sábado, 4 de outubro de 2008

A insustentável violência do ser

Sob algumas reflexões acerca a violencia podemos chegar a algumas conclusões sobre nosso tempo. Me amparo aqui principalmente em algumas reflexões feitas por Slavoj Zizek, antigo parceiro de guerra interna de idéias, que expoêm por esse viés uma das grandes contradições do capitalismo tardio.
Primeiramente, vamos fazer uma distinção seminal entre violência e autoridade partindo do pressuposto de que quando existe autoridade a violência é apenas um excesso que, em última instância, não é necessária para o funcionamento correto de determinado sistema de poder. O uso da violência é um sintoma da perda da autoridade então. O que Zizek nota é que a ascensão da violência na pós-modernidade está relacionada com um tipo específico de "violência subjetiva" que prima pelo medo da aproximação do Outro como conduta hegemônica. Sob o espectro dessa violência subjetiva existe a redução de qualquer tipo de problema a sua particularidade não conseguindo acessar o sofrimento do Outro, o excesso constitutivo das trocas inter-humanas que possibilitam a reprodução do ser como ser incompleto permeado por uma falta, por uma troca de significantes. Essa forma de "violencia subjetiva" pode ser entendida sob as novas normas contra os fumantes e os usuários de drogas que, na verdade, são os únicos que tem acesso ao prazer do excesso.
Essa violência subjetiva, por ser uma arma necessária quando existe uma impotência da autoridade dominante das estruturas modernas-simbólicas, atende as demandas do capital sob um investimento do superéu ao consumo desenfreado como resposta à falta-a-ser. Os produtos do mercado entram como substitutos dessa falta que tem um novo imperativo: Goza! Goza! Goza!
Nesse sentido perguntamos: será que a violencia subjetiva que está sendo investida é a resposta apropriada para nossa condição pós-moderna de "tolerância", "multiculturalismo" e "democracia-liberal"? Zizek responderia que não. Devemos nos voltar para a Ética que nos faz aceitar ser responsáveis pela "violência objetiva" que ganha as ruas, os prédios, as cidades, o campo, as favelas, etc. O processo de liberalização dos mercados globais foi feito pelo uso esquemáico da violência, entretanto, por ser uma violência sistemática já simbolizada a priori, pôde tornar-se anônima ou sob o revestimento de uma ordem natural das coisas. Esse é o mestre permissivo pós-moderno que deu uma lição radical nos histéricos de 1968.
O paradoxo é esse, portanto: a sensibilidade a violência subjetiva crescente é diretamente relacionada com a violencia objetiva na sociedade capitalista contemporanea. Aqui devemos nos voltar para a produção contínua dessa violência objetiva já que, a violência subjetiva é, de certa forma, um pleonasmo já que em sua própria constituição existe um sentido inexorável de violência pela palavra que só tem signficado sob determinda dimensão simbolica. A violência não é a mal interpretada, diga-se por sinal, noção marxista de fogo e pedras na rua. A violência é precisamente estabelecida sob determinada dinâmica entre as dimensões imaginárias, simbólicas e reais e, nesse sentido, não pode ser reduzida a nenhuma. Essa é uma das grandes lições lacanianas. Podemos ver uma crítica ao multiculturalismo e a tolerancia aqui? Obviamente.
Para Zizek a tolerância faz parte do ideário da sociedade pós-política baseada na neutradidade. Encontra-se aqui o deslocamento da "forma-política" para a "forma-cultural", típica do isolacionsimo pós-moderno. Esse processo, por ser circunstrito de contradições, trabalha objetivamente como seu contrário: a "tolerância" torna-se intolerância exatamente por sua IMPOSSIBILIDADE de existência. Por não existir meios de comunicação neutros no que diz respeito a possibilidade de acesso ao Outro, a tolerância como imperativo moral pode levar a seu extremo oposto. Aqui entendemos porque Habermas é um filósofo pós-moderno per excellance: ele aceita a idéia da tolerância como a superação da não-aceitação de uma diferença cognifica entre convicções e atitudes que se reproduzam de forma racional. Aqui a democracia entra de sopetão: esse não é exatamente o limite da democracia-liberal? A existencia compartilhada de fissuras em competição que não podem travar uma relação baseada em grandes atos coletivos.
Citando Zizek em sua obra sobre a atualidade de Lênin: "Fidelidade ao consenso democrático significa a aceitação do atual consenso liberal-parlamentar, que impede qualquer questionamento sério da forma como essa ordem democrático-liberal é cúmplice nos fenômenos que ela oficialmente condena, e, é claro, qualquer tentativa séria de imaginar uma ordem sóciopolítica diferente. Em suma, significa: diga e escreva o que quiser - desde que não se questione ou perturbe, na prática, o consenso político dominante". Cabe a todos agora refletir sobre isso, mesmo que o resultado seja a desestruturação de fantasias fundamentais. Sim, a depressão é necessária para poder ver com entusiasmo um pôr-do-sol. Se ele passar desapercebido, o que continuará a abstração do seu sentido mais puro: fim da história.
O capitalismo global é suficiente, mesmo com sua violência objetiva? Enquanto a resposta for positiva, qualquer tipo de alternativa radical será desacreditada. Mesmo que suas tendências sejam catastróficas, social e ecologicamente, o capital não pode permitir existir uma positividade radical para esse processo que envolve a superação desse metabolismo global. Esse é um dos grandes desafios da esquerda do século XXI: aceitaremos de forma fukuyamista o sistema vigente ou apelaremos, pela necessidade, por uma construção de um novo tempo-espaço?

