade, com a expansão das milícias o tráfico territorializado tornou-se obsoleto. É muito pesado e caro manter um pequeno exército do tráfico considerando que nas milícias são os próprios policiais, seu armamento, disciplina e treinamento que estão em jogo. As dinâmicas políticas e econômicas predominantes hoje também tornam difíceis qualquer competição com as milícias que não se reduzem a um nicho exclusivo de mercado, como do comércio de drogas, e se expandem para uma diversidade de atividades.
Já a mídia, na forma com que retrata essa barbárie, mostra ao povo apenas idiotisse generalizada. Tudo se passa como se fosse uma luta do bem contra o mal e que os “bandidos” são os inimigos reais que a democracia deveria lutar. Desconsideram as milícias, a própria polícia, o Estado, a criminalização, etc, etc. É a banalização do fascismo social. O cerco ao Complexo do Alemão não deve nos enganar: como disse João Cláudio Alves, “o que está por trás desses conflitos urbanos é uma reconfiguração da geopolítica do crime na cidade... Nesse rearranjo quem vai se sobressair são, sobretudo, as milícias, o Terceiro Comando – que vem crescendo junto e operando com as milícias – e a política de segurança do Estado calcada nas UPPs – que não alteraram a relação com o tráfico de drogas”. O processo de triagem já começou e, para continuar funcionando, precisa da crescente máquina do Estado. É necessário ir contra os “inimigos internos” que são os elementos excedentes da sociedade em que a lei policial pode utilizar de forma discriminatória o uso e a funcionalidade de suas ações repressoras. Essa ação é um teste para o Estado brasileiro depois do treinamento imperialista de tropas no Haiti. Na realidade, essa ação da política/Exército no grande Complexo do Alemão é um acting out, assim como a entrada dos EUA no Afeganistão: porque o enfrentamento em lugares pobres que são mais fáceis e que não resolvem o seriamente o pepino? Porque não entrar na Baía da Guanabara aonde entram as armas que se destinam, em parte, ao tráfico? Seria um sinal de impotência para lidar de frente com as difíceis questões da violência social ou uma política de segurança fascista contra os pobres para restabelecer o controle sobre áreas estratégicas para a cidade da Copa e das Olimpíadas? Ou ambos?
E agora? Como combinar a necessidade urgente de formas mínimas de auto-organização nas favelas diante desta criminalização generalizada da pobreza que, além dos movimentos político-militares, também aterrorizam os pobres para que não tenham nenhuma possibilidade de reclamar contra sua penúria social?
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Dilma sem ilusões
Nestas eleições presidenciais de segundo turno no Brasil vale perfeitamente o cutuque de Zizek: “com essa esquerda quem precisa de direita?”.
O governo Lula re-configurou o capitalismo, as relações de classe, a esquerda, a política e a história do Brasil. Como bem disse Lula “como o Brasil era uma economia capitalista se não tinha crédito? Precisou entrar um metalúrgico socialista para transformar esse país num país capitalista”. Houve a instalação da pós-política democrática pluriclassista “fukuyamista” como discurso nacional oficial numa estranha mistura de gestão dos interesses privados (nacionais e internacionais) com o fim da história política sob a figura do PT no poder.
Algumas pessoas me perguntam: “e aí, como vai ser no segundo turno?”. Entre aqueles que estão pendendo para o Serra enfatizo a necessidade do voto nulo. Para aqueles que são Dilma digo que a melhor posição é “Dilma sem ilusões”. Ok, Dilma tende a ser melhor que Serra. Mas, por favor, não vamos nos iludir que Dilma vai descriminalizar o movimento social e a pobreza, que vai modificar a política macroeconômica baseada em especulação e altos juros. Não devemos ter ilusões. Dilma é uma grande incentivadora da autonomia do Banco Central, de altos investimentos no Agronegócio e despejos para a Copa do Mundo. É Dilma, ok, mas sem ilusões que os bancos vão ganhar menos, que a concentração de terra vai diminuir e que a Reforma Agrária vai ser feita, etc, etc. Isso é, para não cairmos no campismo (doença infantil da esquerda) o voto na Dilma é um voto tático diante da barbárie serrista.
Muito do que o petismo está falando agora é pura retórica e deve ser descartado: “oh, você não está vendo como a Dilma está sendo atacada pela mídia?”. Pena! Foram OITO anos sem a criação de nenhuma mídia alternativa de longo alcance. Além disso, o petismo realmente acreditou que ao ser democrático a direita raivosa iria agora “respeitar” os princípios de governabilidade? Quanta ingenuidade! O pensamento conservador agora está se repolitizando pelo espaço aberto da despolitização que o petismo instaurou.
Outra balela petista que escuto sempre é que com num eventual governo Dilma os movimentos terão mais espaço para lutar. Bem, não necessariamente. Peguemos um exemplo claro que é sua relação com o MST.
Dilma é anti-MST na essência. Sabemos que a o método da luta pela terra no Brasil tem como centralidade as ocupações de terra. Sem elas não existe reforma agrária. Paremos de brincadeira. Dilma disse o seguinte numa recente entrevista: “E não condeno (as invasões) de hoje não. Condeno desde o início do governo Lula. Ele condenou também explicitamente. Nós não concordamos com invasão de prédio, invasão de terra. Não achamos que esse é o método correto”. E daí que “nós não achamos que esse é o método correto”? O que Dilma sabe sobre a práxis da luta de classes no campo? Ela não sabe nem a diferença de uma invasão e de uma ocupação e quer pautar o movimento sem-terra a partir de uma “ligações políticas históricas” entre PT e MST? Dilma que não é uma liderança popular quer impor ao movimento os métodos que podem e devem ser usados? A partir de qual parâmetro? Dilma recentemente abriu o jogo: “fizemos uma política que tirou as principais bandeiras deles. Não foi porque a gente reprimiu. Tem coisa mais eficaz que atender o movimento?”. Em outras palavras, quando o Estado compra o movimento estaria existindo um avanço para a esquerda, ou seja lá o que ela quer dizer com “esquerda”. É a Terceira Internacional correndo nas veias de Dilma. Contra o reacionarismo de Dilma que disse que “Nós não somos o MST”, o real desafio é o lema do MST ser levado a cabo pelo MST e pelo que resta da esquerda: “Todos somos sem-terra”. Como escreveu meu amigo Rodrigo Choinski
"Neste contexto, posição vergonhosa assume a maioria dos movimentos sociais. Mostrando que o medo é um mau conselheiro, a maioria assume a posição equivocadíssima de apoio total e irrestrito (até apaixonado) a Dilma e por consequência apoio (sem concessões) à continuação da atual ordem sócio-econômica e, portanto de tudo aquilo que pretendem combater – já que os problemas que enfrentam têm justamente causa no sistema do capital [...]. É justamente a falsidade do projeto petista – colocado hipocritamente como dos trabalhadores – que mantém ativa a possibilidade da direita mais ordinária voltar ao poder, o que cedo ou tarde vai acontecer, (resultado das instabilidades econômicas do capitalismo que afetam o quadro político, como a possível nova onda da crise mundial pronta para arrebentar no Brasil no biênio 2011-2012)".
O “fim da história” se estabilizou com Lula que, como ninguém em toda a história, geriu uma pós-política em conjunto com as classes industriais, financeiras e latifundiárias. Do ponto de vista do capital, Lula é “o cara”. Agora vem a coroa (DILMA) demonstrando, cada vez mais, que a “linha de menor resistência” faz parte do problema da esquerda, e não da solução. Viva a ambigüidade centrista de DILMA. É DILMA sem ilusões porque não há alternativa – situação criada pelo próprio PT.
