quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Apesar da crise... um pouco de amor...

Peço desculpas por essa postagem, mas acho que sempre existe espaço para reflexões diárias sobre o amor...
Quando amamos? Quando existe uma pessoa que proteja as fantasias que estruturam a nossa realidade. É o amor que se ama e não determinado objeto...
Quem amamos? Amamos aquele supostamente conhece nossa verdade e nos ajuda a suportá-la...

O que é amar? É crer que amando é possível chegar a uma verdade sobre si mesmo sob uma constante ajuda para responder a pergunta crucial: "quem sou eu?". Nesse sentido, saber amar faz parte de uma confissão primordial: a falta do outro. Para Lacan, amar é dar o que não se tem. É uma promessa de reciprocidade transferêncial...
Para os homens é mais difícil amar? Sim! A moral hegêmonica masculina é aquela que não possibilita uma posição de incompletude, de dependência. Talvez seja por isso que o homem pode desejar as mulheres que não ama: uma busca por sua virilidade suspensa (não estou dizendo que as mulheres também não façam isso muito menos legitimando a posição masculina!)...
E nas mulheres? As mulheres estão tomando a posição dos homens no sentido de buscar um amor onde não exista uma co-dependência. Em outras palavras, uma degradação dos sentidos amorosos, uma fragilização dos laços humanos...

Existe solução para o amor? Absolutamente não. Estamos condenados a aprender a lingua do outro que acessa nosso desejo sabendo que qualquer tipo de responta definita é uma falsidade ontológica...

Existe alguma relação do amor com a morte? A chegada de ambos é única, defintiva, não suporta repetição, não tem recurso e nem promete prorrogação. Como diz Zigmunt Bauman, "o amor e a morte não têm história própria. São eventos que ocorrem no tempo humano - eventos distintos, não conectados (muito menos de modo causal) com eventos "similares", a não ser na visão de instituições àvidas por identificar retrospectivamente essas conexões e compreender o incompreensível. Assim, não se pode aprender a amar, tal como não se pode aprender a morrer"...
Lembro-me de uma passagem do livro "Fragmentos de um discurso amoroso" do elegante Roland Barthes que ele nos fala, baseado incoscientemente em Nietzche, sobre as duas afirmações do amor: inicialmente, quando o amante encontra o outro, há afirmação imediata (psicologicamente: deslumbramento, entusiasmo, exaltação, louca projeção de um futuro pleno: sou devorado pelo desejo, pelo impulso de ser feliz): digo sim a tudo (cegando-me). Em seguida vem um longo túnel: meu primeiro sim é corroído por dúvidas, o valor amoroso é incessantemente ameaçado de deprecição: é o momento da paixçao triste, do surgimento do ressentimento e da oblação. Desse túnel, entretanto, posso sair: posso "superar", sem liquidar; o que afirmei uma primeira vez, posso novamento afirmar, sem repetir, pois, agora, o que afirmo é a afirmação, não sua contingência: afirmo o primeiro encontro na sua diferença, quero seu retorno, não sua repetição. Digo ao outro (antigo ou novo): recomeçemos...

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Tudo que você quer saber sobre a crise mas tem medo de não entender

Essa postagem é uma colagem pós-moderna, um pastiche diria Fredric Jameson. O que é isso? Usarei um texto base de um rapaz chamado Walden Bello para fazer alguns desvios teóricos pessoais a lá Debord. Quem o ler vai encontrar um texto sem citações minhas ou dele, mas sim um texto único com uma construção de pensamento duplo (sem o consentimento dele, diga-se de passagem). Pena!, diria meu amigo Urso.
Nas notícias diárias vemos que estamos numa crise. Entretanto, o que ela significa? Tentando responder essa complexa pergunta, vamos fazer uma viagem no tempo! Uhuw! Para os mais entusiasmados, cuidado. Para os mais céticos, uma mirada. Para os pessimistas, algumas premissas teóricas. Para alguns pensadores como István Mészáros, Robert Brenner, David Harvey, Robert Kurz, Anselm Jappe, Immanuel Wallerstein, Giovanni Arrighi, Walden Bello, etc, temos apenas algumas conclusões óbvias. Por ser um blog independente, vamos fazer diferente essa postagem: vou criar perguntas e desenvolver algumas respostas que acredito serem pertinentes com uma concisão máxima para que os leitores possam refletir sobre cada afirmação dada.

O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? O pior já passou? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Qual a relação entre a política de reestruturação neoliberal, adotada para superar a crise de superprodução, e o colapso de Wall Street? Como se formam, crescem e explodem as bolhas e como se formou a atual bolha imobiliária?