terça-feira, 30 de setembro de 2008

7 teses sobre a crise atual: parte 2

O capitalismo está em pane geral. Mesmo assim, como no Titanic, os músicos continuam tocando. Não nos enganemos dizemos que a crise atual é apenas financeira ou se remete apenas aos Estados Unidos. Essa crise tem, em sua gênese causal, uma forma global de atuação, circulação, produção e distribuição que impossibilita que essa crise seja apenas em algum lugar longínquo do mundo, principalmente porque o que entra em crise é o coração que bombeia os imperativos existenciais do capital, os Estados Unidos: a maior potência da história. Se a crise se instala no coração, o bombeamento para o resto do corpo torna-se descompassado buscando entrar de acordo com as fissuras desse coração que não consegue mais bombear direito, que não consegue acumular satisfatoriamente e, por conseqüência, se desloca para o uso intensivo de remédios paliativos como o capital financeiro.
Essa dinâmica da crise não está sendo frisada pelos ideólogos do capital que festejam essa crise pelos olhos da mídia como momento oportuno de expansão de notícias, mesmo que na maioria das vezes não ligue de forma alguma esse processo com sua causalidade histórica e social dentro de um plano global de existência do capitalismo global. São happenings que acontecem, e simplesmente acontecem...
Para nortear esse debate podemos sintetizar nosso entendimento sobre a crise atual com as seguintes teses:
1) A crise que os noticiários clamam está ligada diretamente com um processo que se torna dominante, principalmente na década de 1990: a financeirização da economia mundial. Esse processo é, conhecendo a dinâmica de desenvolvimento do capital historicamente, resposta a uma crise muito mais profunda. É a crise estrutural do capital global que afeta a capacidade de reprodução material da economia real, fazendo com que, numa tentativa de atender as demandas intrínsecas por expansão e acumulação, se desloque em massa para o campo financeiro que não é produtivo para a sociedade já que vive da produção de dinheiro por dinheiro, a tautologia última da alienação do capital. Esse processo foi possibilitando o capital financeiro tomar o comando das estratégias econômicas e políticas sob um enorme espectro de especulação e liquidez, também no âmbito mundial. Em outras palavras, o processo de financeirização já é uma resposta para uma crise estrutural do capital que afeta a capacidade de produção de riqueza social global.
2) A crise que desponta atualmente é a crise do capital em si. Sua tendência histórica anda nesse sentido desde meados de 1970: produção destrutiva sem a mínima consideração com as necessidades humanas. O aumento da pobreza, do desemprego e da precarização do trabalho não é mais um sintoma dos países subdesenvolvidos. O centro do capitalismo global já está infectado com essa forma de desenvolvimento cancerosa. É sob esse esgotamento do metabolismo global do capital é que se encontram as crises do final do século XX – crise energética, crise de alimentos, crise financeira, crise do Estado, crise social. Agora os antigos liberais de plantão clamam pela volta do Estado já que, o que está acontecendo agora não faz parte da “lógica do mercado”. O que pode assustar alguns é que exatamente essa lógica é a causadora dessa crise que, momentaneamente, é apenas a ponta do iceberg.
3) Zizek enfatiza que a pergunta que deve ser feita agora é: “qual "falha" do sistema enquanto tal abriu a possibilidade de tais crises e colapsos? Muito está sendo mistificado nesse sentido. “A primeira coisa a ter em mente aqui é que a origem da crise é "benévola": depois da explosão da bolha digital, nos primeiros anos do novo milênio, a decisão feita por ambos os partidos foi facilitar os investimentos imobiliários, para manter a economia andando e impedir a repressão. Logo, a crise atual é o preço que está sendo pago pelo fato de os EUA terem evitado uma recessão cinco anos atrás. Assim, o perigo é que a narrativa predominante da atual crise seja aquela que, em lugar de nos fazer despertar de um sonho, nos possibilitará continuar a sonhar. É nesse ponto que devemos começar a nos preocupar: não apenas com as conseqüências econômicas da crise, mas com a tentação evidente de injetar ânimo novo na "guerra ao terror" e no intervencionismo dos EUA, para manter a economia funcionando a contento”.
