domingo, 19 de outubro de 2008

A expansão do capital é correspondente a expansão da idiotia liberal?

"Não é o predomínio de motivos econômicos na explicação da história que distingue de maneira decisiva o marxismo da ciência burguesa, mas o ponto de vista da totalidade. A categoria da totalidade, o domínio universal e determinante do todo sobre as partes constituem a essência do método que Marx recebeu de Hegel e transformou de maneira original no fundamento de uma ciência inteiramente nova. A sepração capitalista entre produtor e processo global de produção, a fragmentação do processo de trabalho em partes que deixam de lado o caráter humano do trabalhador, a atomização da sociedade em indivíduos que produzem irrefletidamente, sem planejamento nem coerência, tudo isso devia ter também uma influência profunda sobre o pensamento, a ciência e a filosofia do capitalismo" (Georg Lukács, História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista, Martins Fontes, São Paulo, 2003, p.105).
Existe algo mais verdadeiro do que isso quando os ideólogos do capital debatem o mundo contemporâneo? Pode ser o desastre ecológico ou a dita "crise do sistema financeiro". Não importa: os OPORTUNISTAS de plantão, seja na Veja, na Globo ou na Academia, não se cansam de apontar sua própria racionalidade obtusa pela incapacidade de apontar a causalidade dos fatos. Isso não é mera coincidência: é uma necessidade (!!!) já que essa causalidade simplesmente faria desmoronar qualquer argumentação liberal sobre o caráter natural ou eterno que existe no modo de produção, de consumo e de circulação capitalista. Em uma discussão recente escutei (e saibam que não era de alguém que o senso comum pequeno-burguês chamaria de idiota ou despolitizado) até que existe um gene capitalista em todo ser humano historicamente e que essa condição é inexorável.
Paradoxalemente na aclamada sociedade da informação o que existe é uma incapacidade geral de legitimar o status quo recorrendo amplamente para teorias primárias (assim como seus autores e propagadores que enfestam as universidades) concebendo o fim da história, o choque de civilizações, a pacificação dos conflitos sociais, a democracia como salvadora da humanidade... Parece até brincadeira... Brincadeira que nos remete as mudanças estranhas (diria patológicas) no pensamento liberal dominante devida as necessidades estruturais de legitimação das atuais condições históricas que o capitalismo vive: a nova moda agora é considerar o Estado como salvação dos problemas. Provavelmente até o Sr. Milton Friedman, com seu oportunismo exacerbado, iria se identificar com a necessidade da volta do Estado como um ente regulação das relações sociais capitalistas.
Marx chamava o capital de "a contradição viva": obviamente não poderíamos esperar mais de suas personificações. Entrementes, a pergunta que fica é: até quando vamos ratificar essa condição?

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Vamos desconstruir o fetichismo da mercadoria?