Todos nós fazemos as seguintes perguntas sobre a atual crise financeira: O pior já passou? O que causou o colapso do centro nevrálgico do capitalismo global? Foi a cobiça? Foi Wall Street um caso de "alguacil endemoniado"? Foi falta de regulação? Não há nada mais? Não há nada sistêmico? O que a crise de superprodução dos anos 70 tem a ver com os acontecimentos recentes? Então, o que aconteceu? Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução? Em que consistiu a reestruturação neoliberal? Em que medida a globalização dos 80 e 90 foi uma resposta à crise dos 70? Por que a financeirização é tão volátil? Como se formam, crescem e explodem as bolhas? E como é possível que os titãs de Wall Street desabem como um castelo de cartas? O que acontecerá agora? Com efeito, todos nós fazemos essas perguntas.
O desmoronamento de Wall Street não se deve somente à cobiça e à falta de regulação estatal de um setor hiperativo. Procede, sobretudo, da crise de sobreprodução que vem minando o capitalismo remundializado desde meados dos anos 70: a crise estrutural do metabolismo global do capital. Entre 1 e 3 bilhões de dólares de ativos financeiros evaporados. Wall Street, nacionalizado, com o Banco Central e o Departamento do Tesouro tomando todas as decisões estratégicas importantes no setor financeiro e tudo isso com um governo que, por trás do resgate da AIG, passa a dirigir a maior companhia seguradora do mundo. O maior resgate desde a grande depressão, com 700 milhões de dólares levantados desesperadamente para salvar o sistema financeiro. As explicações habituais já não bastam. Os acontecimentos extraordinários precisam de explicações extraordinárias. Mas, antes...O pior já passou?Não! Se algo ficou claro com os movimentos contraditórios dessas últimas semanas, em que, no momento em que se permitia a quebra do Lehman Brothers se nacionalizava a AIG e se programava a tomada de controle da Merril Lynch pelo Bank of America, é que não há uma estratégia para enfrentar a crise. Há, em resumo, respostas táticas, como bombeiros que pisam na mangueira, atrapalhados com a magnitude do incêndio. O resgate de 700 milhões de dólares das obrigações hipotecárias respaldadas pelo poder dos bancos não é uma estratégia, senão basicamente um esforço desesperado para restaurar a confiança no sistema, para prevenir a erosão da fé nos bancos e em outras instituições financeiras e para evitar a afluência massiva de retirada de fundos dos bancos, como a que desencadeou a Grande Depressão de 1929. Entretanto, antes de nos empolgarmos, vamos responder algumas perguntas...
1) O que significa crise para o capitalismo?
O estado natural do capital é de crise. A incapacidade de resolução dessas crises é que constitui a dinâmica de seu desenvolvimento histórico rumo ao atendimento de seus imperativos existenciais de acumulação e expansão, independentemente das necessidades humanas. O que diferencia a atual crise é que ela um dos “pontos de culminância” da crise estrutural do metabolismo global do capital, desde meados de 1970. Em que consiste essa crise? Basicamente na incapacidade de expansão do capital por chegar a um limite tanto histórico quanto lógico de seu desenvolvimento: a globalização é uma resposta última desse processo que Rosa Luxemburgo já havia detectado no início do século XX. É o desenvolvimento máximo das forças produtivas capitalistas, dizendo num linguajar marxista.
Em meados de 1970 também ocorre uma crise de superprodução de mercadorias (insolúvel, diga-se de passagem). Para os Estados Unidos, as crescentes porções do Japão e da Alemanha nos mercados mundiais aprofundaram (senão também causaram) a perda da capacidade concorrencial jogando para baixo as taxas de lucro possíveis. Durante a época de ouro do capitalismo, entre 1945 e 1970, existiu um crescimento rápido propiciado pela massiva reconstrução da Europa e do Leste Asiático e pela configuração social dada pelo binômio keynesianismo/fordismo. Nesse processo o Estado tornou-se o mediador per excellence dos conflitos sociais criando uma regulação dos mercados com o ímpeto de criar políticas fiscais e monotárias de minimizavam as possibilidades de recessão e, ainda, criava formas de salários indiretos para estimular a demanda por mercadorias. Esse foi o Walfare State e, na sua versão subdesenvolvida, o Estado desenvolvimentista.
Com o esgotamento desse padrão, seja simbolicamente pelos eventos de 1968 ou pelos atos políticos reacionários do neoliberalismo encabeçado por Ronald Reagan e Margareth Thatcher, começa a existir uma inversão no desenvolvimento do capitalismo que, antes baseado no desenvolvimento das forças produtivas, agora é baseado no desenvolvimento de forças destrutivas. Por que? O fim do crescimento das economias do centro capitalista se viu coexistente com a necessidade de expansão do capital. Entra em cena a superprodução de mercadorias (nesse sentido é que deve ser entendida a sociedade de consumo e o pós-modernismo!) buscando novos setores para a acumulação (inclusive a natureza e o inconsciente).
Sob um crescimento depressivo, o capital encontra quatro formas de responder a essa crise estrutural: a globalização, a reestruturação produtiva e política neoliberal, a financeirização e o desenvolvimento das novas tecnologias. Não vou percorrer, nem rapidamente, cada uma delas. Vamos ao ponto que parece mais importar hoje: a financeirização.
Com a tendência do capitalismo de produzir uma enorme capacidade produtiva, o resultado é rebaixar a capacidade de consumo da população, devido às desigualdades que limitam o poder de compra popular, o qual termina por erodir as taxas de lucro. Mas o que a crise estruural que envolve a superprodução de mercadorias tem a ver com os acontecimentos recentes? Muitíssimo!
2) Como o capitalismo tratou de resolver a crise de superprodução?
O capital tentou três vias de saída do atoleiro da superprodução: a restruturação neoliberal, a globalização e a financeirização. Em que consistiu a reestruturação neoliberal?A reestruturação neoliberal tomou a forma do reaganismo e do thatcherismo no Norte e do ajuste estrutural no Sul. O objetivo era a revigorização da acumulação de capital, o que foi feito: 1) removendo as restrições estatais ao crescimento, ao uso e aos fluxos de capital e de riqueza; 2) redistribuindo a renda das classes pobres e médias dentre os ricos, de acordo com a teoria de que assim os ricos seriam motivados a investir e a alimentar o crescimento econômico. O problema dessa fórmula era que, ao redistribuir a renda em favor dos ricos, estrangulava-se a renda dos pobres e das classes médias, o que provocava a restrição da demanda, sem necessariamente induzir os ricos a investir mais em produção. De fato, a reestruturação neoliberal, que se generalizou no Norte e no Sul ao longo dos anos oitenta e noventa, teve resultados pobres em termos de crescimento: o crescimento global prometido foi de 1,1% nos 90 e de 1,4 nos 80, enquanto a média nos 60 e nos 70, quando as políticas intervencionistas eram dominantes, foi, respectivamente, de 3,5% e de 2,54%. A reestruturação neoliberal não pôde terminar com a “estagflação”.
