Neste blog regurgito minhas posições sobre diferentes aspectos da realidade/fantasia social, política e econômica do mundo atual.
domingo, 31 de maio de 2009
Já que amamos o sistema, está tudo bem
Hoje, domingo, 31 de maio de 2009, a Folha de São Paulo resolveu publicar diversas matérias sobre a “realidade chinesa”. Sem discutir a hipocrisia do jornal em frisar como os dissidentes da praça da paz celestial buscavam democracia e liberdade, numa matéria intitulada “Escolas públicas investem em educação pública” o jornal escreve sobre como o Partido Comunista emprega representantes para cooptar os melhores alunos. O mais sintomático e interessante é que o melhor estudante chamando Han Xing-chen de 17 anos quer ingressar no Partido Comunista. No imaginário ocidental isso só pode ocorrer pela manipulação da ditadura chinesa que impôs ao menino tal desejo. Entretanto, lendo a própria matéria percebemos claramente que a educação chinesa é exponencialmente melhor do que a dada no Brasil: lá os alunos têm aulas sobre patriotismo, o Partido Comunista, fazem redações sobre o Hino Chinês, participam de concursos de poemas e canções sobre heróis nacionais etc. Em cada escola pública são selecionados os melhores alunos onde participam de uma semana de treinamento militar: aprendem a marchar, fazer escaladas, são surpreendidos por corridas noturnas, uma evacuação com apitos nos dormitórios. Han diz que “são provas duras, que exigem disciplina”. Os quatro melhores alunos da escola de Han (incluindo ele) estudam, em média, 12 horas por dia, das 7h40 às 17h, em sala de aula, com uma hora de almoço. Mais quatro horas de lição de casa, inclusive aos sábados. Quando perguntado sobre o que acha das aulas de patriotismo respondeu: “é bem relaxada. Não precisamos estudar ou decorar fórmulas complicadas. É só ficar recitando slogans em voz alta, “Nós amamos a Pátria, nós amamos o socialismo”. Contanto que amemos o sistema, está tudo bem”. A sinceridade do rapaz deixaria estupefatos alguns, mas não é exatamente isso que temos no mundo ocidental, só que com o detalhe de não existir a educação que sustenta essa sinceridade tornando-nos completos cínicos? Diríamos, portanto, "já que amamos o sistema, está tudo bem!"
Micro-Manifesto
A razão cínica reina sobre nosso mundo. Sabemos que a motivação de lucro submeteu quaisquer outras motivações tradicionais e que a cobiça pode agora ser agora identificada como força fundamental na natureza humana. Sabemos que a corrupção no governo é absoluta e que nenhum governo representativo algum dia cumprirá as promessas feitas com os argumentos tradicionais a favor da democracia. Sabemos na pele que o sistema vigente está levando todos nós para um profundo caos social, ambiental, cultural e político de pobreza, miséria, violência, fome e morte porém, o que se está fazendo a respeito? Se ninguém faz nada a respeito por que as coisas mudariam? Esperar a boa vontade de alguém? Ou dar dinheiro para manter o sofrimento dos outros a uma distância segura permitindo nos satisfazer emocionalmente sem colocar em perigo nosso isolamento seguro de sua realidade. Nossa sociedade está cada vez mais aceitando silenciosamente a estabilidade do modelo capitalista mesmo que a conseqüência direta disso seja um crescente nível de miséria, pobreza, desigualdade e polarização social. O que piora as coisas é que grande ala da esquerda (eformista) colabora ativamente nesse processo onde assina em baixo o dito do "fim da história" sob a democracia liberal. Prefere-se ser politicamente corretos para não interferir em nada no final das contas.
Não queremos ser tolerados ou apoiados pelo sistema. Queremos transgredir o limite que se impõem a interpassividade de fazer coisas não para conseguir algo, mas para impedir que algo realmente aconteça. Somos contra a neutralidade: numa luta histórica concreta, a atitude de “inocência” (“Não quero sujar minhas mãos ao me envolver na luta, só quero levar uma vida modesta e honesta”) personifica a máxima culpa. Em nosso mundo, não fazer nada não é algo desprovido de sentido; já tem um significado – significa dizer “sim” às relações de dominação existentes.