Quando Marx descreveu os mecanismos de reprodução sócio-histórica do capital, pelos quais existe uma abstração social generalizada que rege progressivamente a vida social capitalista, ele denominou de fetichismo das mercadorias. Em seu tempo, entretanto, ele não poderia construir uma crítica-positiva das necessidades sociais dominantes sob a superação da ordem global do capital. Mesmo considerando que o socialismo estava próximo, na verdade Marx cometeu o erro de considerar as crises de expansão de sua época como a crise estrutural que abalaria as condições objetivas de atendimento dos imperativos existenciais do capital. Essa crise - de cunho estrutural, global e multidimensional – se inicia, entretanto, em meados de 1970. Paradoxalmente, conjuntamente com essa crise se iniciou também uma implacável luta pela Verdade para a qual as forças revolucionárias deveriam se nortear. Essa Verdade se distanciou da crítica-positiva sobre o complexo de alienações e fetichismos compostos pelo metabolismo social do capital em sua divisão estrutural e objetivamente hierárquica do trabalho sobre o capital e parece se acomodar perto dos ideais da democracia-liberal. É o fim da história diria um filósofo do Departamento do Estado norte-americano, mas será que a razão revolucionária que luta por uma mudança qualitativa na organização da sociedade rumo à emancipação individual e social no sentido de possibilitar o livre desenvolvimento das potencialidades e capacidade humanas, rumo ao ser, ao valor de uso, à circulação da dádiva deve aceitar isso?
Vale o lembrete de István Mészáros: A matriz das aspirações de emancipação não pode em hipótese alguma estar no sistema do capital. Se estivermos seriamente interessados na realização completa do mandato emancipador, com suas dimensões formais e informais, teremos de imaginar uma ordem metabólica social da qual se removam todas as determinações e defeitos incorrigíveis do capital. Evidentemente é preciso ter em conta o fato de que são necessários muitos passos até que se chegue àquele estágio, e que eles não podem ser dados num futuro hipotético. É preciso começar imediatamente, no presente, assumindo o controle das alavancagens e mediações práticas pelas quais deve passar o progresso, desde o presente realmente existente até o futuro esperado. É fundamental ter uma boa avaliação das nossas forças e recursos, tal como definidos pelas restrições do presente e pelas mediações mais ou menos limitadas ao nosso alcance. Mas nem mesmo um progresso reduzido será possível se não tivermos uma estrutura estratégica de orientação: um 'objetivo geral' que pretendemos atingir. O convite a se deixar orientar pela defesa estratégica da "mudança gradual" pode superficialmente parecer tentador. Mas na realidade essa proposta é enganadora e desorientadora, pois tende a permanecer cega se não se integrar numa estrutura estratégica abrangente, o que equivale a cancelar a nossa autodefinição retórica e geradora de slogans.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Viva o esquecimento!

"Quanto mais esquecido de si mesmo está quem escuta, tanto mais fundo se grava nele a coisa escutada" (Walter Benjamin). Para os lacanianos de plantão, essa não seria a posição de objeto pequeno a do analista durante a tranferência? Essa não seria a ética psicanalítica/aikidoísta? Talvez...
Esse esquecimento, porém, não tem nada a ver com a desistorização pós-moderna do sujeito nem com o relativismo tolerante multiculturalista que, por estar no plano da dessimbolização geral do cultura e do corpo, não tolera excessos. Esse esquecimento ético só funciona sobre a possibilidade do plano do excesso já que, por tornar-se o suposto objeto de desejo fluído para o entendimento da alteridade inscrita no Outro é possível a circulação de dádiva, de significantes, de vida. Se o pensar e o existir não estão no mesmo plano, diferentemente do que considerava Descarte por exemplo, esquecer e lembrar também não estão.

Ato ou Angústia?

Pensando sobre a estética de leitura desse blog vou variar minha escrita e tornar as coisas mais breves e mesmo técnicas. Explicações pela ligação das idéias ao vivo.
O ideário naturalizante do binômio capitalimo e democracia está chegando a um fim: uma mudança bate nas portas da história desse início de século XXI: o mercado não tem mais tempo (capacidade) para estabelecer os mecanismos mais eficientes para o funcionamento das relações sociais sociais capitalistas estabelecidas: isso mostra o caráter do "capitalismo de desastre" direcionado para o atendimento de seus imperativos existenciais de acumulação e expansão de capital, completamente disconexo, diga-se de passagem, das necessidades humanas. Essa etapa do desenvolvimento do capital global se caracteriza pela chegada de seus limites absolutos diante da incapacidade de elimitar suas contradições internas... Vale a pena lembrar Marx: "a produção de novas necessidades constitui o primeiro ato histórico".
Pulando a assertativa das novas necessidades vamos passar para o significado do ato, entretanto, o que seria um Ato?
Psicanaliticamente lembremos que um Ato (um Evento diria Badiou) significa um gesto paupável que torna possível atravessar a fantasia fundamental que estrutural a realidade social a partir de uma contradição (antagonismo) essencial: o conflito entre capital global e trabalho trabalho num nível do significante social. Esse não é o caso da revolução?
Zizek envoca Lêcan ou Lanin (Lênin + Lacan) para nos lembrar que a questão da revolução é autorizada por si mesmo: "deveríamos arriscar o ato revolucionário sem o aval do grande Outro - o medo de tomar o poder "prematuramente", a busca da garantia, é o medo do abismo de agir... aqueles que esperam pelas condições objetivas da revolução vão esperar para sempre..." O Ato causa um impasso diante de todo o histórico do saber inconsciente ultrapassando o sujeito no sentido de estar atrelado com uma Verdade.
Temos que aceitar esse capitalismo naturalizado ou esse sistema global tem contradições que transbordam a condição progressita da utopia liberal?
A democracia te ensina a votar... então quem decida afinal?