3) Em que medida a globalização foi uma resposta à crise?
A segunda via de escape global tentada pelo capital para enfrentar a estagflação foi a “acumulação extensiva” ou globalização, quer dizer, a rápida integração das zonas semi-capitalistas, não-capitalistas e pré-capitalistas à economia global de mercado. Rosa Luxemburgo, a celebrada economista e revolucionária alemã, percebeu este mecanismo há muito tempo, vendo-o nas economias metropolitanas. Como? Com o acesso de novas fontes de produtos agrícolas e de matéria-prima baratos; e criando novas áreas para investimento em infra-estrutura. A integração se produz através da liberalização do comércio, removendo obstáculos à mobilidade do capital e abolindo as fronteiras para o investimento no exterior. Nem é o preciso lembra que a China é o caso mais destacado de uma área não-capitalista integrada na economia capitalista global nos últimos 25 anos. Para compensar seus lucros declinantes, um considerável número de corporações empresariais situadas entre as primeiras 500 do ranking da revista Fortune deslocaram uma parte significativa de suas operações para a China, a fim de aproveitar as vantagens do chamado “preço chinês” (as vantagens de custos derivadas de um trabalho barato e aparentemente inesgotável). Em meados da primeira década do século XXI, entre 40 e 50% dos lucros das corporações estadunidenses procediam de suas operações e vendas no exterior, marcadamente na China.
4) Por que a globalização não pôde superar a crise?
O problema com esta via de saída do estancamento é que se exacerba o problema da superprodução, porque aumenta a capacidade produtiva. A China dos últimos 25 anos acrescentou um tremendo volume de capacidade manufatureira, o que teve por efeito deprimir os preços e os lucros. Não por acaso, os lucros das corporações estadunidenses deixaram de crescer até 1997. De acordo com um índice estatístico, as taxas de lucros das 500 maiores da Fortune passou de 7,15 em 1960-69 a 5,3 em 1980-1990, a 2,29 em 1990-99 e a 1,32 em 2000-02. Dados os limitados ganhos obtidos para conter o impacto depressivo da superprodução, seja através da reestruturação neoliberal, seja com a globalização, a terceira via de saída tornou-se vital para manter e para elevar a rentabilidade. A terceira via é a financeirização. No mundo ideal da teoria econômica neoclássica, o sistema financeiro é o mecanismo a mercê do qual os poupadores, ou quem se encontra na posse de fundos excedentes, juntam-se com os empresários que têm necessidade de seus fundos, para investir em produção. No mundo real, da crise estrutural do metabolsimo gloabl do capital, com o investimento na indústria e na agricultura gerando lucros magros, por causa da superprodução, grandes quantidades de fundos excedentes circulam e são investidas e re-investidas no setor financeiro. Quer dizer, o sistema financeiro gira sobre si mesmo: uma tautologia, assim como o espetáculo. O resultado é que se aumenta o hiato aberto entre uma economia financiera hiperativa e uma economia real estancada. Como bem observa um executivo financeiro: “tem havido uma crescente desconexão entre a economia real e a economia financeira nos últimos anos. A economia real cresceu, mas nada comparável à financeira...até que explodiu”. O que este observador nos diz é que a desconexão entre a economia real e a financeira não é acidental: que a economia financeira se distanciou precisamente para fazer frente ao estancamento gerador da superprodução da economial real. Um dos limites do capital pode ser entendido exatamente nesse ponto: o desligamento total do elo material que liga o sistema de produção com o sistema produtivo em vias de desaparecimento...
5) Quais foram os problemas da financeirização como via de saída?
O problema de investir em operações do setor financeiro é que equivale a exprimir valor de valor já criado. Pode criar lucro, de acordo, mas não cria valor – só a indústria, a agricultura, o comércio e os serviços criam valor novo. Visto que os lucros não se baseiam na criação de valor novo ou agregado, as operações de investimento resultam extremamente voláteis e os preços das ações, as obrigações e de outras formas de investimento podem chegar a divergir radicalmente de seu valor real: por exemplo, as ações de empresas incipientes de Internet, que se mantiveram por um tempo em alta, sustentadas principalmente por valorações financeiras em espiral, para logo arruinarem-se. Os lucros dependem, então, do aproveitamento das vantagens por movimento de preços que divergem da alta do valor das mercadorias, para vender oportunamente antes de que a realidade force a “correção” para baixa, a fim de ajustar-se aos valores reais. A alta radical dos preços de um ativo, muito além dos valores reais, é o que se cama de formação de uma bolha. Como podemos resumir esse processo, portanto?
O desabamento de Wall Street não se deve apenas à cobiça e à falta de regulação estatal do setor hiperativo. O colapso de Wall Street tem suas raízes na crise de superprodução que foi a praga do capitalismo global desde meados dos 70.
A financeirização do investimento tem sido uma das vias de escape para sair do estancamento, sendo as outras a da reestruturação neoliberal e da globalização. Tendo resultado de pouco alívio a reestruturação neoliberal e a globalização, a financeirização pareceu atrativa como mecanismo de restauração da rentabilidade. Mas o que agora ficou demonstrado é que a financeirização é uma trilha perigosa que leva à formação de bolhas especulativas, capazes de oferecer uma efêmera prosperidade a uns quantos, mas que terminam no colapso empresarial e na recessão da economia real. Até quando?
Ficam as questões: Quão profunda e duradoura será esta recessão? A economia dos EUA necessitará criar outra bolha especulativa para sair dessa recessão? E se isso for o caso, onde se formará a próxima bolha? Alguns dizem que a próxima surgirá no complexo militar-industrial ou no “capitalismo de desastre” sobre o qual escreve Naomi Klein (livro de urgente leitura!). Mas isso não é farinha do mesmo saco