Como dizia Marx, a vergonha já é uma revolução. Nada mais necessário hoje do que sentir vergonha do que o PT se tornou para reavaliar as alternativas que estão sendo construídas e não seguir eternamente o caminho mais fácil, mas cheio de oportunismo em nome da “governabilidade”. É o “fim da história” na ascensão do bipartidarismo – PT e PSDB – que esconde sua falsa oposição já que nenhum dos dois postula uma real alternativa que coloque em jogo o marasmo político existente: tudo em nome da gestão pós-política do Estado capitalista do século XXI.
O governo Lula re-configurou o capitalismo, as relações de classe, a esquerda, a política e a história do Brasil. Como bem disse Lula “como o Brasil era uma economia capitalista se não tinha crédito? Precisou entrar um metalúrgico socialista para transformar esse país num país capitalista”. Houve a instalação da pós-política democrática pluriclassista “fukuyamista” como discurso nacional oficial numa estranha mistura de gestão dos interesses privados (nacionais e internacionais) com o fim da história política sob a figura do PT no poder.
Algumas pessoas me perguntam: “e aí, como vai ser no segundo turno?”. Entre aqueles que estão pendendo para o Serra enfatizo a necessidade do voto nulo. Para aqueles que são Dilma digo que a melhor posição é “Dilma sem ilusões”. Ok, Dilma tende a ser melhor que Serra. Mas, por favor, não vamos nos iludir que Dilma vai descriminalizar o movimento social e a pobreza, que vai modificar a política macroeconômica baseada em especulação e altos juros. Não devemos ter ilusões. Dilma é uma grande incentivadora da autonomia do Banco Central, de altos investimentos no Agronegócio e despejos para a Copa do Mundo. É Dilma, ok, mas sem ilusões que os bancos vão ganhar menos, que a concentração de terra vai diminuir e que a Reforma Agrária vai ser feita, etc, etc. Isso é, para não cairmos no campismo (doença infantil da esquerda) o voto na Dilma é um voto tático diante da barbárie serrista.
Muito do que o petismo está falando agora é pura retórica e deve ser descartado: “oh, você não está vendo como a Dilma está sendo atacada pela mídia?”. Pena! Foram OITO anos sem a criação de nenhuma mídia alternativa de longo alcance. Além disso, o petismo realmente acreditou que ao ser democrático a direita raivosa iria agora “respeitar” os princípios de governabilidade? Quanta ingenuidade! O pensamento conservador agora está se repolitizando pelo espaço aberto da despolitização que o petismo instaurou.
Outra balela petista que escuto sempre é que com num eventual governo Dilma os movimentos terão mais espaço para lutar. Bem, não necessariamente. Peguemos um exemplo claro que é sua relação com o MST.
Dilma é anti-MST na essência. Sabemos que a o método da luta pela terra no Brasil tem como centralidade as ocupações de terra. Sem elas não existe reforma agrária. Paremos de brincadeira. Dilma disse o seguinte numa recente entrevista: “E não condeno (as invasões) de hoje não. Condeno desde o início do governo Lula. Ele condenou também explicitamente. Nós não concordamos com invasão de prédio, invasão de terra. Não achamos que esse é o método correto”. E daí que “nós não achamos que esse é o método correto”? O que Dilma sabe sobre a práxis da luta de classes no campo? Ela não sabe nem a diferença de uma invasão e de uma ocupação e quer pautar o movimento sem-terra a partir de uma “ligações políticas históricas” entre PT e MST? Dilma que não é uma liderança popular quer impor ao movimento os métodos que podem e devem ser usados? A partir de qual parâmetro? Dilma recentemente abriu o jogo: “fizemos uma política que tirou as principais bandeiras deles. Não foi porque a gente reprimiu. Tem coisa mais eficaz que atender o movimento?”. Em outras palavras, quando o Estado compra o movimento estaria existindo um avanço para a esquerda, ou seja lá o que ela quer dizer com “esquerda”. É a Terceira Internacional correndo nas veias de Dilma. Contra o reacionarismo de Dilma que disse que “Nós não somos o MST”, o real desafio é o lema do MST ser levado a cabo pelo MST e pelo que resta da esquerda: “Todos somos sem-terra”. Como escreveu meu amigo Rodrigo Choinski
"Neste contexto, posição vergonhosa assume a maioria dos movimentos sociais. Mostrando que o medo é um mau conselheiro, a maioria assume a posição equivocadíssima de apoio total e irrestrito (até apaixonado) a Dilma e por consequência apoio (sem concessões) à continuação da atual ordem sócio-econômica e, portanto de tudo aquilo que pretendem combater – já que os problemas que enfrentam têm justamente causa no sistema do capital [...]. É justamente a falsidade do projeto petista – colocado hipocritamente como dos trabalhadores – que mantém ativa a possibilidade da direita mais ordinária voltar ao poder, o que cedo ou tarde vai acontecer, (resultado das instabilidades econômicas do capitalismo que afetam o quadro político, como a possível nova onda da crise mundial pronta para arrebentar no Brasil no biênio 2011-2012)".
O “fim da história” se estabilizou com Lula que, como ninguém em toda a história, geriu uma pós-política em conjunto com as classes industriais, financeiras e latifundiárias. Do ponto de vista do capital, Lula é “o cara”. Agora vem a coroa (DILMA) demonstrando, cada vez mais, que a “linha de menor resistência” faz parte do problema da esquerda, e não da solução. Viva a ambigüidade centrista de DILMA. É DILMA sem ilusões porque não há alternativa – situação criada pelo próprio PT.
Como dizia Marx, a vergonha já é uma revolução. Nada mais necessário hoje do que sentir vergonha do que o PT se tornou para reavaliar as alternativas que estão sendo construídas e não seguir eternamente o caminho mais fácil, mas cheio de oportunismo em nome da “governabilidade”. É o “fim da história” na ascensão do bipartidarismo – PT e PSDB – que esconde sua falsa oposição já que nenhum dos dois postula uma real alternativa que coloque em jogo o marasmo político existente: tudo em nome da gestão pós-política do Estado capitalista do século XXI.
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
A Atualidade do Comunismo
O desconserto das “saídas da crise” que os estadistas, capitalistas financeiros e industriais estão propondo, vangloriando e prometendo não respondem uma das questões essenciais que nos deparamos nesse século XXI: vamos construir uma alternativa viável, abrangente e sustentável de sociedade a partir de novas organizações coletivas que sejam as “mediações” rumo uma “nova forma histórica” ou vamos sucumbir com o aprofundamento apocalíptico da crise estrutural do capital e suas tendências de aumento da concentração de renda, desemprego crônico, ampla militarização, esgotamento dos recursos naturais, penalização da pobreza e dos movimentos anticapitalistas, precarização e fragmentação do trabalho, etc? Contra aqueles etapistas-evolucionistas-positivistas de esquerda que estavam torcendo pela crise já que estaríamos, assim, caminhando para o socialismo, a pergunta que precisa ser respondida é: o capitalismo poderá sobreviver a essa crise? Indubitavelmente sempre respondo: sem dúvida alguma! A questão é: a que custo? Também sem dúvidas com o custo de uma maior expropriação dos direitos do trabalho numa intensificação da atual precarização generalizada, expansão do crédito (e dívidas), fundos de pensão, maior degradação ambiental, atomizção social, aumento das desigualdades de classe e, para o sucesso disso tudo, um aumento expressivo na repressão policial e política.
1
Os impactos da crise financeira de 2008 sacudiram muitas certezas dominantes que, devida a desestruturação histórica da esquerda pelo esgotamento e esterilidade da forma de luta defensiva, abriu o caminho para uma reorganização da direita – extrema e liberal – com o ímpeto de reafirmar o poder de classe e restabelecer as bases de extração da mais-valia.