4) O golpe cleptocrata de transferência de renda (US$ 700 bi) não pode sustentar as necessidades de reprodução ampliada do capital. Aqui o fim da globalização é eminentemente uma questão de data próxima, pois com o desenvolvimento dos fatos, a necessidade estrutural da volta do Estado como regulador das trocas (passando das trocas financeiras pelas trocas simbólicas) torna-se um imperativo. A tendência para uma hibridização entre o capital e o Estado, já apontado por Mészáros há anos, é o que está em jogo. Perguntemos então: como poderia ser o perfil de um Estado afundado numa guerra, com a maior dívida do mundo historicamente, sob uma grave crise social e de legitimidade, a substância do valor de sua moeda comprometida? Não me parece pessimismo pensar a introdução esquemática e racionalista do Estado como aquele que assegurará a “liberdade”, mesmo que sejam à custa de uma total privação dela. A democracia liberal precisa entrar em xeque para impossibilitar essa mudança. O envenenamento dessa crise num nível global não mostra o fim do capitalismo, mas o fim de uma forma de regulação baseada na desregulamentação generalizada. Como PODERÁ o Estado agir agora, sem fundos e crédito, em relação a seus súditos? A classe-que-vive-do-trabalho, sob o prisma de uma crise global, pode aceitar passivamente ver suas economias se fragmentando junto com as receitas bancárias? Não seria agora o momento de uma ofensiva?
5) A crise deslegitima as estratégias neoliberais. O endividamento generalizado (seja nos EUA, seja no Brasil, seja de populações, seja de Estados) foi à forma de pressionar a continuidade dessa estratégia. Como está sendo visto, essa estratégia possibilitou prolongar sua duração, mas não desviar a trajetória do processo. O que as elites podem fazer? O chamado por uma intervenção do Estado no sentido de atender as necessidades do capitalismo torna-se uma questão de vida ou morte. O conhecido “aparato burocrático” não tem sentido aqui, pois a chamada do capital é instantânea e, nesse sentido, o socorro também precisa ser. A troca de postura dos liberais já é flagrante. A abertura das torneiras da política monetária terá limites? Será que a impressão de dólares não será a resposta mais factível? Os planos de resgate, cada vez mais internacionalizados, poderão dar conta dessa crise global? Os mercados se estabilizaram até as eleições em novembro? Independente do resultado, a bolha está estourando junto com uma bomba-relógio. Quem será que vai segura-la? A prática histórica nos diz que crises como essa levam consigo a busca pelo conservadorismo das elites econômicas e políticas com suas conseqüências sociais: polarização, violência institucionalizada e desemprego.
6) Sob esse processo de expansão da polarização, da violência institucionalizada e do desemprego, praticamente todo o tecido social nos Estados Unidos deve perder sua capacidade de integração, principalmente devida às condições objetivas vindas da elite econômica e política. Até mesmo aqueles com empregos ditos estáveis começam a perder a confiança. Aqui, para as forças socialistas, a urgência é dramática, pois se encontra um grande desafio histórico: como organizar todos esses setores sobre algum determinado denominador comum de luta? A guerra do Iraque toma espaço nesse sentido. A demanda interna para acabar com o conflito também pode significar uma demanda contra a orientação imperialista do Estado e do mercado. Apenas sob a junção estruturalmente necessária entre as classes dominantes sob o espectro do Estado capitalista é que se torna possível acabar com o véu que estrutura a realidade social: a mídia está fazendo de tudo para encobertar esse processo sob a esquizofrenia pós-moderna. Podemos fazer diferente?
7) As quebradeiras não podem parar. O pacote de US$ 700 bilhões só pode dar início à recuperação dessa crise sem construir uma alternativa real para esse estado de coisas. Muitos analistas duvidam que esse pacote pode até mesmo surtir algum tipo de efeito. Preparemos-nos para a forma de regulação do Estado neoliberal falido: ele não pode ter as características positivas do Estado de Bem-Estar, pois esgotou sua capacidade de compra insinuante sob o consumo generalizado. Resta o aparato da força, usado tão facilmente por quem o tem. Em outras palavras podemos dizer que os planos econômicos (feitos de até mesmo de forma bipartidária) não afetam de modo algum as causas dessa crise, seja no nível “específico” dos Estados Unidos ou no sistema-mundo. O dólar tem papel crucial nesse processo: esse dinheiro verde precisa circular, com confiança ou não, independentemente de um desejo de algum capitalista em especial. O tamanho das trocas globais desse dinheiro já passa dos sete dígitos diariamente. Será possível reconstruir todo esse mercado ou devemos pensar seriamente sobre as alternativas a esse metabolismo global do capital, de uma vez por todas?