sábado, 4 de outubro de 2008

A insustentável violência do ser

Sob algumas reflexões acerca a violencia podemos chegar a algumas conclusões sobre nosso tempo. Me amparo aqui principalmente em algumas reflexões feitas por Slavoj Zizek, antigo parceiro de guerra interna de idéias, que expoêm por esse viés uma das grandes contradições do capitalismo tardio.
Primeiramente, vamos fazer uma distinção seminal entre violência e autoridade partindo do pressuposto de que quando existe autoridade a violência é apenas um excesso que, em última instância, não é necessária para o funcionamento correto de determinado sistema de poder. O uso da violência é um sintoma da perda da autoridade então. O que Zizek nota é que a ascensão da violência na pós-modernidade está relacionada com um tipo específico de "violência subjetiva" que prima pelo medo da aproximação do Outro como conduta hegemônica. Sob o espectro dessa violência subjetiva existe a redução de qualquer tipo de problema a sua particularidade não conseguindo acessar o sofrimento do Outro, o excesso constitutivo das trocas inter-humanas que possibilitam a reprodução do ser como ser incompleto permeado por uma falta, por uma troca de significantes. Essa forma de "violencia subjetiva" pode ser entendida sob as novas normas contra os fumantes e os usuários de drogas que, na verdade, são os únicos que tem acesso ao prazer do excesso.
Essa violência subjetiva, por ser uma arma necessária quando existe uma impotência da autoridade dominante das estruturas modernas-simbólicas, atende as demandas do capital sob um investimento do superéu ao consumo desenfreado como resposta à falta-a-ser. Os produtos do mercado entram como substitutos dessa falta que tem um novo imperativo: Goza! Goza! Goza!
Nesse sentido perguntamos: será que a violencia subjetiva que está sendo investida é a resposta apropriada para nossa condição pós-moderna de "tolerância", "multiculturalismo" e "democracia-liberal"? Zizek responderia que não. Devemos nos voltar para a Ética que nos faz aceitar ser responsáveis pela "violência objetiva" que ganha as ruas, os prédios, as cidades, o campo, as favelas, etc. O processo de liberalização dos mercados globais foi feito pelo uso esquemáico da violência, entretanto, por ser uma violência sistemática já simbolizada a priori, pôde tornar-se anônima ou sob o revestimento de uma ordem natural das coisas. Esse é o mestre permissivo pós-moderno que deu uma lição radical nos histéricos de 1968.
O paradoxo é esse, portanto: a sensibilidade a violência subjetiva crescente é diretamente relacionada com a violencia objetiva na sociedade capitalista contemporanea. Aqui devemos nos voltar para a produção contínua dessa violência objetiva já que, a violência subjetiva é, de certa forma, um pleonasmo já que em sua própria constituição existe um sentido inexorável de violência pela palavra que só tem signficado sob determinda dimensão simbolica. A violência não é a mal interpretada, diga-se por sinal, noção marxista de fogo e pedras na rua. A violência é precisamente estabelecida sob determinada dinâmica entre as dimensões imaginárias, simbólicas e reais e, nesse sentido, não pode ser reduzida a nenhuma. Essa é uma das grandes lições lacanianas. Podemos ver uma crítica ao multiculturalismo e a tolerancia aqui? Obviamente.
Para Zizek a tolerância faz parte do ideário da sociedade pós-política baseada na neutradidade. Encontra-se aqui o deslocamento da "forma-política" para a "forma-cultural", típica do isolacionsimo pós-moderno. Esse processo, por ser circunstrito de contradições, trabalha objetivamente como seu contrário: a "tolerância" torna-se intolerância exatamente por sua IMPOSSIBILIDADE de existência. Por não existir meios de comunicação neutros no que diz respeito a possibilidade de acesso ao Outro, a tolerância como imperativo moral pode levar a seu extremo oposto. Aqui entendemos porque Habermas é um filósofo pós-moderno per excellance: ele aceita a idéia da tolerância como a superação da não-aceitação de uma diferença cognifica entre convicções e atitudes que se reproduzam de forma racional. Aqui a democracia entra de sopetão: esse não é exatamente o limite da democracia-liberal? A existencia compartilhada de fissuras em competição que não podem travar uma relação baseada em grandes atos coletivos.
Citando Zizek em sua obra sobre a atualidade de Lênin: "Fidelidade ao consenso democrático significa a aceitação do atual consenso liberal-parlamentar, que impede qualquer questionamento sério da forma como essa ordem democrático-liberal é cúmplice nos fenômenos que ela oficialmente condena, e, é claro, qualquer tentativa séria de imaginar uma ordem sóciopolítica diferente. Em suma, significa: diga e escreva o que quiser - desde que não se questione ou perturbe, na prática, o consenso político dominante". Cabe a todos agora refletir sobre isso, mesmo que o resultado seja a desestruturação de fantasias fundamentais. Sim, a depressão é necessária para poder ver com entusiasmo um pôr-do-sol. Se ele passar desapercebido, o que continuará a abstração do seu sentido mais puro: fim da história.
O capitalismo global é suficiente, mesmo com sua violência objetiva? Enquanto a resposta for positiva, qualquer tipo de alternativa radical será desacreditada. Mesmo que suas tendências sejam catastróficas, social e ecologicamente, o capital não pode permitir existir uma positividade radical para esse processo que envolve a superação desse metabolismo global. Esse é um dos grandes desafios da esquerda do século XXI: aceitaremos de forma fukuyamista o sistema vigente ou apelaremos, pela necessidade, por uma construção de um novo tempo-espaço?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