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mais, ainda

Vamos sintetizar algumas outras impressões sobre a crise atual. Como demonstraram os fatos, três tendências apontadas anteriormente em outros textos já se mostram evidencias reais: a necessidade de queda do dólar após atingir seu ápice (deve ir para R$ 1, 50 em poucos dias pela necessidade de circulção desse dólares que estão sendo despejados na economia norte-americana...), a queda do preço do petróleo (pela necessidade de maior consumo mundial que está em queda...) e a extensão dos “circuit breakers” (interrupções dos negócios nas bolsas de valores, normalmente por meia hora) pelo mundo. Além disso, o crédito (o sistema circulatório do capital) está prestes do colapso. Não acredito que seja necessário apontar as razões, pois elas já tentaram ser desnudadas em outros textos desse blog! Pois bem...
A razão econômica pode resolver atual crise? Não! Ela só aprofunda a crise no sentido de que, por seu uma crise fenomênica de liquidez, qualquer injeção de mais liquidez no sistema financeiro só pode cavar mais o seu buraco... a Lógica não esteve presente nas aulas dos economistas de plantão...
Vou desenvolver novamente algumas teses que sintetizam meu entendimento sobre os últimos fatos...
1) A crise atual abre as portas para uma longa recessão na economia mundial. A crise de 1929 ocorreu como um processo que teve seu ponto culminante apenas em 1933. A atual crise, entretanto, tem especificidades que englobam uma complexidade e uma globalizadade extensivamente e intensamente maior do que em 1929. Por isso, concordo com Chesnais e Mészáros (!!!) que diriam que estamos a viver as primeiras etapas, mas realmente primeiras, primeiríssimas etapas de um processo que está muito além da crise de 1929 tanto em amplitude quanto em temporalidade. Dessa forma, a crise atual pode ser comparada com a de 1929, entretanto, com radicais mudanças de contexto. A atual crise financeira mundial não passa de um aspecto que deve ser interpretada com uma multiplicidade de outros processos históricos que desembocam nos dias de hoje como a inserção no mercado mundial de pólos como a Índia, a China, a Rússia e os satélites soviéticos, a próprio processo de financeirização econômica, a reestruturação neoliberal, a globalização, a liberalização e desregulamentação global para o capital efetuar sua extração de mais-valias ...etc...
2) Os limites históricos da produção capitalista estão nus novamente. O que será que diria Marx nesse momento? Provavelmente algo que já disse! “O verdadeiro limite da produção capitalista é o próprio capital; é o fato de que, nela, são o capital e a sua própria valorização que constituem a ponto de partida e a meta, o motivo e o fim da produção; o fato de que aqui a produção é só produção para o capital e, inversamente, não são os meios de produção simples meios pra ampliar cada vez mais a estrutura do processo de vida da sociedade dos produtores. Daí que os limites dentro dos quais tem de mover-se a conservação e a valorização do valor-capital, a qual descansa na expropriação e na depauperção das grandes massas de produtores, choquem constantemente com os métodos de produção que o capital se vê obrigado a empregar para conseguir os seus fins e que tendem para o aumento ilimitado da produção, para a produção pela própria produção, para o desenvolvimento incondicional das forças produtivas do trabalho. O meio ‘empregado – desenvolvimento incondicional das forças produtivas – choca constantemente o fim perseguido, que é um fim limitado: a valorização de capital existente. Por conseguinte, se o regime capitalista de produção constitui um meio histórico para desenvolver a capacidade produtiva material e criar o mercado mundial correspondente, envolve ao mesmo tempo uma contradição constante entre essa missão histórica e as condições sociais de produção deste regime”...