Não queremos ser tolerados ou apoiados pelo sistema. Queremos transgredir o limite que se impõem a interpassividade de fazer coisas não para conseguir algo, mas para impedir que algo realmente aconteça. Somos contra a neutralidade: numa luta histórica concreta, a atitude de “inocência” (“Não quero sujar minhas mãos ao me envolver na luta, só quero levar uma vida modesta e honesta”) personifica a máxima culpa. Em nosso mundo, não fazer nada não é algo desprovido de sentido; já tem um significado – significa dizer “sim” às relações de dominação existentes.
segunda-feira, 25 de maio de 2009
A religião financeira
O crescimento exponencial das dívidas públicas mostra tanto o esgotamento potencial da “ajuda externa” do Estado ao capital quanto a dimensão religiosa da crença em seu pagamento futuro. Em proporção do PIB, a dívida pública dos Estados Unidos está passando de 44% para 77% chegando a mais de US$ 10 trilhões. No Reino Unido, o débito está passando de 49% do PIB para 97%. Quanto maior a dívida mais profunda é a crença em seu eventual pagamento. Não é a toa que o maior temor da economia mundial hoje é a potencial desvalorização da classificação da dívida dos Estados Unidos do nível “AAA”, o patamar mais seguro para investimento.
sábado, 23 de maio de 2009
Era do Acesso: a utopia liberal hoje
Para Jeremy Rifkin, autor do best-seller A Era do Acesso, as bases da vida moderna estão começando a se desintegrar. O sistema capitalista esta desmantelando seu modus operandi se reinventando na forma de redes e começando a deixar os mercados para trás. Essa seria uma daquelas “estranhas guinada da História”(?). Estranha mesmo! “O ato de alienação da propriedade – a troca negociada entre vendedor e comprador – que é o cerne do que constituiu um sistema de mercado, é menos freqüente. Transformar um relacionamento entre partes em commodity para acessar e partilhar propriedades tangíveis e intagíngeis é a essência da abordagem baseada em rede à vida comercial” (p. 47). A alienação dos meios de produção ficou numa história arcaica de uma era em que o capitalismo ainda era baseado na materialidade de suas relações. Agora, nada mais disso existe já que a força propulsora seria o acesso.
Por isso, as batalhas ideológicas, as revoluções e a guerra estão esmorecendo lentamente na aurora de uma nova constelação de realidades econômicas que estariam nos levando a repensar os tipos de vínculos e limites que irão definir as relações humanas no século XXI. Nessa realidade os mercados cedem lugar às redes e a propriedade é substituída rapidamente pelo acesso. A propriedade, mesmo continuando existindo, seria bem menos trocada em mercados. Os mercados permanecem, mas seu papel é cada vez menor nos negócios humanos. O coração da vida industrial, a posse de capital fixo, torna-se cada vez mais marginal sendo uma mera despesa operacional, algo que é emprestado em vez de adquirido. Os verdadeiros itens de valor de troca (sua força propulsora) passam a ser conceitos, idéias e imagens. Nessas transformações os detentores do capital intelectual exercem o controle sobre as condições e os termos pelos quais os usuários asseguram o acesso a idéias, conhecimento e experiências críticas, deixando para trás a era dos mercados onde as instituições que detinham o controle do capital fixo exerciam um controle crescente sobre a troca de bens entre vendedores e compradores. O processo de concentração e centralização ficou na historia da era moderna do desenvolvimento material do capitalismo. Rifkin ainda enfatiza que a propriedade é lenta demais para se ajustar a nova velocidade de uma cultura veloz onde praticamente tudo é acessado. Essa abordagem necessita de um mínimo aporte marxista: a propriedade não se desmaterializa com o acesso contínuo. A propriedade expande radicalmente seu campo de ação para a esfera “imaterial” pelo bloqueio objetivo de sua expansão “material”. Nesse processo, o campo “imaterial” se estabiliza entrando numa dialética com o “material”.
Para Rifkin, essa transformação da propriedade em acesso faz parte de um processo de transformação na natureza do sistema capitalista. Estamos passando da produção industrial para a produção cultural: “um comércio de ponta no futuro envolverá o marketing de um vasto arranjo de experiências culturais em vez de apenas tradicionais bens e serviços industriais. A viagem e turismo global, parques e cidades temáticos, centros de entretenimento, bem-estar, moda e culinária, esportes e jogos profissionais, música, filme, televisão e os mundos virtuais do cyberespaço e o entretenimento mediado eletronicamente de todo tipo estão se tornando rapidamente o centro de um novo hipercapitalismo que comercializa o acesso a experiências culturais” (2001, p. 6). Para quem é a era do acesso? Aonde nesse processo o capitalismo transformou sua natureza é uma pergunta que deve ser feita já que é exatamente o capitalismo que possibilita essa explosão onde economia e cultura não se diferenciam mais. Portanto, a visão de Rifkin não é a utopia liberal que liberta o capitalista da propriedade? Estaríamos fazendo a transição a uma economia da “experiência” onde a própria vida de cada pessoas se torna, de fato, um mercado comercial. Isso não mostra a incapacidade inexorável do capital em produzir qualquer tipo de planejamento social?