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

a crise estrutural do capital: parte 1

(uma investigação sobre as razões da crise)

Como podemos entender a atual crise que ocorre nos Estados Unidos? Podemos fazer uma ligação com sua crise hegemônica ou, mais ainda, podemos procurar na incapacidade de acumulação e expansão de capital sua profunda raiz? Será uma crise estrutural ou uma crise que apenas mostra algumas imperfeições do sistema capitalista avançado? O que significa, hoje, uma crise no coração do metabolismo global do capital? Quais podem ser as conseqüências? O que podemos fazer?
Essas não são perguntas fáceis para se responder, principalmente devida à instantaneidade com que os fatos estão ocorrendo. É um processo em tempo real, ao vivo como diriam os comentaristas do espetáculo. O grande problema é que, assim como a mídia hegemônica em geral, costuma-se apresentar os fatos desconexos de suas bases causais numa esquizofrenia constante: a subida nos preços dos alimentos em escala mundial não tem absolutamente nada a ver com os processos globalizantes do capital ou a atual crise nos Estados Unidos tem escala apenas nacional não tendo impactos severos na construção mundial da economia com seus processos de exploração do trabalho sob uma divisão internacional. A busca é por não contextualizar os fatos, mas sim apenas fazer acontecer happenings nas notícias buscando por mais espectadores.
Em última análise, não poderia ser diferente. A Verdade é postada ali e é entendida mundialmente por ali também. Ela busca mostrar uma crise que afeta a possibilidade de reprodução de capital em escala global como um corriqueiro mal-estar... Mas será que a crise que se esta noticiando, às vezes até com otimismo para as oportunidades que podem ser criadas nos países menos desenvolvidos, não envolve a totalidade do metabolismo global em que vivemos, ou ainda, será que podemos encarar essa crise como uma simples arritmia ou como o limite do capital como relação social global dominante?
Primeiramente, vamos esclarecer alguns pressupostos de entendimento. Em Marx podemos encontrar a concepção de capitalismo como um sinônimo de crise: o capitalismo seria uma crise constante. Mas por quê? Porque detém um potencial de “revolucionamento” das forças produtivas como nunca na história. Sob o signo do capital foram instauradas transformações tão radicais sob a vida social que olhamos para nossos avôs com estranheza. Eles poderiam até ter nascido em outro mundo.
É nessa mutação viva que se desenvolve o capitalismo, mesmo que não linearmente. É pelas contradições que abalam a vida material que é possível existir essa supressão/superação das normas tradicionais, dos empecilhos de comunicação, da família. Marx até mesmo costumava rechaçar os ataques que viam no comunismo uma dilaceração da família: é só olhar o que o capitalismo está fazendo até nossos dias para entender melhor o que realmente acontece.
Voltemos à crise: sob esse contínuo processo de crise, no sentido de possibilitar atender suas demandas de acumulação e expansão, o capital extrai do trabalho sua “substância”: a mais-valia. Essa é a forma de extração do trabalho excedente sob o controle estrutural do capital. Para assegurar esse processo, o Estado moderno toma a frente e constrói um arcabouço normativo e legalizado perante os servos. Sob o espectro desse Estado constitui-se a força extra-econômica que impõem aos sujeitos sua posição perante a divisão social do trabalho e faz de tudo para reproduzir esse processo. Nesse sentido, o documetário The Corporation é notável. Ali mostra-se como soldados armados asseguram o trabalho precário (feitas, na sua maioria, por mulheres e crianças) feito para empresas transnacionais que fazem pela marca seu diferencial de preço. Isso demonstra como a “sustância” do capital (extração constante e ampliada do trabalho assalariado) é que aquele que dá o motor para que essas empresas (em sua praticamente absoluta propriedade dos países do centro capitalista). Entretanto, isso mostra mais: o monopólio dessas empresas transnacionais possibilita a terceirização do trabalho para lugares remotos do mundo a fim de poder extrair o máximo do trabalho alheio e, nesse mesmo sentido, possibilita um desvario dos preços objetivamente necessário ao capital hoje. No documentário provasse esse diferencial sob o pagamento na escalas de centavos para a hora trabalhada em comparação ao preço de centenas de dólares por uma simples unidade de vestimenta produzida.