A narrativa dominante sobre a atual crise (e que grande parte da esquerda aceita como fato) diz que ela teve como causa a atuação excessiva de alguns capitalistas financeiros internacionais ambiciosos e que, assim, a solução se encontra num novo pacto regulatório entre a “economia real” e a “economia financeira” só de forma mais humana, tolerante, ecológica e harmônica. Essa saída ideológica além de isentar o próprio sistema capitalista de culpa, tem graves conseqüências políticas. Esse discurso “fukuyamista” que a esquerda aprova só faz sentido quando a democracia-liberal contemporânea torna-se o horizonte ontológico da humanidade. Apenas mudanças paliativas e assistencialistas seriam possíveis e, assim, só podemos lutar dentro do jogo democrático – por mais que seja essa mesma democracia o principal obstáculo a transformação social radical hoje.
Assim alguns desafios – negativos e positivos - emergem para a esquerda. Com a entrada histórica da crise estrutural do capital, desde meados de 1970, uma estratégia ofensiva de transformação radical corresponde, em primeiro lugar, ao desconfortável fato negativo de que algumas formas de ação anteriores (“as políticas de consenso”, “pleno emprego, “a expansão do Estado de bem-estar-social”, “keynesianismo para todos” etc.) estão objetivamente bloqueadas, impondo reajustes profundos na sociedade como um todo – e não apenas em alguma parte específica. Estar partindo dessa “negatividade brutal” inicial não significa que os reajustamentos serão positivos, mobilizando as forças de transformação num esforço consciente para se apresentarem como portadoras de uma ordem social alternativa capaz de superar a sociedade capitalista em crise. Como essas mudanças exigidas são muito drásticas, em vez de prontamente aceitarmos o “salto para o desconhecido”, é mais provável que se prefira seguir a “linha de menor resistência” ainda por um tempo considerável, mesmo que isso signifique derrotas significativas para as forças socialistas. Por isso, como salientou István Mészáros, “somente quando as opções da ordem predominante se esgotarem se poderá esperar por uma virada espontânea para uma solução radicalmente diferente” (2006, p. 788). Esse “salto para o desconhecido” é correlato ao “salto de fé” de Kierkagaard que, não tendo a aprovação do Outro, é o momento em que o que era aparentemente impossível se materializa. Portanto, a lição de Rosa Luxemburgo continua mais válida do que nunca: não existem condições objetivas perfeitas para essa transformação radical já que elas são retroativamente criadas pelo próprio movimento. Assim como o amor, quem espera por tal transformação de forma “natural” espera para sempre. Entrementes, essa práxis ofensiva necessita de uma bússola, uma visão que anime o que deve ser feito e por que. É uma lacuna que emerge entre o “movimento real” e a articulação com uma alternativa viável. Assim, o momento de crise profunda como a que vivemos é uma oportunidade histórica para se repensar profundamente a transição social na construção de uma alternativa radical em novas bases organizacionais, de consciência e ação. Que alternativa seria essa?
A lição que talvez sejamos forçados a aprender de nossas condições econômicas e políticas atuais é que um capitalismo humano, social, ecológico e verdadeiramente democrático e igualitário é mais irreal, ilusório e utópico do que o Comunismo. Assim, é tempo de voltar ao Comunismo? Entretanto, qual Comunismo? Ou então, um outro Comunismo é possível?
Vale frisar que stalinismo e o fracasso do socialismo real não invalidam o horizonte de emancipação radical que é o Comunismo. Por isso, é preciso reabilitar e ressignificar urgentemente o Comunismo. Stálin tornou uma ala do partido uma espécie de representação do Espírito Absoluto, perdendo qualquer capacidade de aprendizagem, um princípio socialista fundamental. Stálin introduziu duas novas características ao partido, que não estavam postuladas por Lênin, que intensificaram o seu monolitismo totalitário. Foram às sementes do stalinismo e que precisamos urgentemente simbolizar e apreender criticamente para retomar o projeto Comunista hoje. Elas consistem em: 1) tornar as frações e minorias um “inimigo interno” incompatibilizando sua própria existência e 2) depuração dos elementos oportunistas. A primeira medida (adotada no X Congresso) procura tornar uma medida temporalmente específica em princípio permanente e, assim, extinguindo as diferentes tendências e minorias no interior do partido. A segunda medida busca assegurar uma composição do partido sempre favorável ao núcleo dirigente central. Essas duas características stalinistas par excellence necessitam ser verificadas constantemente em qualquer movimento anticapitalista e não apenas nos partidos políticos.
2
O Comunismo não espera a aprovação do grande Outro – o Partido Comunista, as mídias, o Estado, as empresas, etc. - já que depende da articulação ativa dos sujeitos sociais que constroem na sua práxis uma dinâmica associativa em que, como dizia Marx, o livre desenvolvimento de um é a condição para o livre desenvolvimento de todos. O estímulo do militante comunista não depende do Outro para que regulamente ou ordene. Depende do dever de auto-mediação para com a sociedade que estamos construindo. Esse é um trabalho cotidiano “no sentido interno de aperfeiçoamento, de aumento de conhecimentos, do aumento da compreensão do mundo que nos rodeia. Inquirir, averiguar e conhecer bem o porquê das coisas, equacionar sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios” (Che, 2009, p. 42). Assim, temos que ter a clareza que o Comunismo não depende de um sujeito particular. Na realidade, depende de uma explosiva combinação de diversos agentes sociais e suas mediações institucionais.
O Comunismo se apresenta como uma tarefa radical e imediata na escala que se pode: trabalho, município, bairro, centro de estudo, etc. Não podemos esperar por uma grande revolução para começar um processo de autoeducação sobre nossas capacidades de autogestão e organização coletivas. Como disse recentemente Alain Badiou, “no momento, o que interessa é a prática da organização política direta no seio das massas populares e de experimentar novas formas de organização” orientadas pela “idéia de uma sociedade cujo motor não seja a propriedade priva¬da, o egoísmo e a avidez”. Entretanto, como o capitalismo está fermentando uma luta planetária para enfrentar sua crise, qualquer força social e política progressista não pode ficar estagnada ao local e parcial sendo, assim, necessário se conectar concretamente com uma coordenação de todas as resistências em todos os continentes. Sem dúvida um grande desafio pela frente: unidade organizativa na diversidade heterogênea anticapitalista global.
Voltando a Marx, o Comunismo não é um Ideal que vamos todos chegar felizes ou sem rupturas drásticas e sim o “movimento Real” de superação dos antagonismos existentes no atual tempo histórico. Esse “movimento real” é essencialmente traumático já que quebra o ordenamento acelerado da vida no capitalismo atual que, paradoxalmente, reduz a história ao imediato. Em A Ideologia Alemã Marx julga que esse processo passa por uma consciência comunista numa escala de massas:
Tanto para a criação em massa dessa consciência comunista quanto para o êxito da própria causa faz-se necessária uma transformação massiva dos homens, o que só se pode realizar por um movimento prático, por uma revolução; que a revolução, portanto, é necessária não apenas porque a classe dominante não pode ser derrubada de nenhuma outra forma, mas também porque somente com uma revolução a classe que derruba detém o poder de desembaraçar-se de toda a antiga imundice e de se tornar capaz de uma nova fundação da sociedade (p. 42)
Por essa definição, os Comunistas se definem como todos aqueles que trabalham incessantemente para produzir um futuro positivamente diferente daquele que o capitalismo pode proporcionar ou prometer num revolucionamento constante causado por sua atividade de construção dos fundamentos da revolução.