Para Rifkin, as redes eletrônicas onde um número crescente de experiências humanas é comprado são controladas por algumas empresas transnacionais de mídia que possuem as linhas de comunicação. É uma nova forma do monopólio comercial global onde as questões do pode institucional e liberdade se torna mais descartáveis do que nunca. Nesse panorama, a tarefa política no novo século é restaurar um equilíbrio entre o âmbito cultural e o âmbito comercial já que os recursos culturais sofrem o risco uma exploração excessiva. Seria necessário, portanto, encontrar um meio sustentável de preservar e incentivar a diversidade cultural para a sustentação da economia de rede global que é cada vez mais baseada no acesso pago a experiências culturais. Novamente, ao desconsiderar o caráter irreprimível do capital econômico, sua idéia de sustentação entre os pólos não passa de uma fantasia.
Para Rifkin, o produto cultural representa o estágio final do estilo de vida capitalista. Aqui Rifkin deve ser entendido numa tríade com Fukuyama e Huntington: o choque de civilizações é o fim da história já que o capitalismo na era do acesso faz com que a produção cultural seja o estágio final da civilização humana. O que sustenta essa tríade é, para Rifkin, a automatização da indústria onde máquinas inteligentes substituem a mão-de-obra humana, a verdadeira passagem a era do acesso.
Se acessar diz respeito a distinções e divisões, é necessário enfatizar que na divisão social e digital do trabalho existe um bloqueio estrutural do acesso ao controle dos meios de produção industrial e intelectual. A luta pelo acesso é a luta capitalista no século XXI. É daí que devem advir os conflitos interimperialistas do capitalismo digitalizado.
Por isso, as batalhas ideológicas, as revoluções e a guerra estão esmorecendo lentamente na aurora de uma nova constelação de realidades econômicas que estariam nos levando a repensar os tipos de vínculos e limites que irão definir as relações humanas no século XXI. Nessa realidade os mercados cedem lugar às redes e a propriedade é substituída rapidamente pelo acesso. A propriedade, mesmo continuando existindo, seria bem menos trocada em mercados. Os mercados permanecem, mas seu papel é cada vez menor nos negócios humanos. O coração da vida industrial, a posse de capital fixo, torna-se cada vez mais marginal sendo uma mera despesa operacional, algo que é emprestado em vez de adquirido. Os verdadeiros itens de valor de troca (sua força propulsora) passam a ser conceitos, idéias e imagens. Nessas transformações os detentores do capital intelectual exercem o controle sobre as condições e os termos pelos quais os usuários asseguram o acesso a idéias, conhecimento e experiências críticas, deixando para trás a era dos mercados onde as instituições que detinham o controle do capital fixo exerciam um controle crescente sobre a troca de bens entre vendedores e compradores. O processo de concentração e centralização ficou na historia da era moderna do desenvolvimento material do capitalismo. Rifkin ainda enfatiza que a propriedade é lenta demais para se ajustar a nova velocidade de uma cultura veloz onde praticamente tudo é acessado. Essa abordagem necessita de um mínimo aporte marxista: a propriedade não se desmaterializa com o acesso contínuo. A propriedade expande radicalmente seu campo de ação para a esfera “imaterial” pelo bloqueio objetivo de sua expansão “material”. Nesse processo, o campo “imaterial” se estabiliza entrando numa dialética com o “material”.
Para Rifkin, essa transformação da propriedade em acesso faz parte de um processo de transformação na natureza do sistema capitalista. Estamos passando da produção industrial para a produção cultural: “um comércio de ponta no futuro envolverá o marketing de um vasto arranjo de experiências culturais em vez de apenas tradicionais bens e serviços industriais. A viagem e turismo global, parques e cidades temáticos, centros de entretenimento, bem-estar, moda e culinária, esportes e jogos profissionais, música, filme, televisão e os mundos virtuais do cyberespaço e o entretenimento mediado eletronicamente de todo tipo estão se tornando rapidamente o centro de um novo hipercapitalismo que comercializa o acesso a experiências culturais” (2001, p. 6). Para quem é a era do acesso? Aonde nesse processo o capitalismo transformou sua natureza é uma pergunta que deve ser feita já que é exatamente o capitalismo que possibilita essa explosão onde economia e cultura não se diferenciam mais. Portanto, a visão de Rifkin não é a utopia liberal que liberta o capitalista da propriedade? Estaríamos fazendo a transição a uma economia da “experiência” onde a própria vida de cada pessoas se torna, de fato, um mercado comercial. Isso não mostra a incapacidade inexorável do capital em produzir qualquer tipo de planejamento social?