3) A atual crise que mostra seu estado embrionário nos principais jornais diários. Ali ainda se mostra os fatos de maneira esquizofrênica em relação à histórica ou, em outras palavras, assim como os ideólogos do capital, não existe nenhuma relação de causalidade desses fatos. Eles simplesmente acontecem...
4) Estamos chegando a uma crise única na história: ao mesmo tempo em que afeta o coração do sistema capitalista colocando limites imanentes para a expansão do capital global, também se desenvolve como uma crise múltipla (crise do preço dos alimentos, de energia, ecológica) que se envolve com as tendências do capitalismo tardio de desemprego estrutural e precarização generalizada da força de trabalho. “Entramos numa fase em que se coloca realmente uma crise da humanidade, dentro de complexas relações nas quais incluem também os acontecimentos bélicos, mas o mais importante é que, mesmo excluindo a explosão de uma guerra de grande amplitude que, no presente momento, só podia ser uma guerra atômica, estamos confrontados com um novo tipo de crise, com uma combinação desde crise econômica, que começou, com uma situação na qual a natureza, tratada sem a menos contemplação e atacada pelo homem no marco do capitalismo, reage agora de forma brutal. Isto é uma coisa quase excluída das nossas discussões, mas que vai impor-se como um fato central”.
5) O que os Estados Unidos podem fazer? O recado de Mészáros parece soar nos ouvidos: todas as suas relações mundiais se modificaram no sentido de partilhar seu poder. Entretanto, essa reordenação de suas relações de base serão pacíficas? A história do capital nega essa possibilidade. E o mundo atual? A China expandiu nas últimas décadas as relações de produção do capitalismo principalmente com base em processos internos. Entretanto, paralelo com esse processo, a China transferiu para os Estados Unidos uma enorme parte do Setor II da economia, isso é, o setor de meios de consumo. O déficit comercial e fiscal dos EUA encontra-se primordialmente aqui. Isso nos leva a concluir que novas relações entre essas potências terão início. Pensemos nisso no processo de nacionalização de empresas como a Fannie Mae e a Freddy Mac onde a banca da China tinha 15% dos seus fundos nessas entidades e comunicou ao governo dos EUA que não iria aceitar a sua desvalorização.
6) O que temos então? Parece-me que a conjugação de uma crise mundial na economia (a maior nos últimos 80 anos da qual ainda está num período embrionário mostrando apenas o cume do iceberg) com a impossibilidade de revolvê-la de forma pacífica transformando radicalmente as relações internacionais. Como o concebemos, o mundo está iniciando seu fim. Será o fim de todos ou o fim dos limites da produção capitalista? Apenas tendo a certeza de que uma catástrofe incalculável a priori vai nos atingir com certeza absoluta é possível criar meios para sua resistência... enquando o ideário do progresso possível continuar as coisas estaram fadadas ao fracasso geral.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Apesar da crise... um pouco de amor...