Naturalmente, não existe Comunismo sem Comunistas. Quem é o Comunista? Ele está engajado nas “mediações” que ligam as tarefas presentes com o futuro. No sentido comunista, essas “mediações - instituições e organizações coletivas - demandam três características básicas: verificação constante da livre circulação de idéias e projetos (sempre no intento de expandir as práticas existentes), uma postura ofensiva socialista (diametralmente oposta da historicamente defensiva) que busca impor a construção de uma alternativa hegemônica diante da urgência histórica do aprofundamento dos antagonismos do sistema do capital e, não menos crucial, uma auto-crítica permanente que permeie pela aprendizagem todos os poros dessa instituição com o sentido de aperfeiçoar as relações entre consciência, organização e ação.
Numa recente carta endereçada por Alain Badiou a Slavoj Zizek encontramos uma bela definição não apenas do que é ser Comunista, como ainda do momento atual do Comunismo perante o seu próprio “fator” como invariante histórica de emancipação - sendo que outra invariante a humanidade não dispõe:
“Nós encontramo-nos no limiar de um ponto de método essencial e no qual, creio-o bem, não há entre nós nenhum desacordo de princípio. Tratando-se de figuras históricas como Robespierre, Saint-Just, Babeuf, Blanqui, Bakounine, Marx, Engels, Lenine, Trotski, Rosa Luxemburgo, Estaline, Mao Tse-Tung, Chou Enlai, Enver Hoxha, Guevara, Castro e alguns outros (e penso nomeadamente em Jean Bertrand Aristide [Haiti]), é ponto capital, sobre todos eles, nada ceder perante as tentativas de criminalização reacionárias ou perante as anedotas eriçadas com que o capital os pretende fechar e anular. Nós podemos e devemos discutir entre nós (um ‘nós’ que sinaliza aqueles para quem o capitalismo e as suas formas políticas são um horror, um ‘nós’ que nós somos para quem a emancipação igualitária é a única máxima de valor universal) o uso que fazemos, ou não fazemos, dessas figuras históricas. Essa discussão pode ser eventualmente viva e fortemente antagônica, mas ela dá-se ‘entre Nós’, e a nossa regra opõe-se absolutamente a toda a conspiração de latidos do adversário”.
Lembro com Che/Ueshiba que militante comunista procura se acostumar a “pensar como massa” – enxerga onde está à falta e a preenche com o vazio. Não existe militante ideal. Todo militante é não-Todo. Sempre ser-faltante que no movimento produz novos significantes para a rearticulação da luta emancipatória. Isso quer dizer que um princípio fundamental do Comunista é a não-resistência que necessita de verificação permanente no movimento de forma cada vez mais disciplinada e sincera no sentido de um aperfeiçoamento coletivo.
3
A legitimidade histórica do Comunismo depende da instituição de uma ordem reprodutiva viável a longo prazo que seja baseada em seus próprios termos positivos. Como sintetiza Mészáros, “a tarefa radical por princípio buscada de modo consciente para superar os antagonismos da ordem existente é inseparavelmente negativa e positiva ao mesmo tempo. E esse é o único significado apropriado que podemos dar ao termo radical, que não se pode permitir continuar atado a uma – definitivamente insustentável – postura puramente negativa” (2009, p. 302). Nesse sentido, a única mediação historicamente sustentável e viável para o Comunismo é a mediação de si própria por parte de um sujeito social ativo que seja capaz de intervir autonomamente e conscientemente no processo de transformação exigida em nosso “destino histórico” sob uma tomada de decisão substantiva pelo corpo social em sua totalidade. Assim, ao sistema orgânico e abrangente do capital devem ser contrapostas, por parte dos indivíduos orientados para a elaboração estratégica das mediações não antagônicas exigidas pela nova forma histórica, um conjunto de princípios e determinações operativos conscientes, críticos e também autocríticos não menos substantivos e abrangentes. Em outras palavras, uma automediação. Segundo Mészáros,
Nas relações interpessoais dos indivíduos sociais, mediação não antagônica significa seu envolvimento cooperativo genuíno na atividade com o propósito conscientemente escolhido de resolver alguns problemas, ou de fato resolver algumas disputas que possam surgir de suas relações. O que torna o contraste desse tipo de intercâmbio conscientemente regulado muito claro, em comparação com a modalidade de mediações antagônicas agora dominantes, é que a solução projetada para os próprios problemas devem ser encarados no interior da estrutura de um sistema de mediações não antagônicas não pode se solidificar e perpetuar na forma de interesses parciais estruturalmente consolidados. No curso histórico em andamento, de constituição na nova modalidade de mediações não antagônicas, os interesses parciais herdados devem ser radicalmente suplantados por meio da ação cooperativa sustentada, assegurando ao mesmo tempo as condições objetivas e subjetivas para impedir sua reconstituição (idem, 302).
Continuando com o húngaro,
Somente a instituição e manutenção bem-sucedidas do sistema de mediações não antagônicas como a alternativa hegemônica da nova forma histórica à ordem do capital agora dominante pode mostrar uma saída desses perigosos antagonismos. Pois estes não podem ser superados sem a inter-relação plenamente eqüitativa de solidariedade substantiva entre os indivíduos sociais livremente associados, assim como de seus países, na forma de sua solidariedade internacional genuína capaz de confrontar positivamente as falhas do passado. Essa é a única perspectiva historicamente sustentável para o futuro (2009, p. 308, 309).
Outros dois axiomas universais do Comunista são a igualdade substantiva – sempre faltante – e a universalidade solidária. Sem o horizonte do comunismo, sem essa Idéia no sentido de Badiou, nada no devir político, histórico e social tem qualquer interesse ao militante. Sustentar-se nessa Idéia, a existência dessa hipótese, não significa que essa sua primeira forma de manifestação necessite ficar inalterada. Por isso a tarefa, e até mesmo obrigação, badiouiana de “ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista”. (Cabe aqui um parênteses: mas quem seria o tal proletariado agente de transformação? Hoje, em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm “nada a perder além dos seus grilhões”, o que nos une é, como diz Zizek, o perigo de perdermos tudo: nossa propriedade genética, nosso meio ambiente, etc, etc). Talvez estejamos realmente sob o paradigma beckttiano de Lênin: Tende de novo. Fracasso de novo. Fracasso melhor. Em síntese, em nosso tempo devemos descer todo o caminho de volta até o ponto de partido: devemos começar do começo e não de um ponto alcançado na tentativa anterior. Reinventar o Comunismo.
Concluindo, não basta permanecer fiel a hipótese comunista: é necessário localizar a realidade histórica as contradições que transformem o comunismo numa urgência prática. O papel dos comunistas continua o de ser o pedagogo das classes trabalhadoras livre aos ensinamentos de uma linha de massas onde os fracassos doem e que, ao mesmo tempo, lhe possa acrescentar um projeto de futura igualdade social.
1
Os impactos da crise financeira de 2008 sacudiram muitas certezas dominantes que, devida a desestruturação histórica da esquerda pelo esgotamento e esterilidade da forma de luta defensiva, abriu o caminho para uma reorganização da direita – extrema e liberal – com o ímpeto de reafirmar o poder de classe e restabelecer as bases de extração da mais-valia.
A narrativa dominante sobre a atual crise (e que grande parte da esquerda aceita como fato) diz que ela teve como causa a atuação excessiva de alguns capitalistas financeiros internacionais ambiciosos e que, assim, a solução se encontra num novo pacto regulatório entre a “economia real” e a “economia financeira” só de forma mais humana, tolerante, ecológica e harmônica. Essa saída ideológica além de isentar o próprio sistema capitalista de culpa, tem graves conseqüências políticas. Esse discurso “fukuyamista” que a esquerda aprova só faz sentido quando a democracia-liberal contemporânea torna-se o horizonte ontológico da humanidade. Apenas mudanças paliativas e assistencialistas seriam possíveis e, assim, só podemos lutar dentro do jogo democrático – por mais que seja essa mesma democracia o principal obstáculo a transformação social radical hoje.