Para Rifkin, as redes eletrônicas onde um número crescente de experiências humanas é comprado são controladas por algumas empresas transnacionais de mídia que possuem as linhas de comunicação. É uma nova forma do monopólio comercial global onde as questões do pode institucional e liberdade se torna mais descartáveis do que nunca. Nesse panorama, a tarefa política no novo século é restaurar um equilíbrio entre o âmbito cultural e o âmbito comercial já que os recursos culturais sofrem o risco uma exploração excessiva. Seria necessário, portanto, encontrar um meio sustentável de preservar e incentivar a diversidade cultural para a sustentação da economia de rede global que é cada vez mais baseada no acesso pago a experiências culturais. Novamente, ao desconsiderar o caráter irreprimível do capital econômico, sua idéia de sustentação entre os pólos não passa de uma fantasia.
Para Rifkin, o produto cultural representa o estágio final do estilo de vida capitalista. Aqui Rifkin deve ser entendido numa tríade com Fukuyama e Huntington: o choque de civilizações é o fim da história já que o capitalismo na era do acesso faz com que a produção cultural seja o estágio final da civilização humana. O que sustenta essa tríade é, para Rifkin, a automatização da indústria onde máquinas inteligentes substituem a mão-de-obra humana, a verdadeira passagem a era do acesso.
Se acessar diz respeito a distinções e divisões, é necessário enfatizar que na divisão social e digital do trabalho existe um bloqueio estrutural do acesso ao controle dos meios de produção industrial e intelectual. A luta pelo acesso é a luta capitalista no século XXI. É daí que devem advir os conflitos interimperialistas do capitalismo digitalizado.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Os campos de concentração hoje
Hoje o debate sobre os campos de concentração voltam a girar: a dificuldade é que giram em torno de um problema falso. É necessário ligar diretamente a questão dos campos de concentração e seu caráter indizível com a necessidade de reprodução ideológica do capitalismo hoje. Além disso, muitas vezes consideram-se os campos um “assunto morto” de um passado do qual não se quer lembrar: será que essa não é a verdadeira questão? Os campos de concentração não são o significado real das políticas praticadas pelo excesso capitalista, o nazismo? Hoje, em tempos que os excessos do capitalismo já são praticamente integrados a sua lógica de reprodução, como suas práticas políticas já tem como pressuposto a criação de novos campos onde se articulam o antagonismo que estrutura a realidade social? Se no nazismo o excesso da qual se buscava o extermínio eram os judeus, quais são as práticas que hoje demonstram a necessidade estrutural do capital em exterminar do campo político seus excrementos? Não são essas políticas que tem como objeto os imigrantes prioritariamente no primeiro mundo e os favelados no terceiro – além dos refugiados? Não seriam eles, portanto, os elementos excedentes da sociedade global que se tornam objetos de políticas que os segregam e concentram sob a ordem da Lei? Nesse sentido a pergunta é: não seriam desses elementos excedentes da ordem global capitalista que poderiam formar novas formas de consciência social coletiva hoje?
terça-feira, 28 de abril de 2009
Estado de Emergência Pandêmica
Hoje o caso da gripe suína demonstra o que fico tentado de chamar de “estado de emergência pandêmica”. A OMS, organização mundial da saúde, fez uma escala de um a seis buscando mostrar o nível de alerta pandêmico. No nível um nenhum vírus de animais infectou humanos, no dois um vírus de animal infectou pessoas numa potencial ameaça pandêmica, no três estão ocorrendo casos esporádicos em humanos, mas sem capacidade de transmissão entre humanos, no quarto a transmissão entre pessoas está causando surtos em nível comunitário com um aumento significativo no risco de pandemia, no cinco a transmissão entre pessoas acontece em, ao menos, dois países de uma região com uma pandemia iminente. Finalmente, no nível seis, a pandemia global está em pleno andamento (paranóia total). Na primeira passagem do nível três ao nível quatro, no dia 28 de abril de 2009, Keiji Fukada, diretor-geral justificou a medida de forma sintomática: aspectos econômicos e políticos foram levados em consideração, mas os principais critérios foram “técnicos”. Essa aplicação de critérios “técnicos” não é semelhante às medidas de emergência feitas em nossas democracias-liberais? Não é sob essa transformação constante dos níveis de periculosidade que se assegura à imobilidade desse estado internacional de emergência pandênico? Ou ainda, esse método não é o mesmo que os alertas sobre a segurança nacional que passam no nível amarelo ao laranja e do laranja ao vermelho? Não é essa emergência constante que assegura o medo social diante dela?
Segue abaixo o melhor artigo feito até agora sobre essa questão do sempre instigante Mike Davis que é professor no departamento de História da Universidade da Califórnia (UCI), em Irvine, e um especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente. Ex-caminhoneiro, ex-açogueiro e ex-militante estudantil, Davis é colaborador das revistas New Left Review e The Nation, e autor de vários livros, entre eles Ecologia do Medo, Holocaustos coloniais, O monstro bate a nossa porta (editora Record), e Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles (Boitempo).