Peço desculpas por essa postagem, mas acho que sempre existe espaço para reflexões diárias sobre o amor...
Quando amamos? Quando existe uma pessoa que proteja as fantasias que estruturam a nossa realidade. É o amor que se ama e não determinado objeto...
Quem amamos? Amamos aquele supostamente conhece nossa verdade e nos ajuda a suportá-la...

O que é amar? É crer que amando é possível chegar a uma verdade sobre si mesmo sob uma constante ajuda para responder a pergunta crucial: "quem sou eu?". Nesse sentido, saber amar faz parte de uma confissão primordial: a falta do outro. Para Lacan, amar é dar o que não se tem. É uma promessa de reciprocidade transferêncial...
Para os homens é mais difícil amar? Sim! A moral hegêmonica masculina é aquela que não possibilita uma posição de incompletude, de dependência. Talvez seja por isso que o homem pode desejar as mulheres que não ama: uma busca por sua virilidade suspensa (não estou dizendo que as mulheres também não façam isso muito menos legitimando a posição masculina!)...
E nas mulheres? As mulheres estão tomando a posição dos homens no sentido de buscar um amor onde não exista uma co-dependência. Em outras palavras, uma degradação dos sentidos amorosos, uma fragilização dos laços humanos...

Existe solução para o amor? Absolutamente não. Estamos condenados a aprender a lingua do outro que acessa nosso desejo sabendo que qualquer tipo de responta definita é uma falsidade ontológica...

Existe alguma relação do amor com a morte? A chegada de ambos é única, defintiva, não suporta repetição, não tem recurso e nem promete prorrogação. Como diz Zigmunt Bauman, "o amor e a morte não têm história própria. São eventos que ocorrem no tempo humano - eventos distintos, não conectados (muito menos de modo causal) com eventos "similares", a não ser na visão de instituições àvidas por identificar retrospectivamente essas conexões e compreender o incompreensível. Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer"...
Lembro-me de uma passagem do livro "Fragmentos de um discurso amoroso" do elegante Roland Barthes que ele nos fala, baseado incoscientemente em Nietzche, sobre as duas afirmações do amor: inicialmente, quando o amante encontra o outro, há afirmação imediata (psicologicamente: deslumbramento, entusiasmo, exaltação, louca projeção de um futuro pleno: sou devorado pelo desejo, pelo impulso de ser feliz): digo sim a tudo (cegando-me). Em seguida vem um longo túnel: meu primeiro sim é corroído por dúvidas, o valor amoroso é incessantemente ameaçado de deprecição: é o momento da paixçao triste, do surgimento do ressentimento e da oblação. Desse túnel, entretanto, posso sair: posso "superar", sem liquidar; o que afirmei uma primeira vez, posso novamento afirmar, sem repetir, pois, agora, o que afirmo é a afirmação, não sua contingência: afirmo o primeiro encontro na sua diferença, quero seu retorno, não sua repetição. Digo ao outro (antigo ou novo): recomeçemos...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Tudo que você quer saber sobre a crise mas tem medo de não entender

Essa postagem é uma colagem pós-moderna, um pastiche diria Fredric Jameson. O que é isso? Usarei um texto base de um rapaz chamado Walden Bello para fazer alguns desvios teóricos pessoais a lá Debord. Quem o ler vai encontrar um texto sem citações minhas ou dele, mas sim um texto único com uma construção de pensamento duplo (sem o consentimento dele, diga-se de passagem). Pena!, diria meu amigo Urso.
Nas notícias diárias vemos que estamos numa crise. Entretanto, o que ela significa? Tentando responder essa complexa pergunta, vamos fazer uma viagem no tempo! Uhuw! Para os mais entusiasmados, cuidado. Para os mais céticos, uma mirada. Para os pessimistas, algumas premissas teóricas. Para alguns pensadores como István Mészáros, Robert Brenner, David Harvey, Robert Kurz, Anselm Jappe, Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi, Walden Bello, etc, temos apenas algumas conclusões óbvias. Por ser um blog independente, vamos fazer diferente essa postagem: vou criar perguntas e desenvolver algumas respostas que acredito serem pertinentes com uma concisão máxima para que os leitores possam refletir sobre cada afirmação dada.

O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? O pior já passou? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Qual a relação entre a política de reestruturação neoliberal, adotada para superar a crise de superprodução, e o colapso de Wall Street? Como se formam, crescem e explodem as bolhas e como se formou a atual bolha imobiliária?