Esse desvario dos preços mostra uma realidade mais profunda e sinistra: a incapacidade do capital de se reproduzir e, dessa forma, buscando pelo preço e não pelo valor sua expansão e circulação em escala global. Isso significa que o trabalho humano despedido chega a um limite da completa desvalorização, mesmo que, paradoxalmente, o capital dependa do trabalho para se reproduzir. Esse processo que se inicia em meados de 1970 chega a sua radicalidade após sua maturação: apenas hoje, nesse início de século, é possível entender a crise atual como a crise do metabolismo global do capital.
Muito já se falou sobre a sociedade contemporânea: o neoliberalismo como ofensiva do Estado e do capital contra o espaço público, a crise do antivalor, a privatização generalizada da vida social, o crescimento da violência como código de conduta, o acirramento do medo nas grandes metrópoles, a favelização global, o capital financeiro no comando das estratégias dos mais diversos cantos do mundo, o crescimento do círculo vicioso da dívida externa dos países menos desenvolvidos, etc. O que todos esses fatos têm em comum é que todos fazem parte de uma dinâmica regressiva da sociedade baseada na relação social chamada capital.
O capital financeiro é o aspecto mais explícito nesse sentido: sob as práticas de liberalização do comercio mundial postas pelo neoliberalismo, é possível existir uma expansão exponencial da reprodução do capital financeiro. Entretando, o que é o capital financeiro? É aquele que é expulso do terreno da produção, da economia real, da produção. Como Marx já havia explicado, é capital fictício que pode flutuar sem sua substância, seu sentido. Lembremos aos desavisados que essa medida para expandir o setor financeiro, entretanto, não é uma opção que o capital buscou rumo à emancipação do setor produtivo. Muito pelo contrário. Na verdade a financeirização da economia é uma necessidade objetiva para a contínua expansão do dinheiro. Para Marx, a reprodução do capital se dá pela fórmula D – M –D’. Sob a dominância do capital financeiro, a fórmula corta o aspecto socialmente positivo do capital e reproduz dinheiro a partir de dinheiro: D – D’. A aparência passa a dominar: o dinheiro que passa pelo processo de valorização sob a exploração do excedente do trabalho vivo entra num processo de fictícização já que representa trabalho não produtivo. Dessa forma o capital vive de crédito futuro para sustentar o presente; a produção passou a ser um apêndice do capital fictício. Nessa mesma fórmula, as pessoas também vivem a crédito tentando sustentar o presente endividado. Até quando? Ou melhor, por quê?
A ascensão da financeirização econômica é assim uma resposta fenomênica a uma crise maior, se cunho estrutural que destrói as bases materiais da vida em sociedade. Ela pode criar o crescimento da economia capitalista global, mas não desenvolver as forças produtivas, aquelas que possibilitam a expansão dos valores de uso pela sociedade.
Convenhamos, quando um capital fictício toma as rédeas do crescimento, algum problema está nascendo. São meados dos anos 80: estávamos aqui sob o espectro do neoliberalismo e seus imperativos de liberalização do comércio mundial rumo a uma aldeia global. Em 2008 a ideologia neoliberal que estrutura a realidade econômica atesta sua ineficácia óbvia suspendendo da realidade seus imperativos liberalizantes como um tiro que acabou saindo pela culatra. O capitalismo em sua crise estrutural não deixa dúvidas acerca à ligação cleptocrata entre o Estado e a necessidade de fazer continuar essa odisséia que afeta, em última análise, a classe-que-vive-do-trabalho em nível global.
Essa últimas semanas são calorosas nesse sentido!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O ESTADO DE EXCEÇÃO É A REGRA?