A gripe suína mexicana, uma quimera genética provavelmente concebido na lama fecal de um criadouro industrial, ameaça subitamente o mundo inteiro com uma febre. Os brotos na América do Norte revelam uma infecção que está viajando já em maior velocidade do que aquela que viajou a última cepa pandêmica oficial, a gripe de Hong Kong, em 1968.
Roubando o protagonismo de nosso último assassino oficial, o vírus H5N1, este vírus suíno representa uma ameaça de magnitude desconhecida. Parece menos letal que o SARS (Síndrome Respiratória Aguda, na sigla em inglês) em 2003, mas como gripe, poderia resultar mais duradoura que a SARS. Dado que as domesticadas gripes estacionais de tipo “A” matam nada menos do que um milhão de pessoas ao ano, mesmo um modesto incremento de virulência, poderia produzir uma carnificina equivalente a uma guerra importante.
Uma de suas primeiras vítimas foi a fé consoladora, predicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na possibilidade de conter as pandemias com respostas imediatas das burocracias sanitárias e independentemente da qualidade da saúde pública local. Desde as primeiras mortes causadas pelo H5N1 em 1997, em Hong Kong, a OMS, com o apoio da maioria das administrações nacionais de saúde, promoveu uma estratégia centrada na identificação e isolamento de uma cepa pandêmica em seu raio local de eclosão, seguida de uma massiva administração de antivirais e, se disponíveis, vacinas para a população.
Uma legião de céticos criticou esse enfoque de contrainsurgência viral, assinalando que os micróbios podem agora voar ao redor do mundo – quase literalmente no caso da gripe aviária – muito mais rapidamente do que a OMS ou os funcionários locais podem reagir ao foco inicial. Esses especialistas observaram também o caráter primitivo, e às vezes inexistente, da vigilância da interface entre as enfermidades humanas e as animais. Mas o mito de uma intervenção audaciosa, preventiva (e barata) contra a gripe aviária resultou valiosíssimo para a causa dos países ricos que, como os Estados Unidos e a Inglaterra, preferem investir em suas próprias linhas Maginot biológicas, ao invés de incrementar drasticamente a ajuda às frentes epidêmicas avançadas de ultra mar. Tampouco teve preço esse mito para as grandes transnacionais farmacêuticas, envolvidas em uma guerra sem quartel com as exigências dos países em desenvolvimento empenhados em exigir a produção pública de antivirais genéricos fundamentais como o Tamiflu, patenteado pela Roche.
A versão da OMS e dos centros de controle de enfermidades, que já trabalha com a hipótese de uma pandemia, sem maior necessidade novos investimentos massivos em vigilância sanitária, infraestrutura científica e reguladora, saúde pública básica e acesso global a medicamentos vitais, será agora decisivamente posta a prova pela gripe suída e talvez averigüemos que pertence à mesma categoria de gestão de risco que os títulos e obrigações de Madoff. Não é tão difícil que fracasse o sistema de alertas levando em conta que ele simplesmente não existe. Nem sequer na América do Norte e na União Européia.
Não chega a ser surpreendente que o México careça tanto de capacidade como de vontade política para administrar enfermidades avícolas ou pecuárias, pois a situação só é um pouco melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância se desfaz em um infeliz mosaico de jurisdições estatais e as grandes empresas pecuárias enfrentam as regras sanitárias com o mesmo desprezo com que tratam aos trabalhadores e aos animais.
Analogamente, uma década inteira de advertências dos cientistas fracassou em garantir transferências de sofisticadas tecnologias virais experimentais aos países situados nas rotas pandêmicas mais prováveis. O México conta com especialistas sanitários de reputação mundial, mas tem que enviar as amostras a um laboratório de Winnipeg para decifrar o genoma do vírus. Assim se perdeu toda uma semana.
Mas ninguém ficou menos alerta que as autoridades de controle de enfermidades em Atlanta. Segundo o Washington Post, o CDC (Centro de Controle de Doenças) só percebeu o problema seis dias depois de o México ter começado a impor medidas de urgência. Não há desculpas para justificar esse atraso. O paradoxal desta gripe suína é que, mesmo que totalmente inesperada, tenha sido prognosticada com grande precisão. Há seis anos, a revista Science publicou um artigo importante mostrando que “após anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte tinha dado um salto evolutivo vertiginoso”.
Desde sua identificação durante a Grande Depressão, o vírus H1N1 da gripe suína só havia experimentado uma ligeira mudança de seu genoma original. Em 1998, uma variedade muito patógena começou a dizimar porcas em uma granja da Carolina do Norte, e começaram a surgir novas e mais virulentas versões ano após ano, incluindo uma variante do H1N1 que continha os genes do H3N2 (causador da outra gripe de tipo A com capacidade de contágio entre humanos).