Todos nós fazemos as seguintes perguntas sobre a atual crise financeira: O pior já passou? O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? Foi a cobiça? Foi Wall Street um caso de "alguacil endemoniado"? Foi falta de regulação? Não há nada mais? Não há nada sistêmico? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Então, o que aconteceu? Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução? Em que consistiu a reestruturação neoliberal? Em que medida a globalização dos 80 e 90 foi uma resposta à crise dos 70? Por que a financeirização é tão volátil? Como se formam, crescem e explodem as bolhas? E como é possível que os titãs de Wall Street desabem como um castelo de cartas? O que acontecerá agora? Com efeito, todos nós fazemos essas perguntas.
O desmoronamento de Wall Street não se deve somente à cobiça e à falta de regulação estatal de um setor hiperativo. Procede, sobretudo, da crise de sobreprodução que vem minando o capitalismo remundializado desde meados dos anos 70: a crise estrutural do metabolismo global do capital. Entre 1 e 3 bilhões de dólares de ativos financeiros evaporados. Wall Street, nacionalizado, com o Banco Central e o Departamento do Tesouro tomando todas as decisões estratégicas importantes no setor financeiro e tudo isso com um governo que, por trás do resgate da AIG, passa a dirigir a maior companhia seguradora do mundo. O maior resgate desde a grande depressão, com 700 milhões de dólares levantados desesperadamente para salvar o sistema financeiro. As explicações habituais já não bastam. Os acontecimentos extraordinários precisam de explicações extraordinárias. Mas, antes...O pior já passou?Não! Se algo ficou claro com os movimentos contraditórios dessas últimas semanas, em que, no momento em que se permitia a quebra do Lehman Brothers se nacionalizava a AIG e se programava a tomada de controle da Merril Lynch pelo Bank of America, é que não há uma estratégia para enfrentar a crise. Há, em resumo, respostas táticas, como bombeiros que pisam na mangueira, atrapalhados com a magnitude do incêndio. O resgate de 700 milhões de dólares das obrigações hipotecárias respaldadas pelo poder dos bancos não é uma estratégia, senão basicamente um esforço desesperado para restaurar a confiança no sistema, para prevenir a erosão da fé nos bancos e em outras instituições financeiras e para evitar a afluência massiva de retirada de fundos dos bancos, como a que desencadeou a Grande Depressão de 1929. Entretanto, antes de nos empolgarmos, vamos responder algumas perguntas...
1) O que significa crise para o capitalismo?
O estado natural do capital é de crise. A incapacidade de resolução dessas crises é que constitui a dinâmica de seu desenvolvimento histórico rumo ao atendimento de seus imperativos existenciais de acumulação e expansão, independentemente das necessidades humanas. O que diferencia a atual crise é que ela um dos “pontos de culminância” da crise estrutural do metabolismo global do capital, desde meados de 1970. Em que consiste essa crise? Basicamente na incapacidade de expansão do capital por chegar a um limite tanto histórico quanto lógico de seu desenvolvimento: a globalização é uma resposta última desse processo que Rosa Luxemburgo já havia detectado no início do século XX. É o desenvolvimento máximo das forças produtivas capitalistas, dizendo num linguajar marxista.
Em meados de 1970 também ocorre uma crise de superprodução de mercadorias (insolúvel, diga-se de passagem). Para os Estados Unidos, as crescentes porções do Japão e da Alemanha nos mercados mundiais aprofundaram (senão também causaram) a perda da capacidade concorrencial jogando para baixo as taxas de lucro possíveis. Durante a época de ouro do capitalismo, entre 1945 e 1970, existiu um crescimento rápido propiciado pela massiva reconstrução da Europa e do Leste Asiático e pela configuração social dada pelo binômio keynesianismo/fordismo. Nesse processo o Estado tornou-se o mediador per excellence dos conflitos sociais criando uma regulação dos mercados com o ímpeto de criar políticas fiscais e monotárias de minimizavam as possibilidades de recessão e, ainda, criava formas de salários indiretos para estimular a demanda por mercadorias. Esse foi o Walfare State e, na sua versão subdesenvolvida, o Estado desenvolvimentista.