7 teses sobre a crise atual: parte 2

O capitalismo está em pane geral. Mesmo assim, como no Titanic, os músicos continuam tocando. Não nos enganemos dizemos que a crise atual é apenas financeira ou se remete apenas aos Estados Unidos. Essa crise tem, em sua gênese causal, uma forma global de atuação, circulação, produção e distribuição que impossibilita que essa crise seja apenas em algum lugar longínquo do mundo, principalmente porque o que entra em crise é o coração que bombeia os imperativos existenciais do capital, os Estados Unidos: a maior potência da história. Se a crise se instala no coração, o bombeamento para o resto do corpo torna-se descompassado buscando entrar de acordo com as fissuras desse coração que não consegue mais bombear direito, que não consegue acumular satisfatoriamente e, por conseqüência, se desloca para o uso intensivo de remédios paliativos como o capital financeiro.
Essa dinâmica da crise não está sendo frisada pelos ideólogos do capital que festejam essa crise pelos olhos da mídia como momento oportuno de expansão de notícias, mesmo que na maioria das vezes não ligue de forma alguma esse processo com sua causalidade histórica e social dentro de um plano global de existência do capitalismo global. São happenings que acontecem, e simplesmente acontecem...
Para nortear esse debate podemos sintetizar nosso entendimento sobre a crise atual com as seguintes teses:
1) A crise que os noticiários clamam está ligada diretamente com um processo que se torna dominante, principalmente na década de 1990: a financeirização da economia mundial. Esse processo é, conhecendo a dinâmica de desenvolvimento do capital historicamente, resposta a uma crise muito mais profunda. É a crise estrutural do capital global que afeta a capacidade de reprodução material da economia real, fazendo com que, numa tentativa de atender as demandas intrínsecas por expansão e acumulação, se desloque em massa para o campo financeiro que não é produtivo para a sociedade já que vive da produção de dinheiro por dinheiro, a tautologia última da alienação do capital. Esse processo foi possibilitando o capital financeiro tomar o comando das estratégias econômicas e políticas sob um enorme espectro de especulação e liquidez, também no âmbito mundial. Em outras palavras, o processo de financeirização já é uma resposta para uma crise estrutural do capital que afeta a capacidade de produção de riqueza social global.
2) A crise que desponta atualmente é a crise do capital em si. Sua tendência histórica anda nesse sentido desde meados de 1970: produção destrutiva sem a mínima consideração com as necessidades humanas. O aumento da pobreza, do desemprego e da precarização do trabalho não é mais um sintoma dos países subdesenvolvidos. O centro do capitalismo global já está infectado com essa forma de desenvolvimento cancerosa. É sob esse esgotamento do metabolismo global do capital é que se encontram as crises do final do século XX – crise energética, crise de alimentos, crise financeira, crise do Estado, crise social. Agora os antigos liberais de plantão clamam pela volta do Estado já que, o que está acontecendo agora não faz parte da “lógica do mercado”. O que pode assustar alguns é que exatamente essa lógica é a causadora dessa crise que, momentaneamente, é apenas a ponta do iceberg.
3) Zizek enfatiza que a pergunta que deve ser feita agora é: “qual "falha" do sistema enquanto tal abriu a possibilidade de tais crises e colapsos? Muito está sendo mistificado nesse sentido. “A primeira coisa a ter em mente aqui é que a origem da crise é "benévola": depois da explosão da bolha digital, nos primeiros anos do novo milênio, a decisão feita por ambos os partidos foi facilitar os investimentos imobiliários, para manter a economia andando e impedir a repressão. Logo, a crise atual é o preço que está sendo pago pelo fato de os EUA terem evitado uma recessão cinco anos atrás. Assim, o perigo é que a narrativa predominante da atual crise seja aquela que, em lugar de nos fazer despertar de um sonho, nos possibilitará continuar a sonhar. É nesse ponto que devemos começar a nos preocupar: não apenas com as conseqüências econômicas da crise, mas com a tentação evidente de injetar ânimo novo na "guerra ao terror" e no intervencionismo dos EUA, para manter a economia funcionando a contento”.