sábado, 2 de agosto de 2008



Pão com Manteiga (1976)

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01. Mister Drá

02. Merlin

03. Flor Felicidade

04. Micróbio do Universo

05. Montanha Púrpura

06. Multi-Átomos

07. Serzinho Sem Medo

08. Cavaleiro Lancelot

09. História do Futuro



Um brinde a psicodelia! Quando começei a escutar essas músicas o susto foi a primeira impressão. Começa simplesmente com "num castelo da idade média...". Com sons inusitados e muita loucura ritmica com mudanças inexplicavéis, as músicas continuam sob uma influência mítica e utópica. Parece que o desenvolvimento é como um ciclo de Kondratieff com um ciclo mais animado procurando trazer uma positividade para muito dos temas tratados no percorrer das músicas. Radicalmente, na faixa 3 começa o buraco existencial que só acaba na última música. Todas as músicas apontam para outro mundo além desse. Não que não esteja aqui, mas por ser marginal muitas vezes é desconsiderado: é um mundo de feitiçeiras, arquétipos jungianos, histórias de bruxas, cavaleiro lancelot, felicidade, astronautas, 2050.

Poderíamos resumir por Existência, em seu pleno sentido de uma constante construção de um devir ainda não existente. Na verdade qualquer forma de normatização ou classificação desse som é uma falsidade.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

CRENÇA NA UTOPIA É AINDA A MELHOR FORMA DE QUESTIONAR A EXCLUSÃO SOCIAL

Por Slavoj Zizek


Um dos grafites mais conhecidos dos muros de Paris em 1968 era: “As estruturas não andam pelas ruas!”. Isto é, não se podem explicar as grandes manifestações de estudantes e trabalhadores do Maio de 68 como determinadas pelas mudanças estruturais na sociedade.Mas, segundo [o psicanalista] Jacques Lacan, foi exatamente isso o que aconteceu em 1968: as estruturas saíram às ruas. Os eventos explosivos visíveis foram, em última instância, o resultado de um desequilíbrio estrutural -a passagem de uma forma de dominação para outra; nos termos de Lacan, do discurso do mestre para o discurso da universidade.Os protestos anticapitalistas dos anos 60 suplementaram a crítica padrão da exploração socioeconômica pelos temas da crítica social: a alienação da vida cotidiana, a “mercadorização” do consumo, a inautenticidade de uma sociedade de massa em que “usamos máscaras” e sofremos opressão sexual e outras etc.

Prazer extremo
Mas o novo espírito do capitalismo recuperou triunfalmente a retórica anti-hierárquica de 1968, apresentando-se como bem-sucedida revolta libertária contra as organizações sociais opressivas do capitalismo corporativo e do socialismo “realmente existente”.O que sobreviveu da libertação sexual dos anos 1960 foi o hedonismo tolerante, facilmente incorporado a nossa ideologia hegemônica: hoje o prazer sexual não apenas é permitido, é ordenado -os indivíduos se sentem culpados quando não podem desfrutá-lo.A tendência às formas radicais de prazer (por meio de experiências sexuais e drogas ou outros meios de indução ao transe) surge em um momento político preciso: quando o “espírito de 68″ esgota seus potenciais políticos. Nesse ponto crítico (meados dos anos 70), a única opção restante foi um direto e brutal empurrão para o real, que assumiu três formas principais: a busca por formas extremas de prazer sexual, a opção pelo real de uma experiência interior (misticismo oriental) e, finalmente, o terrorismo político de esquerda (Fração do Exército Vermelho na Alemanha, Brigadas Vermelhas na Itália etc.). O que todas essas opções compartilham é um recuo do engajamento sociopolítico concreto para um contato direto com o real. Lembremos aqui o desafio de Lacan aos estudantes que protestavam: “Como revolucionários, vocês são histéricos que exigem um novo mestre. Vocês vão ganhar um”. E o ganhamos, sob o disfarce do mestre “permissivo” pós-moderno cuja dominação é mais forte por ser menos visível. Sem dúvida, muitas mudanças positivas acompanharam essa passagem -basta citar as novas liberdades das mulheres e seu acesso a cargos de poder. Entretanto essa passagem para um outro “espírito do capitalismo” foi realmente tudo o que aconteceu nos eventos do Maio de 68, de modo que todo o entusiasmo ébrio de liberdade foi apenas um meio de substituir uma forma de dominação por outra?Muitos sinais indicam que as coisas não são tão simples. Se examinarmos nossa situação com os olhos de 1968, devemos lembrar o verdadeiro legado desse ano: seu núcleo foi uma rejeição ao sistema liberal-capitalista.É fácil zombar da idéia do “fim da história” de Francis Fukuyama, mas hoje a maioria é fukuyamista: o capitalismo liberal-democrático é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível, e tudo o que se pode fazer é torná-la mais justa, tolerante etc.

Ecologia e apartheid
Hoje a única verdadeira questão é: nós endossamos essa naturalização do capitalismo ou o capitalismo global de hoje contém antagonismos fortes o suficiente para impedir sua infinita reprodução? Há (pelo menos) quatro desses antagonismos: a sombria ameaça da catástrofe ecológica, a inadequação da propriedade privada para a chamada “propriedade intelectual”, as implicações socioéticas dos novos avanços tecnocientíficos (especialmente em biogenética) e as novas formas de apartheid, os novos muros e favelas. Os primeiros três antagonismos se referem aos domínios do que Michael Hardt e Toni Negri chamam de “comuns”.Há os “comuns de natureza externa” ameaçados pela poluição e a exploração (do petróleo a florestas e o próprio habitat natural), os “comuns de natureza interna” (o legado biogenético da humanidade) e os “comuns de cultura”, as formas imediatamente socializadas de capital “cognitivo”, basicamente a língua, nosso meio de educação e comunicação.A referência a “comuns” justifica a ressurreição da idéia de comunismo: nos permite ver o envolvimento progressivo dos comuns como um processo de proletarização daqueles que são assim excluídos de sua própria substância.No entanto é apenas o antagonismo entre os “incluídos” e os “excluídos” que realmente justifica o termo comunismo. Em diferentes formas de favelas ao redor do mundo, presenciamos o rápido crescimento da população sem o controle do Estado, vivendo em condições meio fora-da-lei, em terrível carência de formas mínimas de auto-organização.Se a principal tarefa da política emancipatória do século 19 foi romper o monopólio dos liberais burgueses por meio da politização da classe trabalhadora, e se a tarefa do século 20 foi despertar politicamente a imensa população rural da Ásia e da África, a principal tarefa do século 21 é politizar -organizar e disciplinar- as “massas desestruturadas” dos que vivem nas favelas.Se ignorarmos esse problema dos excluídos, todos os outros antagonismos perdem seu viés subversivo. A ecologia se transforma em um problema de desenvolvimento sustentável, a propriedade intelectual em um complexo desafio jurídico, a biogenética em uma questão ética.