Assim alguns desafios – negativos e positivos - emergem para a esquerda. Com a entrada histórica da crise estrutural do capital, desde meados de 1970, uma estratégia ofensiva de transformação radical corresponde, em primeiro lugar, ao desconfortável fato negativo de que algumas formas de ação anteriores (“as políticas de consenso”, “pleno emprego, “a expansão do Estado de bem-estar-social”, “keynesianismo para todos” etc.) estão objetivamente bloqueadas, impondo reajustes profundos na sociedade como um todo – e não apenas em alguma parte específica. Estar partindo dessa “negatividade brutal” inicial não significa que os reajustamentos serão positivos, mobilizando as forças de transformação num esforço consciente para se apresentarem como portadoras de uma ordem social alternativa capaz de superar a sociedade capitalista em crise. Como essas mudanças exigidas são muito drásticas, em vez de prontamente aceitarmos o “salto para o desconhecido”, é mais provável que se prefira seguir a “linha de menor resistência” ainda por um tempo considerável, mesmo que isso signifique derrotas significativas para as forças socialistas. Por isso, como salientou István Mészáros, “somente quando as opções da ordem predominante se esgotarem se poderá esperar por uma virada espontânea para uma solução radicalmente diferente” (2006, p. 788). Esse “salto para o desconhecido” é correlato ao “salto de fé” de Kierkagaard que, não tendo a aprovação do Outro, é o momento em que o que era aparentemente impossível se materializa. Portanto, a lição de Rosa Luxemburgo continua mais válida do que nunca: não existem condições objetivas perfeitas para essa transformação radical já que elas são retroativamente criadas pelo próprio movimento. Assim como o amor, quem espera por tal transformação de forma “natural” espera para sempre. Entrementes, essa práxis ofensiva necessita de uma bússola, uma visão que anime o que deve ser feito e por que. É uma lacuna que emerge entre o “movimento real” e a articulação com uma alternativa viável. Assim, o momento de crise profunda como a que vivemos é uma oportunidade histórica para se repensar profundamente a transição social na construção de uma alternativa radical em novas bases organizacionais, de consciência e ação. Que alternativa seria essa?
A lição que talvez sejamos forçados a aprender de nossas condições econômicas e políticas atuais é que um capitalismo humano, social, ecológico e verdadeiramente democrático e igualitário é mais irreal, ilusório e utópico do que o Comunismo. Assim, é tempo de voltar ao Comunismo? Entretanto, qual Comunismo? Ou então, um outro Comunismo é possível?
Vale frisar que stalinismo e o fracasso do socialismo real não invalidam o horizonte de emancipação radical que é o Comunismo. Por isso, é preciso reabilitar e ressignificar urgentemente o Comunismo. Stálin tornou uma ala do partido uma espécie de representação do Espírito Absoluto, perdendo qualquer capacidade de aprendizagem, um princípio socialista fundamental. Stálin introduziu duas novas características ao partido, que não estavam postuladas por Lênin, que intensificaram o seu monolitismo totalitário. Foram às sementes do stalinismo e que precisamos urgentemente simbolizar e apreender criticamente para retomar o projeto Comunista hoje. Elas consistem em: 1) tornar as frações e minorias um “inimigo interno” incompatibilizando sua própria existência e 2) depuração dos elementos oportunistas. A primeira medida (adotada no X Congresso) procura tornar uma medida temporalmente específica em princípio permanente e, assim, extinguindo as diferentes tendências e minorias no interior do partido. A segunda medida busca assegurar uma composição do partido sempre favorável ao núcleo dirigente central. Essas duas características stalinistas par excellence necessitam ser verificadas constantemente em qualquer movimento anticapitalista e não apenas nos partidos políticos.
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O Comunismo não espera a aprovação do grande Outro – o Partido Comunista, as mídias, o Estado, as empresas, etc. - já que depende da articulação ativa dos sujeitos sociais que constroem na sua práxis uma dinâmica associativa em que, como dizia Marx, o livre desenvolvimento de um é a condição para o livre desenvolvimento de todos. O estímulo do militante comunista não depende do Outro para que regulamente ou ordene. Depende do dever de auto-mediação para com a sociedade que estamos construindo. Esse é um trabalho cotidiano “no sentido interno de aperfeiçoamento, de aumento de conhecimentos, do aumento da compreensão do mundo que nos rodeia. Inquirir, averiguar e conhecer bem o porquê das coisas, equacionar sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios” (Che, 2009, p. 42). Assim, temos que ter a clareza que o Comunismo não depende de um sujeito particular. Na realidade, depende de uma explosiva combinação de diversos agentes sociais e suas mediações institucionais.
O Comunismo se apresenta como uma tarefa radical e imediata na escala que se pode: trabalho, município, bairro, centro de estudo, etc. Não podemos esperar por uma grande revolução para começar um processo de autoeducação sobre nossas capacidades de autogestão e organização coletivas. Como disse recentemente Alain Badiou, “no momento, o que interessa é a prática da organização política direta no seio das massas populares e de experimentar novas formas de organização” orientadas pela “idéia de uma sociedade cujo motor não seja a propriedade priva¬da, o egoísmo e a avidez”. Entretanto, como o capitalismo está fermentando uma luta planetária para enfrentar sua crise, qualquer força social e política progressista não pode ficar estagnada ao local e parcial sendo, assim, necessário se conectar concretamente com uma coordenação de todas as resistências em todos os continentes. Sem dúvida um grande desafio pela frente: unidade organizativa na diversidade heterogênea anticapitalista global.
Voltando a Marx, o Comunismo não é um Ideal que vamos todos chegar felizes ou sem rupturas drásticas e sim o “movimento Real” de superação dos antagonismos existentes no atual tempo histórico. Esse “movimento real” é essencialmente traumático já que quebra o ordenamento acelerado da vida no capitalismo atual que, paradoxalmente, reduz a história ao imediato. Em A Ideologia Alemã Marx julga que esse processo passa por uma consciência comunista numa escala de massas:
Tanto para a criação em massa dessa consciência comunista quanto para o êxito da própria causa faz-se necessária uma transformação massiva dos homens, o que só se pode realizar por um movimento prático, por uma revolução; que a revolução, portanto, é necessária não apenas porque a classe dominante não pode ser derrubada de nenhuma outra forma, mas também porque somente com uma revolução a classe que derruba detém o poder de desembaraçar-se de toda a antiga imundice e de se tornar capaz de uma nova fundação da sociedade (p. 42)
Por essa definição, os Comunistas se definem como todos aqueles que trabalham incessantemente para produzir um futuro positivamente diferente daquele que o capitalismo pode proporcionar ou prometer num revolucionamento constante causado por sua atividade de construção dos fundamentos da revolução.
Naturalmente, não existe Comunismo sem Comunistas. Quem é o Comunista? Ele está engajado nas “mediações” que ligam as tarefas presentes com o futuro. No sentido comunista, essas “mediações - instituições e organizações coletivas - demandam três características básicas: verificação constante da livre circulação de idéias e projetos (sempre no intento de expandir as práticas existentes), uma postura ofensiva socialista (diametralmente oposta da historicamente defensiva) que busca impor a construção de uma alternativa hegemônica diante da urgência histórica do aprofundamento dos antagonismos do sistema do capital e, não menos crucial, uma auto-crítica permanente que permeie pela aprendizagem todos os poros dessa instituição com o sentido de aperfeiçoar as relações entre consciência, organização e ação.