4) O golpe cleptocrata de transferência de renda (US$ 700 bi) não pode sustentar as necessidades de reprodução ampliada do capital. Aqui o fim da globalização é eminentemente uma questão de data próxima, pois com o desenvolvimento dos fatos, a necessidade estrutural da volta do Estado como regulador das trocas (passando das trocas financeiras pelas trocas simbólicas) torna-se um imperativo. A tendência para uma hibridização entre o capital e o Estado, já apontado por Mészáros há anos, é o que está em jogo. Perguntemos então: como poderia ser o perfil de um Estado afundado numa guerra, com a maior dívida do mundo historicamente, sob uma grave crise social e de legitimidade, a substância do valor de sua moeda comprometida? Não me parece pessimismo pensar a introdução esquemática e racionalista do Estado como aquele que assegurará a “liberdade”, mesmo que sejam à custa de uma total privação dela. A democracia liberal precisa entrar em xeque para impossibilitar essa mudança. O envenenamento dessa crise num nível global não mostra o fim do capitalismo, mas o fim de uma forma de regulação baseada na desregulamentação generalizada. Como PODERÁ o Estado agir agora, sem fundos e crédito, em relação a seus súditos? A classe-que-vive-do-trabalho, sob o prisma de uma crise global, pode aceitar passivamente ver suas economias se fragmentando junto com as receitas bancárias? Não seria agora o momento de uma ofensiva?
5) A crise deslegitima as estratégias neoliberais. O endividamento generalizado (seja nos EUA, seja no Brasil, seja de populações, seja de Estados) foi à forma de pressionar a continuidade dessa estratégia. Como está sendo visto, essa estratégia possibilitou prolongar sua duração, mas não desviar a trajetória do processo. O que as elites podem fazer? O chamado por uma intervenção do Estado no sentido de atender as necessidades do capitalismo torna-se uma questão de vida ou morte. O conhecido “aparato burocrático” não tem sentido aqui, pois a chamada do capital é instantânea e, nesse sentido, o socorro também precisa ser. A troca de postura dos liberais já é flagrante. A abertura das torneiras da política monetária terá limites? Será que a impressão de dólares não será a resposta mais factível? Os planos de resgate, cada vez mais internacionalizados, poderão dar conta dessa crise global? Os mercados se estabilizaram até as eleições em novembro? Independente do resultado, a bolha está estourando junto com uma bomba-relógio. Quem será que vai segura-la? A prática histórica nos diz que crises como essa levam consigo a busca pelo conservadorismo das elites econômicas e políticas com suas conseqüências sociais: polarização, violência institucionalizada e desemprego.
6) Sob esse processo de expansão da polarização, da violência institucionalizada e do desemprego, praticamente todo o tecido social nos Estados Unidos deve perder sua capacidade de integração, principalmente devida às condições objetivas vindas da elite econômica e política. Até mesmo aqueles com empregos ditos estáveis começam a perder a confiança. Aqui, para as forças socialistas, a urgência é dramática, pois se encontra um grande desafio histórico: como organizar todos esses setores sobre algum determinado denominador comum de luta? A guerra do Iraque toma espaço nesse sentido. A demanda interna para acabar com o conflito também pode significar uma demanda contra a orientação imperialista do Estado e do mercado. Apenas sob a junção estruturalmente necessária entre as classes dominantes sob o espectro do Estado capitalista é que se torna possível acabar com o véu que estrutura a realidade social: a mídia está fazendo de tudo para encobertar esse processo sob a esquizofrenia pós-moderna. Podemos fazer diferente?
7) As quebradeiras não podem parar. O pacote de US$ 700 bilhões só pode dar início à recuperação dessa crise sem construir uma alternativa real para esse estado de coisas. Muitos analistas duvidam que esse pacote pode até mesmo surtir algum tipo de efeito. Preparemos-nos para a forma de regulação do Estado neoliberal falido: ele não pode ter as características positivas do Estado de Bem-Estar, pois esgotou sua capacidade de compra insinuante sob o consumo generalizado. Resta o aparato da força, usado tão facilmente por quem o tem. Em outras palavras podemos dizer que os planos econômicos (feitos de até mesmo de forma bipartidária) não afetam de modo algum as causas dessa crise, seja no nível “específico” dos Estados Unidos ou no sistema-mundo. O dólar tem papel crucial nesse processo: esse dinheiro verde precisa circular, com confiança ou não, independentemente de um desejo de algum capitalista em especial. O tamanho das trocas globais desse dinheiro já passa dos sete dígitos diariamente. Será possível reconstruir todo esse mercado ou devemos pensar seriamente sobre as alternativas a esse metabolismo global do capital, de uma vez por todas?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