Com o esgotamento desse padrão, seja simbolicamente pelos eventos de 1968 ou pelos atos políticos reacionários do neoliberalismo encabeçado por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, começa a existir uma inversão no desenvolvimento do capitalismo que, antes baseado no desenvolvimento das forças produtivas, agora é baseado no desenvolvimento de forças destrutivas. Por que? O fim do crescimento das economias do centro capitalista se viu coexistente com a necessidade de expansão do capital. Entra em cena a superprodução de mercadorias (nesse sentido é que deve ser entendida a sociedade de consumo e o pós-modernismo!) buscando novos setores para a acumulação (inclusive a natureza e o inconsciente).
Sob um crescimento depressivo, o capital encontra quatro formas de responder a essa crise estrutural: a globalização, a reestruturação produtiva e política neoliberal, a financeirização e o desenvolvimento das novas tecnologias. Não vou percorrer, nem rapidamente, cada uma delas. Vamos ao ponto que parece mais importar hoje: a financeirização.
Com a tendência do capitalismo de produzir uma enorme capacidade produtiva, o resultado é rebaixar a capacidade de consumo da população, devido às desigualdades que limitam o poder de compra popular, o qual termina por erodir as taxas de lucro. Mas o que a crise estruural que envolve a superprodução de mercadorias tem a ver com os acontecimentos recentes? Muitíssimo!
2) Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução?
O capital tentou três vias de saída do atoleiro da superprodução: a restruturação neoliberal, a globalização e a financeirização. Em que consistiu a reestruturação neoliberal?A reestruturação neoliberal tomou a forma do reaganismo e do thatcherismo no Norte e do ajuste estrutural no Sul. O objetivo era a revigorização da acumulação de capital, o que foi feito: 1) removendo as restrições estatais ao crescimento, ao uso e aos fluxos de capital e de riqueza; 2) redistribuindo a renda das classes pobres e médias dentre os ricos, de acordo com a teoria de que assim os ricos seriam motivados a investir e a alimentar o crescimento econômico. O problema dessa fórmula era que, ao redistribuir a renda em favor dos ricos, estrangulava-se a renda dos pobres e das classes médias, o que provocava a restrição da demanda, sem necessariamente induzir os ricos a investir mais em produção. De fato, a reestruturação neoliberal, que se generalizou no Norte e no Sul ao longo dos anos oitenta e noventa, teve resultados pobres em termos de crescimento: o crescimento global prometido foi de 1,1% nos 90 e de 1,4 nos 80, enquanto a média nos 60 e nos 70, quando as políticas intervencionistas eram dominantes, foi, respectivamente, de 3,5% e de 2,54%. A reestruturação neoliberal não pôde terminar com a “estagflação”.
3) Em que medida a globalização foi uma resposta à crise?
A segunda via de escape global tentada pelo capital para enfrentar a estagflação foi a “acumulação extensiva” ou globalização, quer dizer, a rápida integração das zonas semi-capitalistas, não-capitalistas e pré-capitalistas à economia global de mercado. Rosa Luxemburgo, a celebrada economista e revolucionária alemã, percebeu este mecanismo há muito tempo, vendo-o nas economias metropolitanas. Como? Com o acesso de novas fontes de produtos agrícolas e de matéria-prima baratos; e criando novas áreas para investimento em infra-estrutura. A integração se produz através da liberalização do comércio, removendo obstáculos à mobilidade do capital e abolindo as fronteiras para o investimento no exterior. Nem é o preciso lembra que a China é o caso mais destacado de uma área não-capitalista integrada na economia capitalista global nos últimos 25 anos. Para compensar seus lucros declinantes, um considerável número de corporações empresariais situadas entre as primeiras 500 do ranking da revista Fortune deslocaram uma parte significativa de suas operações para a China, a fim de aproveitar as vantagens do chamado “preço chinês” (as vantagens de custos derivadas de um trabalho barato e aparentemente inesgotável). Em meados da primeira década do século XXI, entre 40 e 50% dos lucros das corporações estadunidenses procediam de suas operações e vendas no exterior, marcadamente na China.
4) Por que a globalização não pôde superar a crise?