Numa recente carta endereçada por Alain Badiou a Slavoj Zizek encontramos uma bela definição não apenas do que é ser Comunista, como ainda do momento atual do Comunismo perante o seu próprio “fator” como invariante histórica de emancipação - sendo que outra invariante a humanidade não dispõe:
“Nós encontramo-nos no limiar de um ponto de método essencial e no qual, creio-o bem, não há entre nós nenhum desacordo de princípio. Tratando-se de figuras históricas como Robespierre, Saint-Just, Babeuf, Blanqui, Bakounine, Marx, Engels, Lenine, Trotski, Rosa Luxemburgo, Estaline, Mao Tse-Tung, Chou Enlai, Enver Hoxha, Guevara, Castro e alguns outros (e penso nomeadamente em Jean Bertrand Aristide [Haiti]), é ponto capital, sobre todos eles, nada ceder perante as tentativas de criminalização reacionárias ou perante as anedotas eriçadas com que o capital os pretende fechar e anular. Nós podemos e devemos discutir entre nós (um ‘nós’ que sinaliza aqueles para quem o capitalismo e as suas formas políticas são um horror, um ‘nós’ que nós somos para quem a emancipação igualitária é a única máxima de valor universal) o uso que fazemos, ou não fazemos, dessas figuras históricas. Essa discussão pode ser eventualmente viva e fortemente antagônica, mas ela dá-se ‘entre Nós’, e a nossa regra opõe-se absolutamente a toda a conspiração de latidos do adversário”.
Lembro com Che/Ueshiba que militante comunista procura se acostumar a “pensar como massa” – enxerga onde está à falta e a preenche com o vazio. Não existe militante ideal. Todo militante é não-Todo. Sempre ser-faltante que no movimento produz novos significantes para a rearticulação da luta emancipatória. Isso quer dizer que um princípio fundamental do Comunista é a não-resistência que necessita de verificação permanente no movimento de forma cada vez mais disciplinada e sincera no sentido de um aperfeiçoamento coletivo.
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A legitimidade histórica do Comunismo depende da instituição de uma ordem reprodutiva viável a longo prazo que seja baseada em seus próprios termos positivos. Como sintetiza Mészáros, “a tarefa radical por princípio buscada de modo consciente para superar os antagonismos da ordem existente é inseparavelmente negativa e positiva ao mesmo tempo. E esse é o único significado apropriado que podemos dar ao termo radical, que não se pode permitir continuar atado a uma – definitivamente insustentável – postura puramente negativa” (2009, p. 302). Nesse sentido, a única mediação historicamente sustentável e viável para o Comunismo é a mediação de si própria por parte de um sujeito social ativo que seja capaz de intervir autonomamente e conscientemente no processo de transformação exigida em nosso “destino histórico” sob uma tomada de decisão substantiva pelo corpo social em sua totalidade. Assim, ao sistema orgânico e abrangente do capital devem ser contrapostas, por parte dos indivíduos orientados para a elaboração estratégica das mediações não antagônicas exigidas pela nova forma histórica, um conjunto de princípios e determinações operativos conscientes, críticos e também autocríticos não menos substantivos e abrangentes. Em outras palavras, uma automediação. Segundo Mészáros,
Nas relações interpessoais dos indivíduos sociais, mediação não antagônica significa seu envolvimento cooperativo genuíno na atividade com o propósito conscientemente escolhido de resolver alguns problemas, ou de fato resolver algumas disputas que possam surgir de suas relações. O que torna o contraste desse tipo de intercâmbio conscientemente regulado muito claro, em comparação com a modalidade de mediações antagônicas agora dominantes, é que a solução projetada para os próprios problemas devem ser encarados no interior da estrutura de um sistema de mediações não antagônicas não pode se solidificar e perpetuar na forma de interesses parciais estruturalmente consolidados. No curso histórico em andamento, de constituição na nova modalidade de mediações não antagônicas, os interesses parciais herdados devem ser radicalmente suplantados por meio da ação cooperativa sustentada, assegurando ao mesmo tempo as condições objetivas e subjetivas para impedir sua reconstituição (idem, 302).
Continuando com o húngaro,
Somente a instituição e manutenção bem-sucedidas do sistema de mediações não antagônicas como a alternativa hegemônica da nova forma histórica à ordem do capital agora dominante pode mostrar uma saída desses perigosos antagonismos. Pois estes não podem ser superados sem a inter-relação plenamente eqüitativa de solidariedade substantiva entre os indivíduos sociais livremente associados, assim como de seus países, na forma de sua solidariedade internacional genuína capaz de confrontar positivamente as falhas do passado. Essa é a única perspectiva historicamente sustentável para o futuro (2009, p. 308, 309).
Outros dois axiomas universais do Comunista são a igualdade substantiva – sempre faltante – e a universalidade solidária. Sem o horizonte do comunismo, sem essa Idéia no sentido de Badiou, nada no devir político, histórico e social tem qualquer interesse ao militante. Sustentar-se nessa Idéia, a existência dessa hipótese, não significa que essa sua primeira forma de manifestação necessite ficar inalterada. Por isso a tarefa, e até mesmo obrigação, badiouiana de “ajudar no surgimento de uma nova modalidade de existência da hipótese comunista”. (Cabe aqui um parênteses: mas quem seria o tal proletariado agente de transformação? Hoje, em contraste com a imagem clássica dos proletários que não têm “nada a perder além dos seus grilhões”, o que nos une é, como diz Zizek, o perigo de perdermos tudo: nossa propriedade genética, nosso meio ambiente, etc, etc). Talvez estejamos realmente sob o paradigma beckttiano de Lênin: Tende de novo. Fracasso de novo. Fracasso melhor. Em síntese, em nosso tempo devemos descer todo o caminho de volta até o ponto de partido: devemos começar do começo e não de um ponto alcançado na tentativa anterior. Reinventar o Comunismo.
Concluindo, não basta permanecer fiel a hipótese comunista: é necessário localizar a realidade histórica as contradições que transformem o comunismo numa urgência prática. O papel dos comunistas continua o de ser o pedagogo das classes trabalhadoras livre aos ensinamentos de uma linha de massas onde os fracassos doem e que, ao mesmo tempo, lhe possa acrescentar um projeto de futura igualdade social.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Nota sobre o Apocalipse Nuclear
Poucos acreditam hoje na possibilidade de uma catástrofe nuclear – só eu e Fidel.
Isso quer dizer que nós estaríamos presenciando no mundo contemporâneo o início de uma Guerra Nuclear sem precedentes em toda a história humana? Depois de 11 de setembro de 2001 e 15 de setembro de 2008, neste setembro de 2010, deveríamos estar mais atentos sobre a tragédia anunciada do holocausto nuclear. Não anuncio aqui as perspectivas estratégicas e militares em andamento para o desdobramento de um conflito nuclear, como fiz no texto chamado “Guerra do Irã: urgente!”, mas trago algumas notas mais amplas no sentido de criar referências sobre o sombrio horizonte da Catástrofe Nuclear. Estamos, portanto, numa situação inédita na história.
A Catástrofe é a auto-extinção da humanidade. A Catástrofe não é externa ao desenvolvimento do capital em toda sua destrutividade, mas é própria de sua lógica interna de desenvolvimento. Tal capacidade já foi alcançada e se desenvolve a pleno vapor. A forma sísmica da inevitável Catástrofe, entretanto, já é a Catástrofe, a emergência permanente. A gestação da Catástrofe já é a Catástrofe. Resta-nos perceber a Catástrofe que nos espera como inevitável. Apenas diante de sua inevitabilidade é possível evitá-la. Para evitar a Catástrofe é preciso acreditar na sua possibilidade. Só assim é possível com que não seja tarde demais para lidar com seus profundos impactos ou impedir sua chegada potencialmente terminal para a humanidade. A Catástrofe está na ordem do dia. A hora do destino chegou.