“Sejamos realistas”
Sem o antagonismo entre incluídos e excluídos, poderemos nos encontrar em um mundo em que Bill Gates é o principal humanista, lutando contra a pobreza e as doenças, e Rupert Murdoch o maior ambientalista, mobilizando milhões de pessoas por meio de seu império da mídia.O verdadeiro legado de 1968 é melhor resumido na fórmula “soyons realistes, demandons l’impossible!” [sejamos realistas, exijamos o impossível!].A verdadeira utopia é a crença em que o sistema global existente pode se reproduzir indefinidamente. A única maneira de ser verdadeiramente realista é imaginar o que, dentro das coordenadas desse sistema, só pode parecer impossível.

SLAVOJ ZIZEK é filósofo esloveno e autor de “Um Mapa da Ideologia” (Contraponto), Bem vindo ao deserto do Real (Boitempo), Arriscar o impossível (Martins fontes), As portas da revolução (Boitempo), entre inúmeros outros. Ele escreve na seção “Autores”, do Mais!.Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves.

domingo, 13 de julho de 2008

Crise ou Utopia? Réquiem de Situacionismo!


Um dos grandes slogans libertários em maio de 1968 era “Seja realista, exija o impossível”. Atualmente, grande parte das reivindicações sociais diz respeito a não-exclusão da esfera capitalista do emprego, lazer ou consumo. Se em 1968 existia uma luta pela construção de outro tipo de sociedade, atualmente o lugar-comum é mais dentro do terreno da distopia: uma comemoração política do fim dos sonhos sociais. Um tempo que é mais fácil pensar numa destruição total da vida na terra do que uma mudança radical no capitalismo.
Porém, sem cair em algum tipo de nostalgia exorbitante do passado, muitas demandas por mudanças foram “esvaziadas” de seu conteúdo para inserir-se dentro dos imperativos existenciais do capital de acumulação e expansão. Tornaram-se inofensivas como as camisetas do Che Guevarra. Nesse processo é necessário dar ênfase aos símbolos da cultura, da arte e da política que se tornaram mais pedras no caminho da mudança do que agentes ativos no processo de construção de uma ordem qualitativamente superior. Ou, de uma forma mais dialética, a negatividade por si só não é nada sem sua ação e um pólo de positividade nas redes que criam constantemente o ser social.
Temos, porém, um agravante que põem em risco a própria existência humana.
Desde meados de 1970 entramos numa profunda crise. Essa crise é multidimensional e afeta diretamente as possibilidades materiais de reprodução sociometabólica do capital como relação social. O efeito mais claro desse processo é o desemprego estrutural global. Não são menos de 1 bilhão de desempregados ou trabalhadores em empregos precários no mundo, segundo dados da OIT. Quase um terço da força de trabalho humana disponível está à mercê da informalidade ou do não-emprego.
As grandes cidades da América Latina mostram essa realidade de maneira cruel, tanto pelo crescimento desenfreado da violência e do medo quanto seu resultado no encarceramento privado das elites em suas cidades sob medida: os alphavilles, shopping centers, aeroportos e autoestradas para seus incontáveis carros.
O que grande parte da esquerda via como progresso, agora mostra a face do individualismo consumista, do domínio sob a natureza, do fetichismo da mercadoria que permite os seres sociais suportarem uma realidade miserável e, assim, os distancia de uma intervenção real nas condições que reproduzem sua própria alienação.
A pobreza das grandes cidades não mora mais em bairros pobres. Desde 1970 está existindo uma absorção da população urbana para as favelas. Seu crescimento exponencial chega a passar os 30% da população urbana vivendo em favelas. Como exemplos existem países como Brasil (36,6%), China (37,8%), Turquia (42,6), Índia (55,5%), Peru (68,1%), Nigéria (79,2), Tanzânia (92,1%), Etiópia (99,4). Na politização e organização dessa densa camada populacional encontra-se uma das esperanças de contra-poder.
Nesse sentido, a América latina lidera o ranking de maiores favelas do mundo. As cinco maiores se encontram aqui e juntas somam mais de 11.2 milhões de habitantes! Obviamente, não sendo uma condição propriamente apenas latina americana, temos os efeitos da globalização do capital tem todos os cantos do mundo, fato esse que nos lembra Marx e sua visão necessariamente global de capital. O que nos rende essa fortuita concepção é encararmos o desafio do século XXI: restringir o capital num processo de superação radical de seu sistema de intercambio social e com a natureza.