O problema com esta via de saída do estancamento é que se exacerba o problema da superprodução, porque aumenta a capacidade produtiva. A China dos últimos 25 anos acrescentou um tremendo volume de capacidade manufatureira, o que teve por efeito deprimir os preços e os lucros. Não por acaso, os lucros das corporações estadunidenses deixaram de crescer até 1997. De acordo com um índice estatístico, as taxas de lucros das 500 maiores da Fortune passou de 7,15 em 1960-69 a 5,3 em 1980-1990, a 2,29 em 1990-99 e a 1,32 em 2000-02. Dados os limitados ganhos obtidos para conter o impacto depressivo da superprodução, seja através da reestruturação neoliberal, seja com a globalização, a terceira via de saída tornou-se vital para manter e para elevar a rentabilidade. A terceira via é a financeirização. No mundo ideal da teoria econômica neoclássica, o sistema financeiro é o mecanismo a mercê do qual os poupadores, ou quem se encontra na posse de fundos excedentes, juntam-se com os empresários que têm necessidade de seus fundos, para investir em produção. No mundo real, da crise estrutural do metabolsimo gloabl do capital, com o investimento na indústria e na agricultura gerando lucros magros, por causa da superprodução, grandes quantidades de fundos excedentes circulam e são investidas e re-investidas no setor financeiro. Quer dizer, o sistema financeiro gira sobre si mesmo: uma tautologia, assim como o espetáculo. O resultado é que se aumenta o hiato aberto entre uma economia financiera hiperativa e uma economia real estancada. Como bem observa um executivo financeiro: “tem havido uma crescente desconexão entre a economia real e a economia financeira nos últimos anos. A economia real cresceu, mas nada comparável à financeira...até que explodiu”. O que este observador nos diz é que a desconexão entre a economia real e a financeira não é acidental: que a economia financeira se distanciou precisamente para fazer frente ao estancamento gerador da superprodução da economial real. Um dos limites do capital pode ser entendido exatamente nesse ponto: o desligamento total do elo material que liga o sistema de produção com o sistema produtivo em vias de desaparecimento...
5) Quais foram os problemas da financeirização como via de saída?
O problema de investir em operações do setor financeiro é que equivale a exprimir valor de valor já criado. Pode criar lucro, de acordo, mas não cria valor – só a indústria, a agricultura, o comércio e os serviços criam valor novo. Visto que os lucros não se baseiam na criação de valor novo ou agregado, as operações de investimento resultam extremamente voláteis e os preços das ações, as obrigações e de outras formas de investimento podem chegar a divergir radicalmente de seu valor real: por exemplo, as ações de empresas incipientes de Internet, que se mantiveram por um tempo em alta, sustentadas principalmente por valorações financeiras em espiral, para logo arruinarem-se. Os lucros dependem, então, do aproveitamento das vantagens por movimento de preços que divergem da alta do valor das mercadorias, para vender oportunamente antes de que a realidade force a “correção” para baixa, a fim de ajustar-se aos valores reais. A alta radical dos preços de um ativo, muito além dos valores reais, é o que se cama de formação de uma bolha. Como podemos resumir esse processo, portanto?
O desabamento de Wall Street não se deve apenas à cobiça e à falta de regulação estatal do setor hiperativo. O colapso de Wall Street tem suas raízes na crise de superprodução que foi a praga do capitalismo global desde meados dos 70.
A financeirização do investimento tem sido uma das vias de escape para sair do estancamento, sendo as outras a da reestruturação neoliberal e da globalização. Tendo resultado de pouco alívio a reestruturação neoliberal e a globalização, a financeirização pareceu atrativa como mecanismo de restauração da rentabilidade. Mas o que agora ficou demonstrado é que a financeirização é uma trilha perigosa que leva à formação de bolhas especulativas, capazes de oferecer uma efêmera prosperidade a uns quantos, mas que terminam no colapso empresarial e na recessão da economia real. Até quando?
Ficam as questões: Quão profunda e duradoura será esta recessão? A economia dos EUA necessitará criar outra bolha especulativa para sair dessa recessão? E se isso for o caso, onde se formará a próxima bolha? Alguns dizem que a próxima surgirá no complexo militar-industrial ou no “capitalismo de desastre” sobre o qual escreve Naomi Klein (livro de urgente leitura!). Mas isso não é farinha do mesmo saco