Isso quer dizer que nós estaríamos presenciando no mundo contemporâneo o início de uma Guerra Nuclear sem precedentes em toda a história humana? Depois de 11 de setembro de 2001 e 15 de setembro de 2008, neste setembro de 2010, deveríamos estar mais atentos sobre a tragédia anunciada do holocausto nuclear. Não anuncio aqui as perspectivas estratégicas e militares em andamento para o desdobramento de um conflito nuclear, como fiz no texto chamado “Guerra do Irã: urgente!”, mas trago algumas notas mais amplas no sentido de criar referências sobre o sombrio horizonte da Catástrofe Nuclear. Estamos, portanto, numa situação inédita na história.
A Catástrofe é a auto-extinção da humanidade. A Catástrofe não é externa ao desenvolvimento do capital em toda sua destrutividade, mas é própria de sua lógica interna de desenvolvimento. Tal capacidade já foi alcançada e se desenvolve a pleno vapor. A forma sísmica da inevitável Catástrofe, entretanto, já é a Catástrofe, a emergência permanente. A gestação da Catástrofe já é a Catástrofe. Resta-nos perceber a Catástrofe que nos espera como inevitável. Apenas diante de sua inevitabilidade é possível evitá-la. Para evitar a Catástrofe é preciso acreditar na sua possibilidade. Só assim é possível com que não seja tarde demais para lidar com seus profundos impactos ou impedir sua chegada potencialmente terminal para a humanidade. A Catástrofe está na ordem do dia. A hora do destino chegou.
Perguntas
Para todos aqueles que clamam praticar a militância política nós perguntamos: Qual é sua crítica do mundo existente? O que pode nos oferecer de novo? Do que você é o criador?
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
A morte da narração ou a não-narração da morte? Reflexões benjaminianas sobre o declínio da experiência narrativa no capitalismo histórico.
A morte sem narração perde-se no tempo. Mas como narrar algo hoje quando a experiência narrativa vem perdendo espaço? Walter Benjamin já notou esse processo da seguinte forma:
“Torna-se cada vez mais raro o encontro com pessoas que sabem narrar alguma coisa direito. É cada vez mais freqüente espalhar-se em volta o embaraço quando se anuncia o desejo de ouvir uma história. É como se uma faculdade, que nos parecia inalienável, a mais garantida entre as coisas seguras, nos fosse retirada. Ou seja: a de trocar experiências. Uma causa deste fenômeno é evidente: a experiência caiu na cotação. E a impressão é a de que prosseguirá na queda interminável”.
A quem ouve o narrador mergulha no que escuta em sua própria experiência e, mais tarde, pode transmiti-la de bom grado. Benjamin nota que esta capacidade de audição também estaria sendo destruída, porque ela depende de um relaxamento psíquico propiciado por atividades naturais, como o fiar e o tecer, que estariam desaparecendo. Com a perda destas atividades, desaparece a “comunidade dos que escutam”, e a narrativa sofre golpe de morte. Segundo as palavras de Walter Benjamin,
“Narrar histórias é sempre a arte de as continuar contando e esta se perde quando as histórias já não são mais retidas. Perde-se porque já não se tece e fia enquanto elas são escutadas. Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta, tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada. No momento em que o ritmo do trabalho o capturou, ele escuta as histórias de tal maneira que o dom de narrar lhe advém espontaneamente. Assim, portanto, está constituída a rede em que se assenta o dom de narrar. Hoje em dia ela se desfaz em todas as extremidades, depois de ter sido atada há milênios no âmbito das mais antigas formas de trabalho artesanal”.
Ocorre segundo Benjamin, “uma espécie de concorrência histórica entre as várias formas de comunicação”. Nesta concorrência, a narrativa leva a pior, perdendo para o romance e a informação. E se a existência da narrativa está relacionada com o aconselhamento, dependendo de sua conservação na memória do ouvinte, sua substituição pelo romance e pela informação coincide com o desaparecimento dessas faculdades.
Por narração Benjamin entende uma arte e também uma faculdade, ambas em vias de desaparecimento. Isso quer dizer, em outras palavras, que desaparece no mundo atual a “faculdade de intercambiar experiências”. Tanto é que, na figura de Nicolai Leskov, Benjamin vê o último representante de uma arte em particular, a narração. Benjamin considera Leskov um extemporâneo, alguém que se encontra distante de seu tempo. Ao apresentá-lo como narrador, caracteriza-o como produto de um outro tempo que não o seu. Sua narração comporta elementos que não se apresentam ao seu cotidiano. A experiência que adensa a narração já não se encontra por isso mesmo disponível na época moderna. Isso explica porque o filósofo afirma que o narrador “não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva”.
A matéria prima da narração é a própria vida humana, a experiência (Erfahrung), aquela que anteriormente foi associada à sabedoria, como sendo “inimiga da pressa e do imediatismo” próprios de uma vivência. A lentidão é, naturalmente, matéria da experiência, cujo ritmo apressado da modernidade subtraiu o indivíduo do universo da tradição. Se narrar é a faculdade de intercambiar experiências, é também a faculdade de que dispõem aqueles que sabem trabalhar com o tempo; aqui, uma outra faceta da narração, que obedece, por sua vez, ao modo de produção artesanal, qualitativamente distinto do modo de produção capitalista, ou seja, industrial. Na prática narrativa interagem, segundo Benjamin, a voz, a mão e a alma. É a partir da convergência destes termos que a narrativa acabou se desenvolvendo em torno das mais “antigas formas de trabalho manual”.
“A narrativa floresceu num meio de artesão, (...) é ela própria uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso”.
Para Benjamin, “na verdadeira narração, a mão intervém decisivamente, com seus gestos, aprendidos na experiência do trabalho, que sustentam de cem maneiras o fluxo do que é dito”. O saber de que dispõe o narrador não é meramente técnico e nem tampouco um saber de si auto-referencial. Sua sabedoria implica no conhecimento histórico de formação de si em meio a um coletivo, do conhecimento das práticas, dos ritos e valores compartilhados e transmitidos pela tradição aos indivíduos. Para Jeanne Marie Gagnebin, é justamente nesse contexto que a experiência, a Erfahrung, pode surgir, pois essa é a experiência que não reenvia o indivíduo à sua vida como um só, singular, solitário, mas como ser em meio a outros. “A história do si vai, [assim], pouco a pouco, preencher o papel deixado vago pela história comum...”. É exatamente sobre este sentido de comunitário que se sustentam, inclusive, a noção de trabalho, entre outras práticas sociais.
Outro ponto crucial é a capacidade do narrador de dar conselhos. “o narrador é [sempre] um homem que sabe dar conselhos” escreve Benjamin. Em termos quase lacanianos, “aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Ao narrador cabe deixar a história em aberto, intentando com isso de multiplicar as possibilidades de reconstrução do que se encontra perdido, esquecido ou destruído. Nesta perspectiva, o desejo comum projeta o futuro no presente obrigando a remontar o passado:
“Na vida, quanto mais cedo se formula um desejo, tanto maiores são as suas perspectivas de realização. Quanto mais um desejo remonta no tempo, tanto mais se pode esperar a sua concretização. Mas aquilo que reporta ao tempo passado é a experiência, é o que o preenche e articula. Por isso, o desejo realizado é a coroa destinada à experiência”
Quem formula e concretiza um desejo vive um “tempo que realiza”, antítese do “tempo infernal” experimentado por aqueles que, como o jogador e o trabalhador assalariado, se dobram sob um eterno presente, pois têm que “recomeçar sempre de novo”, não lhes sendo dado “realizar nada daquilo que começaram”. A marca do narrador firma-se no modo como este traduz a sua experiência, a tradição e os seus conselhos em sua narrativa, de forma única e peculiar.
“O narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poder deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida”.