O que as últimas décadas mostraram foi o evidente: para o capital não existem limites. Seja à força de trabalho independente da idade, sexo, nacionalidade, cor; representantes eleitos democraticamente; a natureza que tem limites claros num processo de deterioração em um ritmo exponencial e que pode, no máximo, se tornar mais uma das commodities na feira global como ocorre com o mercado de carbono.
O progresso entra aqui como a ideologia dominante que tenta perpetuar a relação de poder existente e impedindo que exista uma avaliação crítica sobre as transformações necessárias. Nesse ponto, a tecnologia é crucial: ela é apresentada como politicamente neutra e não permeada pela luta de classes. Olhe que fetichismo! Assim como a mercadoria, a tecnologia obscurece as relações de classe deslocando seu conteúdo para a esfera da técnica. Os únicos que perceberam isso foram os ludditas que destruíram as máquinas quando perceberam que a tecnologia tem um papel central na reestruturação das relações sociais na intenção de tornarem-se relação entre coisas. Aqui se exige uma reestruturação profunda no próprio espaço onde essas tecnologias são utilizadas. O carro, por exemplo, desperdiça mais tempo que economiza, cria mais distâncias do que supera. Torna a cidade inabitável, fedorenta, barulhenta e asfixiante. Nessa lógica, criam-se apenas carros mais rápidos para fugir em auto-estradas para lugares cada vez mais distantes. O resultado é que as pessoas ficam longe de tudo e de todos. Nunca estão em lugar nenhum, apenas passam.
Essa desintegração das cidades tem como início a desistegração do ser social que tem seu produto de trabalho alienado; estranho a si mesmo. Uma divisão social do trabalho baseada na exploração do trabalho excedente pelo capital assegurada pelo Estado.
Somos mercadorias visando mercadorias, andando dentro de mercadorias e procurando nos relacionar com mercadorias. Perdemos o controle para o espetáculo que cria a realidade social. Como descrevia Walter Benjamin, estamos num trem que tem como destino o precipício: ou acionamos o freio de emergência ou estamos fadados à extinção. Enquanto a dominação de classe que se baseia na expropriação dos poderes de decisão social continuar existindo, a pauta do socialismo continuará uma necessidade urgente.
Entramos numa época-limite nunca presenciada na história. Ao mesmo tempo em que a alienação mostra-se global e unificada pelos meios de comunicação, não existe mais a capacidade para a resolução dos grandes problemas sociais criados por essa mesma forma de reprodução da sociedade. A revolução como permanente transformação da vida social contra as formas de alienação e perda de controle é a única tentativa contra o capital como relação social dominante. É da consciência dessa necessidade que se encontra a Utopia. Não uma utopia conservadora como o neoliberalismo que trás apenas uma radicalização do presente, mas sim uma utopia crítica impura. Que possibilite trazer consigo a diferença.
Se a realidade rebaixa esse tipo de utopia, não existe opção senão desconstruir a validade da realidade, não apenas esperando uma modesta melhora nas condições materiais, mas inclusive introduzindo desvios para darmos um respiro contra a alienação, a feiúra da cidade, a reificação social, as latas que amontoam e destrói a serenidade das ruas, a vida assalariada que expolia o gozo num presente eterno que exclui o mais importante: a experiência. Enquanto o global é o hegemônico, o local torna-se invisível.
Tornar visível o fascismo social que também é local torna-se, assim, um dos objetivos socialistas atuais. Conseguir mudar os termos do conflito não apenas no pressuposto da legalidade já que, como sabemos a liberdade não é escolher entre determinadas escolhas e sim poder determinar as escolhas.
Por essa razão, temos que reinventar a slogan de “seja realista, exija o impossível”. Não existe uma entidade que assegure qualquer tipo de exigência. Muito pelo contrário, o que existe é uma incontrolabilidade do capital para expandir-se tornando o que for necessário (a saúde física e mental humana, a cultura, a natureza, as condições materiais, a política dos altos escalões, a espoliação deliberada) um mecanismo de acumulação. Poucas pessoas não sabem disso vivendo o cotidiano. Até se podia exigir alguma coisa quando se acreditava que alguém iria representar adequadamente alguma classe, grupo, porém sob os tristes pseudo-jogos da não-participação, atualmente isso é inconcebível: “seja realista, arrisque o impossível”.
Somos culpados, mas ainda podemos expropriar os juízes. Se os conselhos autonomistas e interdependentes não conseguirem fazê-lo, ninguém o pode fazer. Por uma auto-gestão social generalizada nada melhor do que uma renovada manifestação total, sete dias por semana, sessenta segundos por minutos.