Os cientistas entrevistados pela Science mostravam-se preocupados com a possibilidade de que um desses híbridos pudesse se transformar em um vírus de gripe humana – acredita-se que as pandemias de 1957 e de 1968 foram causadas por uma mistura de genes aviários e humanos forjada no interior de organismos de porcos – e defendiam a criação urgente de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína: advertência, cabe dizer, que encontrou ouvidos surdos em Washington, que achava mais importante então despejar bilhões de dólares no sumidouro das fantasias bioterroristas.
O que provocou tal aceleração na evolução da gripe suína: Há muito que os estudiosos dos vírus estão convencidos que o sistema de agricultura intensiva da China meridional é o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico intercâmbio genômico. Mas a industrialização empresarial da produção pecuária rompeu o monopólio natural da China na evolução da gripe. O setor pecuário transformou-se nas últimas décadas em algo que se parece mais com a indústria petroquímica do que com a feliz granja familiar pintada nos livros escolares.
Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos muito debilitados.
No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um informe sobre a “produção animal em granjas industriais”, onde se destacava o agudo perigo de que “a contínua circulação de vírus (...) característica de enormes aviários ou rebanhos aumentasse as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também que o uso promíscuo de antibióticos nas criações de suínos – mais barato que em ambientes humanos – estava propiciando o surgimento de infecções de estafilococos resistentes, enquanto que os resíduos dessas criações geravam cepas de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou um bilhão de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhora na ecologia deste novo agente patógeno teria que enfrentar-se com o monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e pecuários, como Smithfield Farms (suíno e gado) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática de suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas algumas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento de pesquisadores que cooperaram com a investigação.
Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como a gigante avícola Charoen Pokphand, sediada em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre seu papel na propagação da gripe aviária no sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do vírus da gripe suína bata de frente contra a pétrea muralha da indústria do porco.
Isso não quer dizer que nunca será encontrada uma acusadora pistola fumegante: já corre o rumor na imprensa mexicana de um epicentro da gripe situado em torno de uma gigantesca filial da Smithfield no estado de Vera Cruz. Mas o mais importante – sobretudo pela persistente ameaça do vírus H5N1 – é a floresta, não as árvores: a fracassada estratégia antipandêmica da OMS, a progressiva deterioração da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industrializada e ecologicamente bagunçada.
Segue abaixo o melhor artigo feito até agora sobre essa questão do sempre instigante Mike Davis que é professor no departamento de História da Universidade da Califórnia (UCI), em Irvine, e um especialista nas relações entre urbanismo e meio ambiente. Ex-caminhoneiro, ex-açogueiro e ex-militante estudantil, Davis é colaborador das revistas New Left Review e The Nation, e autor de vários livros, entre eles Ecologia do Medo, Holocaustos coloniais, O monstro bate a nossa porta (editora Record), e Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles (Boitempo).
A gripe suína mexicana, uma quimera genética provavelmente concebido na lama fecal de um criadouro industrial, ameaça subitamente o mundo inteiro com uma febre. Os brotos na América do Norte revelam uma infecção que está viajando já em maior velocidade do que aquela que viajou a última cepa pandêmica oficial, a gripe de Hong Kong, em 1968.
Roubando o protagonismo de nosso último assassino oficial, o vírus H5N1, este vírus suíno representa uma ameaça de magnitude desconhecida. Parece menos letal que o SARS (Síndrome Respiratória Aguda, na sigla em inglês) em 2003, mas como gripe, poderia resultar mais duradoura que a SARS. Dado que as domesticadas gripes estacionais de tipo “A” matam nada menos do que um milhão de pessoas ao ano, mesmo um modesto incremento de virulência, poderia produzir uma carnificina equivalente a uma guerra importante.
Uma de suas primeiras vítimas foi a fé consoladora, predicada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), na possibilidade de conter as pandemias com respostas imediatas das burocracias sanitárias e independentemente da qualidade da saúde pública local. Desde as primeiras mortes causadas pelo H5N1 em 1997, em Hong Kong, a OMS, com o apoio da maioria das administrações nacionais de saúde, promoveu uma estratégia centrada na identificação e isolamento de uma cepa pandêmica em seu raio local de eclosão, seguida de uma massiva administração de antivirais e, se disponíveis, vacinas para a população.