a crise estrutural do capital: parte 1

(uma investigação sobre as razões da crise)

Como podemos entender a atual crise que ocorre nos Estados Unidos? Podemos fazer uma ligação com sua crise hegemônica ou, mais ainda, podemos procurar na incapacidade de acumulação e expansão de capital sua profunda raiz? Será uma crise estrutural ou uma crise que apenas mostra algumas imperfeições do sistema capitalista avançado? O que significa, hoje, uma crise no coração do metabolismo global do capital? Quais podem ser as conseqüências? O que podemos fazer?
Essas não são perguntas fáceis para se responder, principalmente devida à instantaneidade com que os fatos estão ocorrendo. É um processo em tempo real, ao vivo como diriam os comentaristas do espetáculo. O grande problema é que, assim como a mídia hegemônica em geral, costuma-se apresentar os fatos desconexos de suas bases causais numa esquizofrenia constante: a subida nos preços dos alimentos em escala mundial não tem absolutamente nada a ver com os processos globalizantes do capital ou a atual crise nos Estados Unidos tem escala apenas nacional não tendo impactos severos na construção mundial da economia com seus processos de exploração do trabalho sob uma divisão internacional. A busca é por não contextualizar os fatos, mas sim apenas fazer acontecer happenings nas notícias buscando por mais espectadores.
Em última análise, não poderia ser diferente. A Verdade é postada ali e é entendida mundialmente por ali também. Ela busca mostrar uma crise que afeta a possibilidade de reprodução de capital em escala global como um corriqueiro mal-estar... Mas será que a crise que se esta noticiando, às vezes até com otimismo para as oportunidades que podem ser criadas nos países menos desenvolvidos, não envolve a totalidade do metabolismo global em que vivemos, ou ainda, será que podemos encarar essa crise como uma simples arritmia ou como o limite do capital como relação social global dominante?
Primeiramente, vamos esclarecer alguns pressupostos de entendimento. Em Marx podemos encontrar a concepção de capitalismo como um sinônimo de crise: o capitalismo seria uma crise constante. Mas por quê? Porque detém um potencial de “revolucionamento” das forças produtivas como nunca na história. Sob o signo do capital foram instauradas transformações tão radicais sob a vida social que olhamos para nossos avôs com estranheza. Eles poderiam até ter nascido em outro mundo.
É nessa mutação viva que se desenvolve o capitalismo, mesmo que não linearmente. É pelas contradições que abalam a vida material que é possível existir essa supressão/superação das normas tradicionais, dos empecilhos de comunicação, da família. Marx até mesmo costumava rechaçar os ataques que viam no comunismo uma dilaceração da família: é só olhar o que o capitalismo está fazendo até nossos dias para entender melhor o que realmente acontece.
Voltemos à crise: sob esse contínuo processo de crise, no sentido de possibilitar atender suas demandas de acumulação e expansão, o capital extrai do trabalho sua “substância”: a mais-valia. Essa é a forma de extração do trabalho excedente sob o controle estrutural do capital. Para assegurar esse processo, o Estado moderno toma a frente e constrói um arcabouço normativo e legalizado perante os servos. Sob o espectro desse Estado constitui-se a força extra-econômica que impõem aos sujeitos sua posição perante a divisão social do trabalho e faz de tudo para reproduzir esse processo. Nesse sentido, o documetário The Corporation é notável. Ali mostra-se como soldados armados asseguram o trabalho precário (feitas, na sua maioria, por mulheres e crianças) feito para empresas transnacionais que fazem pela marca seu diferencial de preço. Isso demonstra como a “sustância” do capital (extração constante e ampliada do trabalho assalariado) é que aquele que dá o motor para que essas empresas (em sua praticamente absoluta propriedade dos países do centro capitalista). Entretanto, isso mostra mais: o monopólio dessas empresas transnacionais possibilita a terceirização do trabalho para lugares remotos do mundo a fim de poder extrair o máximo do trabalho alheio e, nesse mesmo sentido, possibilita um desvario dos preços objetivamente necessário ao capital hoje. No documentário provasse esse diferencial sob o pagamento na escalas de centavos para a hora trabalhada em comparação ao preço de centenas de dólares por uma simples unidade de vestimenta produzida.
Esse desvario dos preços mostra uma realidade mais profunda e sinistra: a incapacidade do capital de se reproduzir e, dessa forma, buscando pelo preço e não pelo valor sua expansão e circulação em escala global. Isso significa que o trabalho humano despedido chega a um limite da completa desvalorização, mesmo que, paradoxalmente, o capital dependa do trabalho para se reproduzir. Esse processo que se inicia em meados de 1970 chega a sua radicalidade após sua maturação: apenas hoje, nesse início de século, é possível entender a crise atual como a crise do metabolismo global do capital.
Muito já se falou sobre a sociedade contemporânea: o neoliberalismo como ofensiva do Estado e do capital contra o espaço público, a crise do antivalor, a privatização generalizada da vida social, o crescimento da violência como código de conduta, o acirramento do medo nas grandes metrópoles, a favelização global, o capital financeiro no comando das estratégias dos mais diversos cantos do mundo, o crescimento do círculo vicioso da dívida externa dos países menos desenvolvidos, etc. O que todos esses fatos têm em comum é que todos fazem parte de uma dinâmica regressiva da sociedade baseada na relação social chamada capital.
O capital financeiro é o aspecto mais explícito nesse sentido: sob as práticas de liberalização do comercio mundial postas pelo neoliberalismo, é possível existir uma expansão exponencial da reprodução do capital financeiro. Entretando, o que é o capital financeiro? É aquele que é expulso do terreno da produção, da economia real, da produção. Como Marx já havia explicado, é capital fictício que pode flutuar sem sua substância, seu sentido. Lembremos aos desavisados que essa medida para expandir o setor financeiro, entretanto, não é uma opção que o capital buscou rumo à emancipação do setor produtivo. Muito pelo contrário. Na verdade a financeirização da economia é uma necessidade objetiva para a contínua expansão do dinheiro. Para Marx, a reprodução do capital se dá pela fórmula D – M –D’. Sob a dominância do capital financeiro, a fórmula corta o aspecto socialmente positivo do capital e reproduz dinheiro a partir de dinheiro: D – D’. A aparência passa a dominar: o dinheiro que passa pelo processo de valorização sob a exploração do excedente do trabalho vivo entra num processo de fictícização já que representa trabalho não produtivo. Dessa forma o capital vive de crédito futuro para sustentar o presente; a produção passou a ser um apêndice do capital fictício. Nessa mesma fórmula, as pessoas também vivem a crédito tentando sustentar o presente endividado. Até quando? Ou melhor, por quê?
A ascensão da financeirização econômica é assim uma resposta fenomênica a uma crise maior, se cunho estrutural que destrói as bases materiais da vida em sociedade. Ela pode criar o crescimento da economia capitalista global, mas não desenvolver as forças produtivas, aquelas que possibilitam a expansão dos valores de uso pela sociedade.
Convenhamos, quando um capital fictício toma as rédeas do crescimento, algum problema está nascendo. São meados dos anos 80: estávamos aqui sob o espectro do neoliberalismo e seus imperativos de liberalização do comércio mundial rumo a uma aldeia global. Em 2008 a ideologia neoliberal que estrutura a realidade econômica atesta sua ineficácia óbvia suspendendo da realidade seus imperativos liberalizantes como um tiro que acabou saindo pela culatra. O capitalismo em sua crise estrutural não deixa dúvidas acerca à ligação cleptocrata entre o Estado e a necessidade de fazer continuar essa odisséia que afeta, em última análise, a classe-que-vive-do-trabalho em nível global.
Essa últimas semanas são calorosas nesse sentido!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O ESTADO DE EXCEÇÃO É A REGRA?