Em Benjamin, tempo e linguagem se co-pertencem. A narração, ao restaurar o passado, atualiza o presente, presentifica a ausência do tempo. Sem narração a morte perde-se no tempo. Quando a linguagem sobre a morte também morre, a própria “condição de possibilidade” da experiência se mortifica. A experiência da morte se iguala assim a “vivência” da vida no capitalismo contemporâneo, sem paixão a uma causa que a cada morte ressuscita para dar sentido à vida comum que pode ser narrada. Nesta era de “banalidade da morte” a própria vida encontra um caminho limite de ruptura no campo do Ser. O encontro com esse limite ainda é um tema a desdobrar em outro texto cotidiano.
“Torna-se cada vez mais raro o encontro com pessoas que sabem narrar alguma coisa direito. É cada vez mais freqüente espalhar-se em volta o embaraço quando se anuncia o desejo de ouvir uma história. É como se uma faculdade, que nos parecia inalienável, a mais garantida entre as coisas seguras, nos fosse retirada. Ou seja: a de trocar experiências. Uma causa deste fenômeno é evidente: a experiência caiu na cotação. E a impressão é a de que prosseguirá na queda interminável”.
A quem ouve o narrador mergulha no que escuta em sua própria experiência e, mais tarde, pode transmiti-la de bom grado. Benjamin nota que esta capacidade de audição também estaria sendo destruída, porque ela depende de um relaxamento psíquico propiciado por atividades naturais, como o fiar e o tecer, que estariam desaparecendo. Com a perda destas atividades, desaparece a “comunidade dos que escutam”, e a narrativa sofre golpe de morte. Segundo as palavras de Walter Benjamin,
“Narrar histórias é sempre a arte de as continuar contando e esta se perde quando as histórias já não são mais retidas. Perde-se porque já não se tece e fia enquanto elas são escutadas. Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta, tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada. No momento em que o ritmo do trabalho o capturou, ele escuta as histórias de tal maneira que o dom de narrar lhe advém espontaneamente. Assim, portanto, está constituída a rede em que se assenta o dom de narrar. Hoje em dia ela se desfaz em todas as extremidades, depois de ter sido atada há milênios no âmbito das mais antigas formas de trabalho artesanal”.
Ocorre segundo Benjamin, “uma espécie de concorrência histórica entre as várias formas de comunicação”. Nesta concorrência, a narrativa leva a pior, perdendo para o romance e a informação. E se a existência da narrativa está relacionada com o aconselhamento, dependendo de sua conservação na memória do ouvinte, sua substituição pelo romance e pela informação coincide com o desaparecimento dessas faculdades.
Por narração Benjamin entende uma arte e também uma faculdade, ambas em vias de desaparecimento. Isso quer dizer, em outras palavras, que desaparece no mundo atual a “faculdade de intercambiar experiências”. Tanto é que, na figura de Nicolai Leskov, Benjamin vê o último representante de uma arte em particular, a narração. Benjamin considera Leskov um extemporâneo, alguém que se encontra distante de seu tempo. Ao apresentá-lo como narrador, caracteriza-o como produto de um outro tempo que não o seu. Sua narração comporta elementos que não se apresentam ao seu cotidiano. A experiência que adensa a narração já não se encontra por isso mesmo disponível na época moderna. Isso explica porque o filósofo afirma que o narrador “não está de fato presente entre nós, em sua atualidade viva”.
A matéria prima da narração é a própria vida humana, a experiência (Erfahrung), aquela que anteriormente foi associada à sabedoria, como sendo “inimiga da pressa e do imediatismo” próprios de uma vivência. A lentidão é, naturalmente, matéria da experiência, cujo ritmo apressado da modernidade subtraiu o indivíduo do universo da tradição. Se narrar é a faculdade de intercambiar experiências, é também a faculdade de que dispõem aqueles que sabem trabalhar com o tempo; aqui, uma outra faceta da narração, que obedece, por sua vez, ao modo de produção artesanal, qualitativamente distinto do modo de produção capitalista, ou seja, industrial. Na prática narrativa interagem, segundo Benjamin, a voz, a mão e a alma. É a partir da convergência destes termos que a narrativa acabou se desenvolvendo em torno das mais “antigas formas de trabalho manual”.
“A narrativa floresceu num meio de artesão, (...) é ela própria uma forma artesanal de comunicação. Ela não está interessada em transmitir o ‘puro em si’ da coisa narrada como uma informação ou um relatório. Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso”.
Para Benjamin, “na verdadeira narração, a mão intervém decisivamente, com seus gestos, aprendidos na experiência do trabalho, que sustentam de cem maneiras o fluxo do que é dito”. O saber de que dispõe o narrador não é meramente técnico e nem tampouco um saber de si auto-referencial. Sua sabedoria implica no conhecimento histórico de formação de si em meio a um coletivo, do conhecimento das práticas, dos ritos e valores compartilhados e transmitidos pela tradição aos indivíduos. Para Jeanne Marie Gagnebin, é justamente nesse contexto que a experiência, a Erfahrung, pode surgir, pois essa é a experiência que não reenvia o indivíduo à sua vida como um só, singular, solitário, mas como ser em meio a outros. “A história do si vai, [assim], pouco a pouco, preencher o papel deixado vago pela história comum...”. É exatamente sobre este sentido de comunitário que se sustentam, inclusive, a noção de trabalho, entre outras práticas sociais.
Outro ponto crucial é a capacidade do narrador de dar conselhos. “o narrador é [sempre] um homem que sabe dar conselhos” escreve Benjamin. Em termos quase lacanianos, “aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuação de uma história que está sendo narrada”. Ao narrador cabe deixar a história em aberto, intentando com isso de multiplicar as possibilidades de reconstrução do que se encontra perdido, esquecido ou destruído. Nesta perspectiva, o desejo comum projeta o futuro no presente obrigando a remontar o passado:
“Na vida, quanto mais cedo se formula um desejo, tanto maiores são as suas perspectivas de realização. Quanto mais um desejo remonta no tempo, tanto mais se pode esperar a sua concretização. Mas aquilo que reporta ao tempo passado é a experiência, é o que o preenche e articula. Por isso, o desejo realizado é a coroa destinada à experiência”
Quem formula e concretiza um desejo vive um “tempo que realiza”, antítese do “tempo infernal” experimentado por aqueles que, como o jogador e o trabalhador assalariado, se dobram sob um eterno presente, pois têm que “recomeçar sempre de novo”, não lhes sendo dado “realizar nada daquilo que começaram”. A marca do narrador firma-se no modo como este traduz a sua experiência, a tradição e os seus conselhos em sua narrativa, de forma única e peculiar.
“O narrador figura entre os mestres e os sábios. Ele sabe dar conselhos: não para alguns casos, como o provérbio, mas para muitos casos, como o sábio. Pois pode recorrer ao acervo de toda uma vida (uma vida que não inclui apenas a própria experiência, mas em grande parte a experiência alheia. O narrador assimila à sua substância mais íntima aquilo que sabe por ouvir dizer). Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. O narrador é o homem que poder deixar a luz tênue de sua narração consumir completamente a mecha de sua vida”.
Em Benjamin, tempo e linguagem se co-pertencem. A narração, ao restaurar o passado, atualiza o presente, presentifica a ausência do tempo. Sem narração a morte perde-se no tempo. Quando a linguagem sobre a morte também morre, a própria “condição de possibilidade” da experiência se mortifica. A experiência da morte se iguala assim a “vivência” da vida no capitalismo contemporâneo, sem paixão a uma causa que a cada morte ressuscita para dar sentido à vida comum que pode ser narrada. Nesta era de “banalidade da morte” a própria vida encontra um caminho limite de ruptura no campo do Ser. O encontro com esse limite ainda é um tema a desdobrar em outro texto cotidiano.
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