Uma legião de céticos criticou esse enfoque de contrainsurgência viral, assinalando que os micróbios podem agora voar ao redor do mundo – quase literalmente no caso da gripe aviária – muito mais rapidamente do que a OMS ou os funcionários locais podem reagir ao foco inicial. Esses especialistas observaram também o caráter primitivo, e às vezes inexistente, da vigilância da interface entre as enfermidades humanas e as animais. Mas o mito de uma intervenção audaciosa, preventiva (e barata) contra a gripe aviária resultou valiosíssimo para a causa dos países ricos que, como os Estados Unidos e a Inglaterra, preferem investir em suas próprias linhas Maginot biológicas, ao invés de incrementar drasticamente a ajuda às frentes epidêmicas avançadas de ultra mar. Tampouco teve preço esse mito para as grandes transnacionais farmacêuticas, envolvidas em uma guerra sem quartel com as exigências dos países em desenvolvimento empenhados em exigir a produção pública de antivirais genéricos fundamentais como o Tamiflu, patenteado pela Roche.
A versão da OMS e dos centros de controle de enfermidades, que já trabalha com a hipótese de uma pandemia, sem maior necessidade novos investimentos massivos em vigilância sanitária, infraestrutura científica e reguladora, saúde pública básica e acesso global a medicamentos vitais, será agora decisivamente posta a prova pela gripe suída e talvez averigüemos que pertence à mesma categoria de gestão de risco que os títulos e obrigações de Madoff. Não é tão difícil que fracasse o sistema de alertas levando em conta que ele simplesmente não existe. Nem sequer na América do Norte e na União Européia.
Não chega a ser surpreendente que o México careça tanto de capacidade como de vontade política para administrar enfermidades avícolas ou pecuárias, pois a situação só é um pouco melhor ao norte da fronteira, onde a vigilância se desfaz em um infeliz mosaico de jurisdições estatais e as grandes empresas pecuárias enfrentam as regras sanitárias com o mesmo desprezo com que tratam aos trabalhadores e aos animais.
Analogamente, uma década inteira de advertências dos cientistas fracassou em garantir transferências de sofisticadas tecnologias virais experimentais aos países situados nas rotas pandêmicas mais prováveis. O México conta com especialistas sanitários de reputação mundial, mas tem que enviar as amostras a um laboratório de Winnipeg para decifrar o genoma do vírus. Assim se perdeu toda uma semana.
Mas ninguém ficou menos alerta que as autoridades de controle de enfermidades em Atlanta. Segundo o Washington Post, o CDC (Centro de Controle de Doenças) só percebeu o problema seis dias depois de o México ter começado a impor medidas de urgência. Não há desculpas para justificar esse atraso. O paradoxal desta gripe suína é que, mesmo que totalmente inesperada, tenha sido prognosticada com grande precisão. Há seis anos, a revista Science publicou um artigo importante mostrando que “após anos de estabilidade, o vírus da gripe suína da América do Norte tinha dado um salto evolutivo vertiginoso”.
Desde sua identificação durante a Grande Depressão, o vírus H1N1 da gripe suína só havia experimentado uma ligeira mudança de seu genoma original. Em 1998, uma variedade muito patógena começou a dizimar porcas em uma granja da Carolina do Norte, e começaram a surgir novas e mais virulentas versões ano após ano, incluindo uma variante do H1N1 que continha os genes do H3N2 (causador da outra gripe de tipo A com capacidade de contágio entre humanos).
Os cientistas entrevistados pela Science mostravam-se preocupados com a possibilidade de que um desses híbridos pudesse se transformar em um vírus de gripe humana – acredita-se que as pandemias de 1957 e de 1968 foram causadas por uma mistura de genes aviários e humanos forjada no interior de organismos de porcos – e defendiam a criação urgente de um sistema oficial de vigilância para a gripe suína: advertência, cabe dizer, que encontrou ouvidos surdos em Washington, que achava mais importante então despejar bilhões de dólares no sumidouro das fantasias bioterroristas.
O que provocou tal aceleração na evolução da gripe suína: Há muito que os estudiosos dos vírus estão convencidos que o sistema de agricultura intensiva da China meridional é o principal vetor da mutação gripal: tanto da “deriva” estacional como do episódico intercâmbio genômico. Mas a industrialização empresarial da produção pecuária rompeu o monopólio natural da China na evolução da gripe. O setor pecuário transformou-se nas últimas décadas em algo que se parece mais com a indústria petroquímica do que com a feliz granja familiar pintada nos livros escolares.
Em 1965, por exemplo, havia nos Estados Unidos 53 milhões de porcos espalhados entre mais de um milhão de granjas. Hoje, 65 milhões de porcos concentram-se em 65 mil instalações. Isso significou passar das antiquadas pocilgas a gigantescos infernos fecais nos quais, entre esterco e sob um calor sufocante, prontos a intercambiar agentes patógenos à velocidade de um raio, amontoam-se dezenas de milhares de animais com sistemas imunológicos muito debilitados.