sábado, 2 de agosto de 2008



Pão com Manteiga (1976)

Fazer Download http://www.turboupload.com/download/zc6SMY5E2upZ Baixe e ganhe brindes imateriais de alegria! Desgustem esse pão delicioso!


01. Mister Drá

02. Merlin

03. Flor Felicidade

04. Micróbio do Universo

05. Montanha Púrpura

06. Multi-Átomos

07. Serzinho Sem Medo

08. Cavaleiro Lancelot

09. História do Futuro



Um brinde a psicodelia! Quando começei a escutar essas músicas o susto foi a primeira impressão. Começa simplesmente com "num castelo da idade média...". Com sons inusitados e muita loucura ritmica com mudanças inexplicavéis, as músicas continuam sob uma influência mítica e utópica. Parece que o desenvolvimento é como um ciclo de Kondratieff com um ciclo mais animado procurando trazer uma positividade para muito dos temas tratados no percorrer das músicas. Radicalmente, na faixa 3 começa o buraco existencial que só acaba na última música. Todas as músicas apontam para outro mundo além desse. Não que não esteja aqui, mas por ser marginal muitas vezes é desconsiderado: é um mundo de feitiçeiras, arquétipos jungianos, histórias de bruxas, cavaleiro lancelot, felicidade, astronautas, 2050.

Poderíamos resumir por Existência, em seu pleno sentido de uma constante construção de um devir ainda não existente. Na verdade qualquer forma de normatização ou classificação desse som é uma falsidade.