No ano passado, uma comissão convocada pelo Pew Research Center publicou um informe sobre a “produção animal em granjas industriais”, onde se destacava o agudo perigo de que “a contínua circulação de vírus (...) característica de enormes aviários ou rebanhos aumentasse as oportunidades de aparição de novos vírus mais eficientes na transmissão entre humanos”. A comissão alertou também que o uso promíscuo de antibióticos nas criações de suínos – mais barato que em ambientes humanos – estava propiciando o surgimento de infecções de estafilococos resistentes, enquanto que os resíduos dessas criações geravam cepas de escherichia coli e de pfiesteria (o protozoário que matou um bilhão de peixes nos estuários da Carolina do Norte e contagiou dezenas de pescadores).
Qualquer melhora na ecologia deste novo agente patógeno teria que enfrentar-se com o monstruoso poder dos grandes conglomerados empresariais avícolas e pecuários, como Smithfield Farms (suíno e gado) e Tyson (frangos). A comissão falou de uma obstrução sistemática de suas investigações por parte das grandes empresas, incluídas algumas nada recatadas ameaças de suprimir o financiamento de pesquisadores que cooperaram com a investigação.
Trata-se de uma indústria muito globalizada e com influências políticas. Assim como a gigante avícola Charoen Pokphand, sediada em Bangkok, foi capaz de desbaratar as investigações sobre seu papel na propagação da gripe aviária no sudeste asiático, o mais provável é que a epidemiologia forense do vírus da gripe suína bata de frente contra a pétrea muralha da indústria do porco.
Isso não quer dizer que nunca será encontrada uma acusadora pistola fumegante: já corre o rumor na imprensa mexicana de um epicentro da gripe situado em torno de uma gigantesca filial da Smithfield no estado de Vera Cruz. Mas o mais importante – sobretudo pela persistente ameaça do vírus H5N1 – é a floresta, não as árvores: a fracassada estratégia antipandêmica da OMS, a progressiva deterioração da saúde pública mundial, a mordaça aplicada pelas grandes transnacionais farmacêuticas a medicamentos vitais e a catástrofe planetária que é uma produção pecuária industrializada e ecologicamente bagunçada.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Notas altamente especulativas sobre o desaparecimento dos deuses
Ao que tudo parece, vivemos em tempos de transformação ontológica. Essa trans-forma é eminentemente dialética. E por quê não evocar Hegel hoje? Em termos lacanianos, ele diria que a dialética ex-siste. Ela necessariamente tem um terceiro termo excessivo, uma lacuna paraláctica que produz a diferença da cisão do Um em si mesmo. Nesses termos, a dialética é a simbolização do Real – do antagonismo traumático que torna “impossível” como a luta de classes ou a não-existência de metalinguagem entre masculino e feminino. Não seria demais, portanto, propor que a dialética é imortal? Que sua própria existência já comporta a imortalidade? Não poderíamos dizer, portanto, que o Ser é dialético? Se a dialética é do campo infinito o Ser consegue acessar essa imortalidade para além da finitude? Qual é a técnica para o Ser? Não seria o Vazio a técnica para Ser, para acessar o campo de Deus (do Real)?
Se Deus é imortal, a pergunta “Deus está vivo?” não faz sentido. Quando se diz “Deus está morto”, no mesmo sentido, tem o pressuposto acerca da finitude de Deus o diminuindo a um vivente que viveu e que pode morrer (ou que está morrendo). Homem e Deus estão numa posição de paralaxe em que se coloca em pauta a questão da eminência da morte e a imortalidade, a infinitude. Enquanto os filósofos das Luzes buscavam reiterar constantemente a possibilidade da morte de Deus pelas mudanças da Filosofia, não buscaram no homem a possibilidade de buscar a imortalidade de Deus enquanto viventes e dialéticos. A busca da Metafísica, seguindo Badiou, sempre rompeu em profundidade com a consignação religiosa do sentido à disposição do Deus vivo. Portanto, o que esperar de Deus hoje?
Se Deus é imortal, a pergunta “Deus está vivo?” não faz sentido. Quando se diz “Deus está morto”, no mesmo sentido, tem o pressuposto acerca da finitude de Deus o diminuindo a um vivente que viveu e que pode morrer (ou que está morrendo). Homem e Deus estão numa posição de paralaxe em que se coloca em pauta a questão da eminência da morte e a imortalidade, a infinitude. Enquanto os filósofos das Luzes buscavam reiterar constantemente a possibilidade da morte de Deus pelas mudanças da Filosofia, não buscaram no homem a possibilidade de buscar a imortalidade de Deus enquanto viventes e dialéticos. A busca da Metafísica, seguindo Badiou, sempre rompeu em profundidade com a consignação religiosa do sentido à disposição do Deus vivo. Portanto, o que esperar de Deus hoje?
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